quarta-feira, 29 de março de 2023
Antes e depois
segunda-feira, 27 de março de 2023
A POLÍTICA, A POLÍTICA DA INDIFERENÇA E AS ALMAS EMPEDERNIDAS QUE DEAMBULAM PELA CASA FERNANDO PESSOA
Cá em casa, entre algumas aventuras que nos foram dadas viver, contam-se as célebres “Aventuras na Casa Fernando Pessoa” e, que, pelos vistos, continuam. A primeira delas começou com uma edição especial feita pelas Edições Caixotim com a colaboração de António Carlos Carvalho e serigrafias de minha autoria. Apresentação da obra foi na Casa Fernando Pessoa, com convidados e exposição de alguns quadros meus. A direcção, qualquer membro que fosse, não apareceu. Depois seguiu-se a apresentação da” Mensagem” de Fernando Pessoa, desta vez em Mirandês, pelas Edições Zéfiro. Nesse dia, ninguém da direcção esteve presente, nem se interessou. E agora, não há duas sem três, depois da Direção ter vindo dizer que, embora “acolhesse” a apresentação de uma nova obra na Casa Fernando Pessoa, o nome da famosa Casa não podia aparecer nos convites (essa obra, a propósito, debruça-se sobre os antepassados judeus de Pessoa e a Inquisição) e o resultado foi o autor desistir de fazer lá a apresentação por não se sentir acolhido coisa nenhuma. A apresentação da obra iria ser feita por António Carlos Carvalho. Mas, como não há três sem quatro, lembro um episódio caricato passado nessa Casa Amaldiçoada: num dos aniversários da morte de Fernando Pessoa foi feita uma iniciativa para lembrar o poeta. Lá fomos alegres e curiosos dar conta do evento. Chegámos logo no início e, do início ao fim, uma série de autores daqueles da moda, foram sucessivamente falando das suas respectivas obras e lendo excertos delas. Sobre Fernando Pessoa, nem uma palavra. Pareciam estarem todos alheios à origem temática do encontro. Estava lá a Adília Lopes, muito atenta a tudo o que se passava. Soubemos que vai haver, para breve, uma actividade com esta poetisa, onde lerá, por certo, os seus delirantes poemas. É justo. Afinal, estava muito atenta ao que se passava.
E agora, a conclusão dita pelo António quando soube que não iria haver apresentação nenhuma, citando Alexandre Herculano: “Este país dá vontade de morrer!”. Depois de tantas aventuras na Casa Fernando Pessoa é natural que cite o o historiador já esquecido.
Isto acontece porque este país não é para vivos, mas sim para os fantasmas do mundo académico e editorial que deambulam pela Cultura e cuja alma empedernida é pouco sensível, tanto a Pessoa, como a todos aqueles que não são fantasmas como eles... Sempre pensei que deveria dizer “I see alive people”, em vez de pessoas mortas, porque, Fernando Pessoa está muito mais vivo que toda essa gente aparatosa e seletiva que tem povoado a Casa Fernando Pessoa. Admitem apenas alguns nomes. Admitem aqueles que consideram que já têm algum nome, quando o nome de todas essas pessoas não interessa para nada. O que interessa é Fernando Pessoa e se há bastardos a interessarem-se por outras formas de abordagem à sua vida e obra, gente “sem nome”, mas que ama a obra do poeta, a Direção só tinha que os acolher como deve de ser e aceitar seguir o exemplo de Pessoa que foi um sol com vários raios, plural e multifacetado. Quando não são isso, não são dignos sequer de o citar, são meros peões do jogo académico, cultural e político que percorre o nosso cada vez mais miserável país.
domingo, 26 de março de 2023
O JARDIM DOS SÍMBOLOS XXII
A DIGNIDADE E A BELEZA
Não te olho e não te esqueço, não te entrego nem te
vendo: longe de mim, das minhas horas escorreitas, deslizando pacientemente
pelo dia, persistes, sem que te olhe, por não ser necessário. Somos magníficos,
herdeiros das estepes sem fim, onde os nossos braços se estendiam e desenhavam
uma circunferência à nossa volta, para além das quatro direcções do espaço.
Somos herdeiros da quinta essência e por isso não somos obrigados a ver-nos.
Amplificamo-nos em possibilidades, giramos e paramos o tempo e qualquer manto
nos serve em dias de frio, qualquer cor nos transporta para outro espaço,
qualquer poema cantado nos isola do mundo demasiado imperfeito para nós. As
palavras são simples como os cristais que formam a cidade luminosa ainda mais
vivificada pelas flores e os nossos cavalos de pêlo brilhante são a rebeldia
que tornamos dócil, o nosso espaço diverso, o nosso movimento perpétuo. É com
essas flores que seguras e que parecem dispostas de maneira a levantarem voo a
qualquer momento que permaneces e escreves com elas como se criasses um mundo
novo, vivo, veloz, quente, grande como tu. Ensinas, sem ensinar, o gesto que se
solta sempre que se dispõe uma flor um pouco mais acima, no lugar onde não se
esperava que estivesse. Sabes que o movimento é a vida e que o silêncio é para
os nascidos das sementes, ainda a tremer de medo, ainda soltando os primeiros
sons, ainda longe das palavras de fogo. Não reparas nos gestos firmes, mas
reparas nos gestos livres, na respiração que acompanha a do universo, escutas
os cantos de lamento, mas cantas, pela tua noite iluminada, a alegria dos
pássaros. Em dias de chuva, quando o mundo chora, vês gotas de luz trazendo a
vida aos solos secos e esquecidos de si, nos gritos de revolta ouves o amor, em
barcas livres sentes a prisão dos ventos e nas prisões das vidas intuis a
liberdade dos seres pairando acima da dor, como anjos à espera de um raio de
sol por onde possam deslizar. A arte, para ti, não tem conceitos, não tem limites,
tem apenas a hora precisa em que é, e em que o teu coração se agita de alegria,
ou em que o pássaro, que trazes dentro do coração, canta. A arte para ti é o
momento em que dizes “sim”, sem mais ninguém, só tu e ela, frente a frente como
duas águias reais, como dois deuses engendrados dentro do âmago da própria
vida. E é essa a pureza que me deixas como memória num cartão velho e
esquecido, numa aldeia quase abandonada pelo tempo, numa divisão escura, quando
de costas, na penumbra, apontas para ele para que o veja: uma rosa de pé,
única, alta esguia, como uma maresia súbita no alto da montanha, na vertente
mais interior do continente, uma palavra de fogo feita com imagens, a rosa
erguida no centro das pedras, pequenas, baixas, derrotadas, incapazes de a derrubarem.
A coluna vertebral indomesticável, a primeira rosa a nascer no primeiro jardim,
por entre as pedras cinzentas e frias, o primeiro passo no mundo da verdade que
viveria, lado a lado, com as flores selvagens desse jardim. Como a pomba
que sempre acompanhou os passos e as naus dos habitantes do extremo ocidente.
Rosa sem cruz, vitoriosa num mundo frio. O primeiro e doce toque do fogo e do
calor, a primeira ideia para a primeira palavra de fogo. A riqueza ininterrupta
das pétalas concentradas, fechadas e abertas em simultâneo. A resistência. A
resistência a todas as guerras feita de horas sangrentas e inúteis. A dignidade
e a beleza presente para além de todas as presenças.
sábado, 25 de março de 2023
O JARDIM DOS SÍMBOLOS XXI
SOB O SIGNO DO SOL
Não há discípulos nem alunos no jardim. Não há nada
mais a ensinar ou a aprender. Esse tempo esgotou-se, acabou quando se descobre
a entrada secreta por entre sinais e sintonias, uns certos, outros errados, uns
consequentes, outros insignificantes como um bocejo de um deus. O mundo lá fora
fervilha em hierarquias que transbordam os limites do imaginável. Perde-se em
sonhos de quotidiano, adormece nos leitos das modas, investe e acredita em
professores, em sábios, em eremitas no alto das montanhas onde todos os podem
ver… no jardim, nada disso se vê, até porque o jardim é invisível, impossível de
captar na totalidade das suas relações, das suas profundidades, das suas
alturas. É o gesto dos deuses que o desvenda, é a curiosidade dos nascidos das
sementes que o torna numa intuição por ver. Sob o signo do sol, o jardim só
existe com olhos solares, as palavras de fogo só são possíveis de ouvir com o
fogo interno aceso no centro das casas ancestrais, as primeiras, circulares,
que todos os habitantes, oleiros do espaço, guardam consigo desde tempos
antigos. No extremo ocidente, as casas foram construídas com um segredo
reservado aos que conhecem os pilares, os que sabem de onde vieram, os que
simplesmente sabem sem terem aprendido, sem terem tido mestres, sem terem
esperado pelas vozes, sem as questionar, sem terem colocado sinais em altares,
sem se terem comovido com milagres, sem esperarem sequer que um anjo olhasse
pare eles para começarem a caminhar. São os senhores da vontade, do eixo, da
corrente intransmissível que percorre aqueles que, nascidos na mesma gruta de
luz, conhecem o que significam os alicerces, os pilares, os eixos que sustentam
o extremo ocidente que parece ser o fim do mundo. O extremo oriente é o princípio e o fim,
visto de fora, e o fim e o principio visto pelos olhos solares dos habitantes
do jardim secreto, escondido, oculto, cerrado, proibido, inacessível,
camuflado, intransponível, irremediavelmente perdido para quem não nasça dentro
dele a partir de um segundo fôlego vindo do lago escuro e lodoso, no fim do
caminho de pedras, escorregadias, deslizantes, em dias de temporal. Justiça e
injustiça possuem duas faces, como Janus, dois tempos, e a terceira,
independente, que nos olha de frente, como uma águia. Não há mestres nem
discípulos, apenas águias, soberanas, intraduzíveis, mortas para o mundo porque
é o próprio mundo que está morto e cerca a vida do jardim. Cada passo dado para
fora dele, em direcção ao mundo, é o inverso de um mundo visitado por
fantasmas, porque é o próprio mundo que é um fantasma aflito e perdido do
caminho de si e que se assombra a si mesmo, e que se ensombra à luz de mestres
e discípulos, luz crepuscular, de fim do dia, a única que é revelada aos
ensombrados e assombrados, a eles e aos cisnes que os tapam da visão com as
suas asas bancas e suaves, circulando por entre nenúfares ou evitando-os no
caminho, cuidadosamente, silenciosamente, sem lhes falar. Ave de longo e
elegante pescoço, serena, submissa, branca de noite e de dia, indiferente ao
frio e ao calor, ignorando as palavras de fogo e de canto prolongado que
lamenta o próprio silêncio e nunca refere as palavras dos fantasmas do mundo.
sexta-feira, 24 de março de 2023
O JARDIM DOS SÍMBOLOS XX
A ILUSÃO
Estiveram muitos anos envolvidos na terra, com os
dedos entrelaçados na negra textura, remexendo, procurando alimento, tacteando,
como toupeiras cegas de si, demasiado tempo para que não se confundissem com
sementes, ouvindo as palavras dos deuses, sabendo que nunca as entenderiam
completamente, mas procurando esse alimento com a mesma curiosidade com que
qualquer semente é dotada pelo sol. Uns junto ao mar, outros nas montanhas
áridas, puxando as pedras, construindo os novos muros, acendendo fogueiras nas
casas, o fumo, saindo ao centro por onde se vislumbravam as estrelas. Estiveste
lá, nesses dias em que o teu silêncio firme guardava como segredos intransmissíveis
os teus sonhos, as tuas viagens por outras eras e por outras terras.
Encontrar-te agora e reconhecer o teu silêncio no meu, o mesmo delineado das
formas com que dispões os teus objectos, o mesmo ritmo das curvas das folhas,
dos caules, das flores emolduradas de verde e de azul que recai sobre elas como
um mar de estrelas fixas e permanentes na tua arte efémera e que apenas aos
olhos deste mundo que morre devagar em todos os momentos em que não te
contempla e te esquece quando o faz. Ver-te, ver o que criam as tuas mãos é
reviver. “Aqui há vida”, a frase mais simples e verdadeira que só consegues
segredar a quem já sabe e desvendou o que ficou para lá dos portões de ferro
forjado com um dragão e uma coroa, a quem nasceu no jardim por sede de vida,
eterna, jorrando em cascata. A tua música é inaudível para quem não desceu o
caminho de pedras até ao lago e lá se afogou no seu fundo lodoso, para quem, no
limite, não emergiu dele num vôo de força e de vontade, e recusou o destino e
se sobrepôs aos ciclos e recriou em si e para si a espiral de um novo ser. Os
que nunca morreram em vida não te escutam, nem nos livros, nem nas tuas
palavras, nem nos teus gestos. Os poetas morreram sempre um dia para o serem e
recusaram os sinais dados por Ariane para que saíssem do labirinto: olharam as
estrelas no fundo dos caminhos cada vez mais negros, viram-nas como irmãs,
brilharam como elas e elevaram-se voando acima de qualquer caminho delineado
por qualquer deus, mais ou menos conhecido. Os ciclos são jovens eternos, as
espirais são renascimentos sucessivos, sem hora e data marcada, brotando,
acontecendo, abrindo-se, elevando sol a sol, segurando a saudade como facho,
abrindo com ela o caminho novo, as novas formas, a cidade de cristal e de
flores que constróis em segredo, tornando-a alta e leve, erguida ao céu de onde
sabe ter vindo. Os teus dedos já não se confundem com a textura negra da terra,
são feitos de luz, iluminando os rostos que tocam, sem palavras, são a vontade
acima do destino, os deuses constroem destinos como labirintos só pelo gosto
das formas, objectos estéticos, puro amor à forma, à curva ou à recta
surpreendente por entre as curvas… mas estão para além deles, e voam sempre em
direcção a um outro labirinto, marcando o espaço com os seus passos, moldando-o.
Ai de que algum deus negue a liberdade, ai daqueles que o fizerem porque não se
trata de um qualquer deus num dia de vendaval, mas sim de narcisos que nascem
nas suas margens e nas margens de si próprios. O mundo gira porque quer, os
nossos olhos giram com ele porque querem, enquanto as folhas secas rebolam pelo
caminho porque se entregam nos braços do vento. A maior ilusão é a de que não
há liberdade.
quinta-feira, 23 de março de 2023
O JARDIM DOS SÍMBOLOS XIX
LUGAR
Mesmo quando o jardim muda de forma e os canteiros mudam de lugar, no jardim tudo está sempre onde deve estar. Não se sabe bem onde começa a vontade de mudar, de trocar, mas não tem início no caos. Só fora do jardim existe o caos. Lá dentro, a desarrumação e a arrumação constantes, tanto feita pelos homens como feita pela natureza, equivale sempre às fases de um ciclo e, por isso, a folhagem seca rebolando ao vento pelos caminhos está no seu lugar, a semente que cai à terra, cai no exacto lugar onde deve cair, e os homens, mais velhos e mais novos que lá habitam, são o próprio ciclo que é sempre eterno e sempre jovem na sua transparência. O renascimento é sempre verdadeiro, a decadência apenas um pré-renascimento, uma Idade Média, madura, generosa, que se dedica ao húmus das ideias, às iluminuras douradas como as folhas de Outono ao sol, um Inverno denso onde arde o fogo interior nas casas e nos homens, um recolhimento saturnino, entre o chumbo e o ouro, as vestes crepusculares que cobrem a manhã, os homens rudes, caminhando pelas encostas dos montes, carregando a saudade, saídos das grutas, no mesmo lugar em que as flores despontam por entre as pedras, eles mesmos despontando por entre elas, erguendo-se das concavidades, caminhando numa Primavera súbita depois do medo, procurando os cursos de água fresca derramada pela montanha enquanto jacintos e narcisos nascem nas margens dos rios e dos homens. Foi nessa Primavera que repararam nas flores e nas abelhas, no pólen e no mel. O zumbido das abelhas pareceu-lhes passar por eles a falar e imitaram o seu som. A sua primeira palavra foi o zumbido da abelha e, desde aí, as palavras podiam saber a fel ou a mel, guardando consigo a luz dourada do fogo. Antes disso, dançavam em volta das fogueiras e lembravam-se apenas de uma língua muito antiga, perdida para sempre no tempo e no fundo do mar. Quando a palavra não tinha ainda a densidade necessária para que pudesse transmitir o fogo dos deuses, assemelhava-se a um vento soprado, ora embelezando a terra, ora desfigurando-a num ligeiro caos, superficial e pouco consequente por quem as dizia mas, quando aqueles que guardavam ainda a memória em forma de sonho da antiga língua, perdida no tempo e no mar, recomeçaram a falar, depressa ela ganhou a densidade do fogo. Os deuses tinham vindo dos ovos elípticos, com dois centros, um, antigo e longínquo, outro, recente, à beira-mar, ainda tremendo de frio, longe do fogo. Desde o princípio, o jardim foi habitado por pássaros e sementes e eram os pássaros que transportavam as sementes no bico e as deixavam cair e delas brotavam novas plantas, novas flores, novos frutos, novas sementes. Nunca a criação esteve longe da asa e a distância aparente do céu é só uma ilusão para quem não vê aquilo que os pássaros transportam nos bicos: pérolas, jóias, gemas, tesouros de um futuro. Quando as primeiras flores do jardim se abriram, já o fizeram em direcção ao céu de onde tinham vindo. Para que o céu as visse e se lembrasse delas também. As flores foram a primeira oração criada pelo vento, pelos pássaros e pelos homens e é por isso que o desamor do vento é compensado pelo amor dos pássaros e os homens oscilam entre o vento e o céu, entre a pressão da terra e a libertação pelo alto, entre a escravidão e a soberania dos deuses, entre o mundo e o centro de todos os mundos a partir de onde se dará a derradeira viagem. O lugar do jardim são vários neste extremo ocidental da Europa: de granito, de gelo, de praias, de montanhas, de planícies, de vales, de desertos, de searas a perder de vista, douradas, e de cantos prolongados que lamentam a dispersão quando se afastam do centro do mundo, ou de si.
quarta-feira, 22 de março de 2023
O JARDIM DOS SÍMBOLOS XVIII
NAU
Quem chegasse ao jardim a partir do vale frondoso
coberto de árvores de largos troncos, não via imediatamente um jardim.
Envolvido em pedra e madeira, com os seus muros e cercas, erguiam-se mastros a
meio dele onde se adivinhavam eixos, colunas vertebrais direitas, árvores
esguias e altas, velas soltas na sua folhagem, um modo de ser que parecia ser,
como as naus, de uma altivez orgulhosa enfrentando o mar. Essas árvores eram muito
antigas e tinham sido plantadas como ofertas de pais para filhos, de mães para
filhos e compunham a imagem de uma nave, embora as suas raízes não estivessem
mergulhadas no fundo arenoso do mar, mas sim no fundo da terra, atravessando
camadas de memórias, de gerações e de histórias, em torno das quais todo o
jardim tinha nascido. Essas colunas em parte plantadas com um propósito, em
parte naturais, para além de nos obrigarem a levantar os olhos para o céu,
obrigavam-nos também, e por isso mesmo, a que elevássemos os olhos para os
nossos próprios eixos inapreensíveis ou incompreensíveis por parte dos
visitantes com os seus chapéus floridos, os seus sorrisos encantadores e os
seus ouvidos surdos para as palavras de fogo.
A tendência, num jardim, é para olhar para o nível dos olhos e para o
chão onde florescem as cores e as formas variadas, é sentir as metamorfoses
constantes da vegetação, perdermo-nos numa folha seca de Verão que, empurrada
pelo vento, percorre o caminho das pedras, mergulhar os dedos na água fresca da
fonte, observar um ou outro pássaro que canta as cores que tem. Os eixos
permanecem invisíveis, frequentemente ocultos pelas trepadeiras à procura de
sol, mas é graças a eles que as sombras e a luz caem de determinada forma sobre
o jardim e o moldam, gerando os espaços desta ou daquela espécie, conforme
sejam mais diurnas ou nocturnas. E também os ventos e as águas, a forma como
caminham, dependem desses eixos invisíveis com as raízes profundas mergulhadas
em memórias que ninguém conhece. Uma nau sem mastros é um barco de pesca,
recolhe os frutos do mar, divide um dia em dois, o tempo de ir e o tempo de
voltar. Os mastros são a viagem, sem tempo, sem horas para partir nem horas
para chegar, uma sede de conhecimento para além da fome vulgar, para além da
vida vulgar. Parte-se sem se saber quando se volta, mas isso só é possível com
os mastros. E os mastros são os deuses do jardim. Aqueles que não se deixam
capturar como os peixes, os que não se alimentam nem servem de alimento. E os
eixos, essas colunas vertebrais inamovíveis do jardim são as mais
incompreendidas para quem fica no mundo a girar ou a lançar barcos de pesca. O
jardim é uma nau. Os seus mastros ocultam-se nas nuvens, tocam o céu, são os
pontos de honra do jardim.






