quarta-feira, 29 de julho de 2020
terça-feira, 28 de julho de 2020
Pintura e suicídio
Soube de alguém que se suicidou. Ao longo de anos queixou-se que ninguém ligava à sua pintura. Não sei se isso contribuiu ou não para o seu suicido. O que sei é que, frequentemente, a pintura anda de mãos dadas com a loucura. Houve muitos pintores loucos e muitos se suicidaram, muitos conhecidos e muitos que permaneceram desconhecidos. Conheço as crises que a pintura nos pode causar. Como a palma das minhas mãos. Para continuarmos vivos temos, de alguma forma, de nós libertar da pintura não deixando de pintar. Temos absolutamente de o fazer. Tomei como lema pessoal, para acabar de vez com a cultura do sofrimento: "Ninguém vai gostar nunca da minha pintura". E não chorei mais. Choro pelos que se matam ou enlouquecem. Um choro fininho. Por mim, por causa da minha pintura, não choro mais. Digo para mim própria "os filhos da mãe não entendem" e prossigo. Prefiro a revolta às lágrimas. A rebeldia à depressão. Prefiro pintar a parede de um quarto de uma só cor, a não pintar nada. Um muro de um jardim, uniforme. Qualquer coisa me dá gozo. Arrancar a tinta velha do muro para pintar de novo. Tenho muita pena dos que partem levando consigo o seu sonho. Tenho pena de não lhe ter dito: "Olha!", "Vê!", E de lhes dizer que no "ver" é que está o ganho. Mais do que em qualquer obra que façamos. Ver é o primeiro acto de criação. O mais puro. O mais genuíno. Já pensava assim Almada Negreiros, aquele da "estrada da alma", que é dura e bela. A quem cria: que nunca desista de ver. É o que mais desejo.
segunda-feira, 27 de julho de 2020
Tem muito mais, tem sim
"Coimbra tem mais encanto/ na hora da despedida"
Letra do fado "Balada da Despedida"
Tem sim, tem. Sobretudo porque Coimbra é o maior foco de misoginia do país.
Gata Gnóstica
Ontem minha gata Safira não me largava a pedir atenção e a tapar o ecrã com todo o seu corpo. Fui buscar um velho cartão com a fotografia de um velho gato e disse-lhe:
-- É para ti. Um amor platónico para te distraires e para ver se me deixas ver televisão em sossego!
O amor platónico pode ser bom para os animais, torna-os mais gnósticos e menos chatos. As coisas que se aprendem com determinados mundos esotéricos são extraordinárias. E úteis que elas são!
João Teixeira da Motta e a "ausência" de ego...
O esforço que alguns, no mundo esotérico português, fazem para anunciarem a todo o mundo que não têm ego, ou não querem ter, é notável! Não lhes sai é muito bem, não sei porquê.
https://observador.pt/especiais/joao-teixeira-da-motta-o-ultimo-guardiao-da-espada-de-d-miguel-sempre-senti-que-um-dia-ela-deveria-reintegrar-as-joias-da-coroa/
quarta-feira, 22 de julho de 2020
Thor
Troveja e, enquanto troveja no céu
Na terra, trovejam os homens
Da terra saem vapores infernais
A chuva rápida toca o chão
Relembro as viagens dadas
E as noites enganosas
E de as abandonar
Ao relento da trovoada
Ecos tristes de homens uivando
A sua morte nocturnal
Uivando esguios na sua sombra
À luz do trovão
Thor, Thor, que me dizes?
Que não há engano no que iluminas
Se iluminas as negras sombras
De um panteão
Relembro as noites idas
De vozes de assombro e de curvas
Enfáticas nas notas dos uivos
Dos homens-lobos que são
Que iluminas, tu, oh Thor,
Com a tua espada fria
Na noite imersa em nuvens?
Vínculo que não esperei
No vento estrondoso do Norte
Deste-me a ver os rostos sombrios
Escondidos nas sombras do que são
Quem diria, Thor que o teu trovão
Estaria tão perto do meu coração.
Na terra, trovejam os homens
Da terra saem vapores infernais
A chuva rápida toca o chão
Relembro as viagens dadas
E as noites enganosas
E de as abandonar
Ao relento da trovoada
Ecos tristes de homens uivando
A sua morte nocturnal
Uivando esguios na sua sombra
À luz do trovão
Thor, Thor, que me dizes?
Que não há engano no que iluminas
Se iluminas as negras sombras
De um panteão
Relembro as noites idas
De vozes de assombro e de curvas
Enfáticas nas notas dos uivos
Dos homens-lobos que são
Que iluminas, tu, oh Thor,
Com a tua espada fria
Na noite imersa em nuvens?
Vínculo que não esperei
No vento estrondoso do Norte
Deste-me a ver os rostos sombrios
Escondidos nas sombras do que são
Quem diria, Thor que o teu trovão
Estaria tão perto do meu coração.
(Cynthia Guimarães Taveira)
sábado, 18 de julho de 2020
Desconcerto
Também tu, meu irmão, me chamaste a atenção para o desconcerto do mundo anotado pela pena de Camões. Escuto a tua voz como se escutasse uma outra e só posso sorrir. E notar em quem se lança na espiral do tornado sem que note. Mais nota, menos nota e lá vão, enfeitados com asas de papel numa procissão de mártires cansativos e cansados, mas cuja voz os auto-embriaga. O nervosismo não é belo e nada tem a ver com a inquietação. É composto por tiques pouco humildes e uma vontade de compensação das frustrações. A inquietação é outra coisa porque, no profundo mar agitado, a calma impera, a paz é dona de tudo. O nervosismo é feito de veias trémulas, que se agrupam e desagrupam conforme as euforias e as disforias provocadas pela importância que se julga ter, sugerindo um falso equilíbrio feito de uma benevolência demasiado esperada para ser verdadeira. A inquietação é feita de correntes fortes, hemisférios desavindos, Apocalipses, epopeias sonoras e visíveis e contradições chocantes impossíveis quase de olhar nos olhos... A seiva profunda corre na inquietação, a suas raízes afundam-se numa raiz ainda mais profunda e invisível. Apazigua-me a tua voz, meu irmão, por saberes do que falo sem falar e por dizeres tudo o que sei e que, só por isso, sei ouvir. O tornado é a imagem rarefeita da arte, e qualquer nevoeiro é mais belo do que o baço vento que se levanta. Quando os olhos baços azuis se encontram com os olhos tristes da terra, o drama do desencontro, do desconcerto, substituí o azul límpido d'outros olhos e a alegria de uma terra morena capaz de pedir perdão.
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