domingo, 17 de agosto de 2025

Abandono

 

A ideia que dá, é que este país está ao abandono, nos incêndios e noutras matérias. Estamos abandonados. 

sexta-feira, 8 de agosto de 2025

As odaliscas em Sintra

 

Estou bem lembrada de quando pegaram nalgumas odaliscas (que nada mais eram antigamente senão escravas - o que para os adeptos do eterno feminino vinha mesmo a calhar) e as colocaram a dançar a dança do ventre em Sintra e isto para defender a honra e a História dos Templários medievais que traziam na cabeça e que tinham vindo diretamente do século XIII e assentado arraiais numa quintinha neo templária (e também na Regaleira) em jeito de resposta a determinados alertas relativamente ao Islão. Nas suas cabeças idiotas, o Islão era para "integrar" porque em Jerusalém templários e intelectuais muçulmanos tinham sido muito amigos há muitos séculos atrás. O modelo devia ser copiado nos dias de hoje, todos integrados uns nos outros e felizes e ai de quem anunciasse em voz alta o perigo islâmico. Estou bem lembrada de uma idiota chapada, pouco antes de fazer bullying à minha pessoa, ter colocado, na sua cara que já era desagradável e antipática, uma expressão de nojo comentando o Antigo Testamento. Isto numa casa de cultura. Nessa altura eu tinha dúvidas, mas esse bando de energúmenos, tinha certezas. Só que há dúvidas que surgem direitinhas da tradição (e as dúvidas são muito mais importantes do que as certezas) e podem funcionar como motor da sabedoria. Hoje, andam caladinhos que nem ratos e refugiam-se nas ervinhas medicinais. Um deles, teve a distinta lata de me dizer que eu não andava bem. Pois não. E como se viu o mundo piorou muito desde aí e, a pouco e pouco, se desvendam os intuitos fanáticos de bandos cheios de certezas. Nada mais do que bandos de ignorantes. Naturalmente, afastei-me de tal gente e fui recolhida por artistas que me revigoram e me lembraram (como não andava bem, andava esquecida) de que não tinha de prestar contas a ninguém, quanto muito ao céu que fica por cima de nós. Aos meus alertas, responderam com odaliscas mal amanhadas que tinham aprendido a dança do ventre numa qualquer espelunca dos subúrbios (o que é natural porque a mulher, serve para procriar e pouco mais em terras islâmicas sejam elas mais ou menos densamente povoadas por bandos de fanáticos). 

Sob a capa de Merlin, pagão, traziam outra, a de neo - templários, porque bem lá no fundo não passavam de acólitos e de produtos inconscientes de um catolicismo que se encontra decadente há séculos, mas cujos efeitos, vindos das profundezas da infância , não mais tinham deixado de existir: "uma vez soldado, para sempre soldado". Para o público mais íntimo, auto-intitulavam-se de gnóstiscos, uma espécie de betinhos de Cascais da Igreja Católica. Esta louca da casa começou a retirar-lhes as capas, uma a uma e deu-se conta, não sem choque, da total confusão. Hoje, os tempos são outros e é mais fácil ver a nitidez da linha do horizonte, isto para quem está interessado. Aqueles que já tinham tendência para a justiça, continuam a tê-la, os que não tinham, não se pronunciam a não ser para falar, quais "misses" Universo , de paz e amor isto quando sobem ao pódio (leia-se púlpito), numa época de total desnorte e altamente conflituosa. E continua a ser o que há. 

sábado, 10 de maio de 2025

O voto em branco


 Descobri que o voto em branco é o mais puro. E que as pessoas que lêem este blogue são estranhas porque o lêem de repente. Quando era pequena escrevia "derepente", assim tudo junto porque era de repente e não havia tempo para pausas. Mas dizia que as pessoas que aqui param são estranhas. É natural pois não as conheço. É muito raro dizer a alguém que tenho um blogue porque sei que bem lá no fundo não suportariam a liberdade do outro. Tinham logo que dizer "concordo", "não concordo", é bonito", "está mal escrito", "não percebi". Não digo nada para não ter de as ouvir depois. Prefiro o anonimato na leitura das palavras. As pessoas tornam-se anónimas das minhas palavras porque não as conhecem e as relações podem fluir naturalmente como se não tivesse escrito nada. Às vezes falam sobre um tema qualquer e quase que caio na armadilha quando dentro de mim digo "que engraçado, já escrevi sobre isto", mas a prudência da pomba, faz-me não dizer nada em voz alta, remeto-me para a expressão interessada de quem ouve e nada sabe dizer sobre o tema. Ultimamente tenho  adoptado personalidade mais estúpida que alguma vez tive: não falo de nada interessante, nem profundo. Já sei que isto vai desembocar numa crise qualquer e que acabo por evocar um dos lemas do Carvalho Monteiro, onde, na parte de trás da medalha estava escrito: "sem ti, morro" e na parte da frente uma flor num vaso era iluminada por um sol. Espero não chorar, nesse dia. Mas penso que não. A maior virtude, penso que seja passar pelo espírito e regressar à terra. É a maior virtude porque para isso é necessária uma paciência de Jó. Este ano só tenho feito coisas que ofendem a minha essência e, como não a quero ver ofendida, crio personagens que fazem da vida uma coisa profundamente estúpida. Envolvo-me em atividades que não lembram ao diabo e são todas expectáveis e aceites socialmente. Mas a minha alma não está lá. Neste momento está escondida algures, a fazer meia, provavelmente. À minha espera, qual Penélope. Mas mantenho o sorriso e a compostura. Mas só me apetece desancar pessoas. Bater, mesmo. Mas como há um lado que ri, a alma fica quieta. Não vale a pena sermos profundos com ananases. Fica a beleza de reserva. "Que pintura linda!", dizem, sobretudo o povo. E ficam com a beleza que lhes foi reservada, o resto, fica com a alma calada, envolvida em mantos, quase como se estivesse morta. Um dia disseram-me: "Ela agora está sossegadinha, mas não se sabe quando volta ao mesmo". Claro, que não era um elogio. Era como se não me suportassem, nem morta. E é verdade, apetece-me desancar alguém. Talvez o país todo, talvez o mundo inteiro. Mas dá muito trabalho. É mais fácil criar personagens-moscas-mortas. É mais louvável, aplaudível, etc. Como a comida sem sal da cantina. Claro que já enjoei a comida saudável da cantina e dei por mim no restaurante a comer nacos de carne suculentos e a elogiar a cozinheira. Ninguém aguenta, nem merece. De maneira que quem lê este blogue tem de levar comigo, mas não conviver comigo pois se tal acontecer assiste ao paradoxo da mosca morta que é uma Fênix colorida quando lhe apetece. E ninguém aguenta, nem merece. A insatisfação está cá, trepa por mim acima e sinto os seus dedos a tocar no corpo todo. Coisa viva que é! 

domingo, 20 de abril de 2025

Os homens de negócios

 



Não percebo o espanto pois há muito tempo que a política é dominada pelos homens de negócios. Está tudo chocado com os homens de negócios. O problema é não haver limites para a riqueza, diz a antropóloga. As pessoas até podiam ser ricas, mas com um limite, mas como estabeleceram que o céu é o limite, ei-los a governar, agora já não na sombra, mas em plena luz do dia. Os países compram-se e vendem-se e as pessoas vão a reboque. E o que é que estes ricos têm para oferecer? Mau gosto. Têm todos um gosto deplorável,  não espalham qualquer tipo de beleza à sua volta, não percebem nada de harmonia e o seu livro preferido é o de contabilidade porque não conhecem as letras, apenas os números. Por isso não se espantem com nada. Dizia o povo que quanto mais se contava o gado, mais ele se perdia... E quanto mais as nações forem dependentes das contagens dos mercados, mais se vão perdendo. E nem o cão-psicopompo têm para os guiar na jornada de perdição. A política desaparece, sobram apenas uns cartazes manhosos nas manifestações de rua empunhados por crianças às cavalitas de pais muito indignados. O limite à riqueza, nada tem a ver com comunismo, tem a ver com o bom senso que é o contrário do comunismo. A América está cheia de filantropos em fim de vida que vendo que não sabem o que fazer ao dinheiro, depois de terem explorado uma data de pessoas, distribuem-no conforme podem, isto quando não financiam partidos e eleições para serem ainda mais ricos. Faz-me lembrar Samora Machel que espalhava granadas e depois distribuia próteses pelas vítimas. O princípio é o mesmo. Os oligarcas deste mundo, são os príncipes deste mundo. E com um tremendo mau gosto, porque não têm cultura, refinamento, nem elegância. Podem ser levados à taberna, mas nunca ao S.Carlos. Os ingleses, há muito tempo,  diziam que as crianças eram para mostrar. Queriam dizer com isto que elas deviam saber estar. Estes burgueses, não sabem estar, quanto mais Ser. Já se viram, nas américas, rituais de sacrifícios humanos em massa sempre que os líderes deslizavam para o disparate. Em nome dos mercados, também se pode fazer isso, não é necessário ser um lider religioso ou apenas político. Não é diferente, o perigo permanece, intacto, íntegro e inteiro. 



❤️❤️❤️

https://youtu.be/Gb1FrnjlXoo?si=LbkiaCiUlclA_NNJ 

sábado, 19 de abril de 2025

A luz


 Diz a História da China que quando o ambiente na cidade ficava caótico, os sábios subiam a montanha e lá no cimo se refugiavam. Nem é necessário ser sábio para ter a mesma reação nestes dias correntes, pois o "mundano" está tão confuso e impossível de se aguentar que basta ter uma inteligência razoável para o fazer. Discorrer sobre o estado do mundo ou escrever poesia é a mesmíssima coisa em termos de efeitos. Nunca pensei que iria viver num mundo distópico onde tudo espelha tudo. Isto parece uma espécie de prisão onde só o silêncio cortante guarda o oxigénio necessário para se viver. Nem sei o que dirão os historiadores do futuro, isto é, se existirem historiadores no futuro pois em breve será muito natural dar a História como extinta, como se esta fosse um animal que não se adaptou.  Qualquer dia sai um decreto-lei a extingui-la por não servir para nada, nem dar lucro. Muito não se falará no futuro deste presente, até porque não há nada para dizer. O presente é uma espécie de droga psicadélica. Eu não preciso dessa droga. Agora a nova modalidade é estar com os olhos bem abertos na escuridão e ver as imagens psicadélicas a passar com as suas cores fosforescentes. Elas passam, e fico a vê-las como espectadora passiva. Não me assustam nem me distraiem, ficam para ali a passar e depois desaparecem. Igualzinho a este mundo. Mais berrante, mas igualmente alucinante . No futuro já sei que vou esquecer estes episódios psicadélicos que não faço ideia porque é que me acontecem. Chego a suspeitar que é apenas uma forma de sintonia com a contemporaneidade e nada mais. É que nem lições advêm dessas imagens, tal e qual o que se passa com o mundo. 

Estou a escrever só porque tenho insónias. São duas e vinte e cinco da manhã e o vento resolveu levantar-se em rajadas. Elas levam-me a virar a cabeça para a janela e dou por mim a falar com o vento como se fosse uma pessoa: "O que é que queres?" E o vento responde: "Nada". Pois é natural, é só vento. Também o vento me diz que é apenas o espelho de um outro vento, que por sua vez espelha outro. O mais parecido com a época actual é um redemoinho. Não há lógica num redemoinho, nem tempo para o medir e torná-lo aceitável mentalmente. É um pedacinho de ar que se levanta e nos leva a dar voltas muito rápidas. É como ser enrolado por uma onda. Já fui enrolada por várias ondas e lembro-me da sensação estranha de não perceber onde era o alto e o baixo. A desorientação era total. Igualzinho aos tempos de hoje.  Por isso, não me perguntem nada neste momento, estou em pleno redemoinho, enrolada numa onda. Não há nada para dizer, nem opinar, nem esperar sequer. Tornou-se tudo de plástico. De plástico plastificado, ou não fosse um espelho. As imagens psicadélicas são espelhos e nada mais. Vou aterrar no cimo da montanha e guardar o segredo da História. A História não serve para nada, nem dá lucro, mas é um segredo. Agora, mal escrevi a palavra História, começou a chover. Como dizia Pessoa, chove lá fora, mas cá dentro acendeu-se uma luz. Quem só vê o profano, não vê o sagrado. Esquece-se da luz.