sexta-feira, 3 de abril de 2015

Aspas

Aspas, por tudo o que faço,
como se tudo não fosse o que é
mas outra coisa que não é, e quer ser...
Aspas, é o que deixo, como partes e à partes
de coisas incompletas nas ideias,
das ideias incompletas nas coisas.
Aspas tornando as palavras catapultas...
Todos nós somos aspas de qualquer coisa.
Todos os nomes são aspas dos verdadeiros.
Todo o mundo é aspas de um outro próximo...



(Cynthia Guimarães Taveira)

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Chegada...




Não me perguntem por onde andei,
das viagens só trago imagens,
e tudo o que é sempre uma insubmissão,
na aldeia tranquila que vos habita.
Se de longe trago trajes, jóias,
deuses novos adornados de orações,
ou, se delas trago a miséria ,
Intragável de sangue e dor,
não queiram saber se não querem saber,
de que outros climas fui beber,
do que vos desencanta na arte breve,
de um gesto acontecido e indiscreto,
junto à lareira dos serões em que adormecem.
Toda a novidade é um crime no largo,
e não poupa a marcha compassada,
do solitário universo que em vós se vos instalou,
feito todo ele como se fossem o que são... e só um.
Não queiram saber do sabor salgado do mar,
se ele salga a terra onde penam sol-a-sol,
e dos martírios que negam o vosso.
Não me perguntem por onde andei,
para que não pasmem nem retenham
imagens que não são vossas,
e se esqueçam da enxada dorida,
a meio da tranquilidade morta.
Não assistam ao meu regresso
e não me digam que não me viram ontem,
se isso vos lembra a triste e inquieta esperança
que vos recusa na paisagem final em vosso torno...
Não me perguntem por onde andei,
verbo louco tornado múltiplo,
luz colhida de outras bem-aventuras,
improvável recreio dos sonhos que não têm,
arte improvisada sem história,
tempo, outro, engolindo o vosso,
levando-os a deitar a lágrima que vos torna em vão...
Não me perguntem por onde andei
se não andaram também, nada sei,
nem uma ponte de saudade é erigível,
se sem outra parte ela não há,
e dessa outra parte nunca cheguei a chegar,
à aldeia tranquila que encontro e que vos habita,
nesta viagem que fiz sem que nunca fosse dita...
 
 

(Cynthia Guimarães Taveira)

terça-feira, 31 de março de 2015

Folclore


 
À parte de todas as pontes que nos sustêm as viagens entre o que queremos ou não queremos, converge para o alto a voz, mesmo que a vários níveis dada. A experiência das letras, coisa tipicamente portuguesa, conduz à inevitavel sabedoria dos níveis de compreensão. O grau de exigência implícito na aparente simplicidade de um povo é um facto maior, a ter em conta, aquando nasce um poema, um conto, ou um retrato vivo do que somos. Escrever para letrados, sobretudo para letrados nas iniciações dos livros, não é o mesmo que escrever  para a criança que quer saber. Muito é dito no pequeno sem que se note, sequer, a pedagogia implícita, no respeito máximo pelos níveis dos quais cada um aufere.
O desprezo erudito, é em tudo semelhante, à ignorância que um povo pode ter.


(Cynthia Guimarães Taveira)

segunda-feira, 30 de março de 2015

Profecia aguda



Há um antegozo usufruído
Na antevista que contemplo
Lá te vejo nascido
Na antecâmara de viver
Anteiror a tudo isto
Só a anteesperança de te ter
Lembro-me dela na antenoite
Antes até de aparecer
Antes que antecipes tudo isto
Sei um pouco mais aquém
Antegosto do teu gosto
Antes mesmo de ele vir a ser
Parte do tudo que o tudo tem.


 
(Cynthia Guimarães Taveira)

O sonho



Hoje acordei com um sonho
Demasiado fácil de decifrar.
Zanguei-me comigo.
-- Tão fácil?  disse. --  Não saberás fazer melhor?
Intriga-me que o sonho não me intrigue.
É quase como que uma ofensa.
Eu quero uma mentira plena
Para que nela ache a verdade...
 
 
 

(Cynthia Guimarães Taveira)

Mar das lamentações



Há tantas varandas sobre o mar
Quanto os sonhos semi-feitos
Ainda por amar
Tantos barcos na praia
Uns parados,
Outros em partida
E nenhum deles é chegada..
Há tantos pôr-do-sol
Abraçados à memória
Tanto fogo de sant’elmo
Explicando o milagre da electricidade...
Há tantos estados d’alma
Como vidas inteiras acontecidas
Tantas respostas prometidas
Nos socalcos destas rochas
Lanço nas sua poças
Pequenos barcos de papel
Cada um é um poema,
Perdido ao olhar
De quem vê o mar
Nunca achado
nem sido de ninguém
Cada um deles, um recado
Feito no sonho
Que Deus tem 

(Cynthia Guimarães Taveira)

Saudade adormecida

 
 
Somos iguais, eu e tu,
Até naquilo que nos negamos,
Vivemos
Do mesmo modo nos escondemos
Atrás da árvore,
Do mesmo modo trepamos o monte
Há uma igual
energia que nos cerca
Quando de punhos cerrados
Batemos o pé
Somos iguais nos outros eus
Que por dentro  observam
Equiparáveis
Na negação do sonhos
E no acto de sonhar
Não somos espelhos um do outro
Somos mais de que superficeiis fáceis
O nosso cabelo ao vento
É o testemunho vivo
Da liberdade que nos distancia um do outro
Igual liberdade, a única
A que serviu para nos moldar
Nos moldes que recusamos
O nosso abismo está nas nossas mãos
A nossa memória está no bem que nos sentimos
A nossa história não é deste mundo
Ninguém se percebe de igual forma
Como nós
Ninguém se imagina como nós
Somos iguais
Como dois gémeos verdadeiros não o são
No modo como o teu andar por fora,
Ligeiro, quase feminino,
Oposto ao meu
É o meu por dentro
E vice-versa
Somos iguais,
Porque atravessámos a linha do tempo
Porque o espaço da distancia
Nos aproxima, paradoxalmente
Não somos Eros, nem Psique
Porque ambos somos as duas coisas
Juntos formamos a mandala
Adivinhada pelo poeta
Já nem nos buscamos
Porque já nos encontrámos
E todos os momentos
Passaram a ser
os do nosso nascimento
Adormecemos a saudade, sem querer...


(Cynthia Guimarães Taveira)