Estava noutro dia a ver um filme quando uma das personagens chamou a atenção para outra para o facto de, em muitas línguas, a palavra “mentir” ser um verbo e de a palavra “verdade” raramente o ser. Achei graça, parecia coisa de António Telmo quando observa à lupa, e com extremo cuidado a língua portuguesa. A verdade é exacta e o grau ilusório desta existência está, apesar disso, contido na verdade como seu eixo e motor. A meia verdade é condição da existência, embora não seja meia, seja apenas um pequenino indício dela que se espalha depois pelas acções, pelas palavras, pelas cores, pelas almas. Dizia ontem cá em casa, num misto de revolta e de firmeza: “Peço imensa desculpa, mas gosto de colunas de mármore. Gosto da visão delas num patamar de pedra que dê para uma paisagem tão alta que seja possível fazer companhia às nuvens e donde se possa ver todos os amanheceres mornos e novos, sobre as árvores, sobre o mar, sobre o manto branco do vapor de água enquanto leves cortinas claras esvoaçam com a brisa que lhes toca como uma carícia.”Para mim, isso é a beleza e não prescindo dela, nem a troco, nem a substituo, nem permito que nenhum outro “projecto estético” moderno possa conviver, lado a lado, com essa visão interior que me acompanha como epifania daquilo que é belo. E como é belo, é verdadeiro. Não há Picasso que derrube essa imagem, por mais intelectual que seja, por mais que se entenda que o homem é um conjunto de fragmentos que, quase por sorte, se alinham numa possível caracterização da imagem humana. Neste época moderna, este tipo de intransigência é logo apelidado de fanatismo, conservadorismo cego, algo retrógado... há um conto sufi que fala de Jesus Cristo a passar numa estrada quando se depara, em conjunto com aqueles que o acompanhavam, com um cão morto à beira do caminho. Todos voltam a cara e comentam o facto horrorizados. Cristo, porém, repara nos dentes de marfim do cão e diz serem belos, brilhantes e reluzentes. Nem a morte o desviou da verdade da beleza. Evidentemente que foi mal tratado, moído com chicotadas e espetado com pregos. A heresia que a verdade é, tal como a da beleza, choca os verdadeiros fanáticos deste mundo. Os que não possuem qualquer discernimento, os que não reconhecem o eixo, o centro e o motor da própria existência e, com a maior leviandade, pelo puro prazer de se estar vivo e não morto, pela euforia de se estar vivo por não se conhecer a outra face da morte, proclamam que o inestético, o feio, o aberrante é equivalente, em termos intelectuais ao belo. Quando a intelectualidade é reduzida à sua capacidade mecânica e, por isso, quantitativa, nem se trata de relativismo no juízo aquilo a que se assiste. Trata-se de um paupérrimo jogo de damas em vez de um riquíssimo jogo de xadrez. É assim que Picasso, a grafitização, a arquitectura moderna, etc e tal e imagens de beleza conseguem viver lado a lado, coexistido alegremente no mesmo departamento mental da mentalidade moderna. E exctamente com o mesmo valor, como as peças de um jogo de damas. Algo frívolo, uma simples e lúdica estratégia para que haja um casamento com o mundano e não um complexo jogo de xadrez, entre-cruzando peões, reis, bispos, torres e rainhas, com as suas personalidades diversas e cuja conquista desejada é a de um Novo Reino. Esta comparação pode ser aplicada até no cartaz escandaloso da candidata Garcia que diz que irá fazer tremer o sistema, levando os politólogos a estremecer de raiva. Se observarmos bem a política aberrante em que andamos envolvidos veremos que o valor das lindas peças em jogo é todo igual. Porque é que o sistema treme? Porque deixa que os extremistas se aproximem cada vez mais do poder. E porque é que o sistema treme para os extremistas? Porque os impede de chegar ao poder... a profundidade e a inteligência da política actual não passa disto e os reinos, que tinham personalidade, História, passado, peso e propósito há muito que foram abandonados como um jogo de xadrez com todas as peças derrubadas, não por nenhum xeque-mate, mas por ter sido invadido por damas e senhores, frívolos de uma corte de esfarrapados que se distraem nas tardes aburguesadas, a bebericar chá, abanado o leque, se estiver mais calor, para conquistar o mundo porque todos eles são príncipes deste mundo e nunca reis ou rainhas de qualquer reino cujo perfil é imediatamente reconhecido ao ponto de aparecer nas moedas trocadas entre reinos... De maneira que Picasso pode ser engraçadinho como um bebé cujas fraldas o fazem parecer um pato, mas a grandeza da imagem de beleza, pairando acima das nuvens, entre colunas (há muito se esqueceu que entre as colunas só pode reinar a verdade), persiste teimosamente no meu espírito ainda que, por causa disso, tenha de renunciar a esta arquitectura moderna cujas rectas geladas fazem a delícia de Lucifer, lá onde se encontra, no lugar gelado da pirâmide invertida. É assim que começa a nascer uma verdadeira desobediência à lei da modernidade a qual nada mais é senão a redução do intelecto a um sistema binário sob a capa do relativismo, da hiper-tolerância (onde é que já vai e tolerância simples? E o Amor, consta que em tempos houve) ou sob a capa do pacífico-agressivo ou pior, da total indiferença e hipocrisia que terão os seus “avatares” nas próximas gerações que já se preparam para isso, agarradas ao ecrã (como verdadeiro mundo) e às causas ensinadas nas salas de aula com as quais hipocritamente concordam só para não terem chatices. A geração futura é a mais bem preparada nestes tópicos, para além da soberba, sua matrix, que os ensinou a sentiram-se superiores porque “leram” na Internet as “gordas” das notícias, que são afinal escanzeladas... Alegra-me saber que não cedo nem um milímetro na minha falta de tolerância no que toca ao belo. É a taça por onde bebo a bebida da imortalidade, é a cornucópia da abundância que me permite ainda sentir e não dizer que sinto. Porque o que se diz, actualmente, é uma mentira em acção, podia até substituir-se o verbo “dizer” pelo verbo “mentir” que ninguém notaria a diferença. Excepto uns poucos, intransigentes e demasiado apegados a uma determinada visão da beleza. Não por mérito, mas porque nasceram assim. O mérito é dos príncipes deste mundo que se esforçam por herdarem qualquer coisinha. Em vão, porque só herdarão este mundo, nunca um outro, e muito menos um Novo Reino.
sexta-feira, 3 de setembro de 2021
O belo
terça-feira, 31 de agosto de 2021
Três mulheres
Reuniram-se, as três mulheres, à beira da piscina. Tinham três idades e a mais nova procurava estabelecer uma ponte entre as outras duas que se situavam em visões diferentes perante o céu.
Este é um universo gnóstico como qualquer outro. Creio que herdamos, nesta civilização ocidental, o gnosticismo como forma de participação em alguma coisa em que queremos acreditar. As três mulheres eram equivalências de três visões gnósticas diferentes e cada uma estava fechada no seu próprio universo, até mesmo a mais noiva, no seu universo fechado todo desenhado a pontes. O problema desta herança incompleta é exactamente o seu fechamento em si, para cada uma das pessoas, um isolamento que se vai tonando cada vez maior à medida que o tempo passa. Talvez para quem esteja assim, fechado sobre si próprio, esse facto não constitua um problema porque o isolamento nunca permite ver para além dessa linha que separa o interior do exterior. Cada gnóstico, herdeiro da chamada tradição gnóstica, acaba junto à sua crença, tendo-a como única companhia. Somente o hermetismo confere alguma partilha e liberdade. O gnosticismo é apenas uma excrescência, frequentemente disforme, que se despegou do organismo vivo que continua a ser o hermetismo e obriga a todos os que por lá passam a tomar a árvore pela floresta e, a dado momento, o silêncio da árvore é avassalador e tão incrível como uma árvore no deserto, solitária durante milhares de anos sem que alguma vez as suas sementes possam ter brotado mesmo ali ao lado ou porque a terra não deixou ou porque as sementes não eram verdadeiramente sementes. Quanto ao hermetismo, quando a poluição é muita, é mais salutar a reserva e a ausência de acção. Qualquer acção só serve o cansaço e o cansaço só serve o sono profundo. Foi isso que senti quando vi as três mulheres à beira da piscina, molhando os pés enquanto falavam. Ainda que cada uma estivesse fechada no seu universo ocluso onde a fé subsistia revelando-se em várias formas, numa mulher, através da oração, noutra através do riso e numa outra através das palavras, senti-me elevar para além delas ao vê-las nesse Verão que tinha sido tão fresco como as águas onde mergulhavam as memórias. À medida que me sentia pairar, crescia em mim a insatisfação, a inquietude energética com que a arte bafeja os seus, ao mesmo tempo que lhes dá a capacidade de se elevarem numa espécie de paz, um paradoxo vivo difícil de ser compreendido. Mas nós, os herméticos, capazes de nos desdobrarmos em três mulheres que se refrescam (sem que seja necessário porque todo o Verão foi fresco), fechadas na sua frescura gnóstica, sabemos o quão difícil é admitir que a poluição é muita e que não é o Verão em si que é tóxico, nem as três mulheres que só estão paradas dentro de si mesmas, mas todo o corpo terrestre que se contorce e fumega, expelindo os enxofres que partem da humanidade e se enterram no subsolo para, em seguida, surgirem vivos das suas entranhas, rodeando os seres e levando os herméticos à mais aborrecida da probabilidade dos seus destinos: a não fazerem absolutamente nada a não ser elevarem-se numa insatisfação perpétua e pacífica.
(Cynthia Guimarães Taveira)
quarta-feira, 25 de agosto de 2021
O talibã disfarçado de santinho
Este texto que abaixo publico na íntegra de José António Saraiva tem os seus fundamentos em apenas duas coisas: a superioridade sexual do homem, reduzida, evidentemente, à sua força muscular e o esquecimento conveniente do primeiro crime descrito na bíblia (ainda hoje é tido como crime) que foi o da morte de Abel às mãos de Caim. O sedentário assassina o nómada. Trata-se de um fratricídio, a base de todas as guerras. O que este senhor tenta fazer é reacendê-las todas sob a capa da santidade. Coloquei algumas frases do seu texto a negrito, precisamente aquelas que o aproximam do fundamentalismo islâmico, excepto o caso da monogamia porque o Islão resolveu adaptar os costumes tribais concedendo a cada homem a possibilidade de possuir 4 mulheres em simultâneo de forma a resolver o seu problema físico e talvez para lhe diminuir a agressividade canalizando-a para o acto sexual (o bordel cristão tem a mesma função) e com a excepção, igualmente, ao mandamento “não matarás”, coisa desconhecida no meio fanático islâmico, mas não deixando, por isso, de nunca ter sido esquecido durante toda a História do cristianismo. Não deixa o senhor de escrever ser um apreciador de arte moderna, o que é sintomático da esquizofrenia essencial que lhe assiste. Recordo que O Senhor, recusou a oferenda de Caim. O Senhor que há em mim, leva-me a recusar este texto do princípio ao fim. E logo eu que até não gosto nada de arte contemporânea e que só gosto de algumas coisas da arte moderna (espero que o senhor saiba, pelo menos, a diferença entre arte moderna e arte contemporânea). Qualquer conversão à força se faz na base de enfiar tudo no mesmo saco e de colocar as coisas a preto e branco e não “preto no branco”. O Senhor, que há em mim, sabe muito bem a diferença que existe entre “haver um Senhor em mim” e “transportar o templo comigo”. O primeiro é normal, o segundo é fanatismo. José António Saraiva transporta com ele a Civilização Europeia e toma-a como o seu Templo. Um verdadeiro talibã disfarçado de santinho. Evidentemente que o texto pode ser esmiuçado e analisado frase a frase, mas não me apetece. Afinal, é a questão do fratricídio que se encontra na base de tudo isto. E consta que foi um homem o autor do mesmo. E assim se perde a alma. A razão, há muito que foi perdida.
Eis o texto publicado no semanário Sol por José António Saraiva:
"Quando os bárbaros chegaram ao Sul da Europa e à Península Ibérica, no início do século IV, encontraram povos num estádio superior de civilização.
Os romanos tinham implantado na sua zona de influência estruturas políticas, administrativas, sociais e económicas que geravam modos de vida que os bárbaros desconheciam.
Caído o império romano, a Igreja Católica ‘substituiu-o’ no papel de consolidar e fazer funcionar essas estruturas, defendendo ao mesmo tempo o cumprimento de regras essenciais à vida em sociedade. Não matar, não roubar, não cobiçar a mulher do próximo nem o seu servo nem o seu boi, não usar o homem como mulher, etc., eram princípios sem os quais a vida em comunidade se tornaria um inferno.
Além disso, ao defender a família, o cristianismo dava um passo determinante para a estruturação das sociedades. Uma família supunha uma casa. E precisava de terra para cultivar e de animais para ajudar no trabalho do campo. E de animais de criação. E o conjunto de bens que a família acumulava – casa com o seu recheio, terra, animais, alfaias agrícolas – constituía um património que passava de pais para filhos, assim surgindo o conceito de herança. E a herança supunha a monogamia, sem a qual se tornava difícil identificar os herdeiros. Com uma família estável – um pai, uma mãe e filhos – os beneficiários da herança não ofereciam dúvidas.
Sobre as famílias assim organizadas construíram-se os municípios e sobre os municípios construiu-se o Estado. Que, com a sua burocracia, garantia o funcionamento daquilo que era colectivo, pertença de todos. Assim se construíram sociedades organizadas.
Os bárbaros, quando chegaram ao Sul da Europa, estavam noutro patamar civilizacional. Vinham em hordas por aí abaixo, homens mulheres e crianças, e desconheciam as leis que regulavam a vida dos povos do Sul.
Matavam, roubavam, violavam as mulheres, não cultivavam a monogamia, viviam em promiscuidade sexual: tinham relações uns com os outros, não sabiam de quem eram os filhos. Como povos nómadas, não tinham o sentido da propriedade nem da posse da terra. Não conheciam artes de cultivo. Não sabiam o que era a herança. Não se organizando em famílias, toda a construção social daí para cima era caótica.
Obedeciam a chefes omnipotentes que impunham uma ordem rudimentar.
Durante vários séculos, atravessando a Idade Média, a Idade Moderna e entrando na Idade Contemporânea, a organização social que vinha dos romanos, consolidada pela Igreja Católica, manteve-se relativamente estável no Sul da Europa.
Com a chegada da revolução industrial, porém, este mundo vai entrar em crise. Quase tudo muda. A posse da terra torna-se secundária em relação à produção industrial. As cidades crescem enormemente. As mulheres entram no mercado de trabalho. A vida em família altera-se.
O homem perde protagonismo, as mulheres ganham independência, os filhos deixam parcialmente de ser criados em casa e vão para creches ou para colégios internos, a estabilidade familiar é abalada, os divórcios aumentam.
O positivismo avança, com o consequente recuo da influência da Igreja Católica.
Todos os mandamentos entram em crise. As mulheres começam a ter uma vida social que as faz arranjarem-se mais.
Tornam-se mais sedutoras. Deixa de ser proibido cortejar a mulher do próximo. A liberdade sexual cresce muitíssimo.
Tudo aquilo que era considerado ‘conquistas da civilização’ subitamente é posto em causa. A crise da família, ou seja, da célula-base em cima da qual se fazia a construção social, abala tudo o resto. O conceito de património familiar, a educação dos filhos, as questões sucessórias, tudo isto fica em causa.
O próprio respeito pela vida humana, a ideia de que a vida é o valor supremo – não matarás – entra em crise. A despenalização do aborto é a primeira machadada neste princípio. A liberdade da mulher para fazer o que quer do seu corpo (ou do que transporta dentro de si) sobrepõe-se à inviolabilidade da vida. E seguir-se-á a eutanásia.
Chega-se ao extremo de se achar que a distinção entre homens e mulheres é artificial. Os meninos aprendem que o ‘género’ é uma construção social, que um menino pode afinal ser uma menina e vice-versa, que o facto de ter um órgão assim ou assado não quer dizer nada. A diferença entre homem e mulher, cuja união permite a reprodução da espécie e cuja associação estável possibilita uma sociedade organizada, perdeu-se.
Estas mudanças reflectem-se hoje em todas as manifestações humanas. A arte tornou-se rude. Boa parte da literatura perdeu o nexo, a música tornou-se ruído, a pintura é caótica, a escultura é abstrusa. Mesmo quem gosta de arte moderna, como eu, não pode deixar de reconhecer que entre uma pintura de Rubens e um quadro abstracto com meia dúzia de pinceladas ao acaso, ou entre uma sinfonia de Beethoven e uma música techno, vai um abismo. Umas são manifestações de uma civilização no seu apogeu, outras são produtos de um mundo decadente.
E na forma de vestir manifesta-se a mesma regressão. Até há uma duas gerações as pessoas procuravam arranjar-se, parecer bem; agora passa-se o contrário: a moda são os cabelos despenteados ou as cristas imitando tribos primitivas, a roupa sem formas, as calças rotas.
Esta sociedade doente, que esqueceu as regras e os princípios que lhe deram superioridade, aproxima-se da barbárie.
Pode matar-se em certas circunstâncias, a monogamia é uma coisa do passado, a família desfez-se, a promiscuidade sexual instalou-se (já se fala em ‘policasamentos’, ou seja, casamentos em grupo), o património familiar perdeu sentido, as heranças complicaram-se.
Adoptamos costumes e práticas de povos que estavam num estádio de civilização muito inferior ao nosso quando entraram na Península.
Todas as civilizações têm uma ascensão, um apogeu e uma queda. E a queda, normalmente, é para patamares inferiores aos do início. E é nessa fase que nos encontramos.
Claro que temos a tecnologia, os computadores, os telemóveis, os satélites, as naves espaciais, etc. Mas também
Roma tinha uma tecnologia muito superior à dos bárbaros e caiu às mãos destes.
Porquê?
Porque desenvolvera a técnica mas perdera a alma. Aquilo que estava na origem de tudo."
domingo, 22 de agosto de 2021
Palavras a 22 de Agosto
O universo gerou em mim um sol
e o mundo tornou-se numa lua do meu corpo
e o meu corpo, num planeta do meu coração
onde o sol brilha e as crianças brincam
numa colina verde ou à beira-mar azul.
E até o o reflexo da piscina na casa amarela
é o meu pensamento aquático murmurando luz.
Não há ramos verdes nos meus passos.
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Não fiz nada de nenhum ofício,
Nem nenhum ofício fez nada de mim.
Foi como se namorássemos,
perpetuamente às escondidas,
e nunca conhecêssemos o altar
onde o véu da noiva se estende até ao mar
como um rio sem acidentes, direito e liso,
a caminho do destino.
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Acordo com a neura
do bonito dia
sem acrescentos ou faltas.
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Engrossam as fileiras dos "terra a terra"
e tornam, assim, a terra tão densa
que não se levanta, nem com o vento Norte.
E tornam-se rocha onde não calha haver
pó solto para uma flor.
(Cynthia Guimarães Taveira)
quarta-feira, 18 de agosto de 2021
A expiação dos pecados e os bodes expiatórios
Vem o jornalista brasileiro Laurentino Gomes apelar aos pedidos de desculpa, por parte de Portugal, pelo passado esclavagista. Nada como estar na moda. Mas nada pior do que alguém apenas estar a "meia moda". Qualquer aprendiz de estilismo lhe dirá isso. Onde já se viu, por exemplo, alguém desfilar com as cores da estação mas com um corte à anos quarenta? Quando assumimos que vamos estar na moda, essa adesão deve ser total. Ora o Brasil é bem conhecido por não dar qualquer valor à vida humana e por, por exemplo, as mortes por assalto na rua serem frequentes. É detestável isso num país. E a miséria das favelas? Um horror. Para Laurentino Gomes, esses detalhes não estão na moda, mas, se olhar bem, enfiam-se bem no pacote dos direitos humanos. Assim, meu amigo, que o seu país comece por pedir desculpa pelas barbaridades que tem em casa (e que até são actuais) e depois falamos em pedidos de desculpa. Ainda não percebeu, criatura, que basta estar vivo para errar ou se calhar percebeu isso muito bem, mas a moda (parcial) de pedidos de desculpa, fala mais alto. Laurentino Gomes não está na moda. Está naquilo a que se chama uma tentativa falhada de estar na moda. Para estar na moda devia pegar nos livros de história da humanidade e ler todas as histórias, de todos os lugares. Devia reunir as barbaridades e os atentados contra a dignidade humana. Em seguida, fazer uma longa lista e pedir a todos os actuais países do mundo, pedidos de desculpa pelo seu passado. Um verdadeiro padre da santa igreja da moda não deve deixar escapar nada e um verdadeiro Santo não utiliza bodes expiatórios. Isso é coisa de judeu. Aliás, a Alemanha já pediu desculpa aos judeus e há quem esteja careca de saber isso e não deixe, exactamente por estar careca, de sonhar com novos campos de extermínio para eles. Até na Alemanha há carecas actualmente. Os índios também têm passado um mau bocado às mãos dos actuais brasileiros.
A nossa lista portuguesa é enorme. O Afonso Henriques não tratou nada bem os moçárabes. Devíamos pedir desculpa aos moçárabes pelo que fizemos, embora já não existam. E também devíamos pedir desculpa aos mouros pelo facto de termos andado à guerra com eles. A esta hora, se calhar, andavam as mulheres de burka e Portugal era um paraíso de papoilas... e os escravos de agora? Ui, são tantos e estupidificados pela TV. Muitos deles consomem novelas brasileiras. Saem de casa às seis e chegam a casa às nove, mesmo a tempo de ver a novela. Ganham o suficiente para a ração do dia. E, às vezes, nem isso... E o Viriato? Sim, o Viriato! Diz que se deixou trair. Quer dizer, ele não deixou, mas foi traído e os bandalhos dos Romanos invadiram isto. Vejam só. Se não fossem eles hoje éramos como os cavalos: puros lusitanos. Mas há mais. Consta que os homens das cavernas também não eram pacíficos. Consta... Não temos a certeza. E os comunistas? Ai! O Papa já pediu desculpa pela Inquisição. Mas as bruxas crescem em número na mesma. E os bruxos. Até causam dano. Deviam pedir desculpa. Agora usam a tecnologia e as plataformas computacionais. E os países vizinhos do Brasil? Sim, os da América Latina. Ali tão perto do Laurentino. Ele não repara no que lá se passa actualmente? A lista é longa. E, mais do que isso, actual. O Laurentino não sabe, mas há muitos macacos a precisarem de serem penteados. Sugiro uma mudança: de pretendente a estar na moda, passe a cabeleireiro e vá penteá-los. Eles não se ofendem e até agradecem. Por enquanto.





