Não convém ser-se muito pesado numa altura em que uma piada pode
ser dificilmente entendida por tudo ser demasiado leve à nossa volta. Aparentemente
isto é um paradoxo. As piadas deveriam servir para atenuar a dor. Pelo menos é
o que se costuma dizer. Mas parece que o que é leve se torna facilmente pesado
e aquilo que é pesado dificilmente é entendido. Talvez pense demais quando nem
deveria pensar numa altura em que o pensamento é levado a mal. Quando temos um
percurso sem folclore dificilmente passamos à condição de existência. O privilégio
de se ser sem existir é apanágio do mundo invisível. Foi quando me tornei
fantasma que o mundo começou a ser uma plataforma quadrada, um pouco elevada e
cujo acesso a ela se dava por meia dúzia de degraus de madeira que procuravam ranger
o mínimo possível quando alguém os pisava. A transição entre a plateia e o
palco e vice-versa deve ser silenciosa senão essa fronteira torna-se demasiado
audível e, quando isso acontece, parece deixar de existir diferença entre a
plateia e o palco. Não é isso que se deseja. Gostamos de fronteiras bem
definidas para que possamos entrar noutro mundo, saltar entre mundos por entre
um eclipse de tempo no qual deixamos de existir. Nesses degraus não existimos. Apenas
somos qualquer coisa de invisível entre cá e lá, entre a plateia da realidade e
o sonho real. Dito isto, o esoterismo não tem muito mais que se lhe diga. Há
entidades de um lado e do outro que se podem cruzar ou não e que se olham
mutuamente quando os projectores não batem demais nos olhos. Este fenómeno
luminoso serve para ambos os lados porque a luz tanto pode ser considerada como
qualquer coisa de divino que preenche por inteiro qualquer extâse como pode ser
considerado um simples foco de luz sobre alguém, tornando esse alguém o centro
das atenções, o centro dos centros da atenção dos humanos, um humano demasiado
cheio de si o que constitui uma autêntica blasfémia para todas as religiões. Todas
elas professam o apagamento. Um estranho apagamento face à luz, o que não deixa
de ser um paradoxo. A luz brilha e apaga o ego e os seres tornam-se uns simples
receptáculos de luz, formas passivas gozando a beatude. Como se pode constatar
o espectáculo acabou na mesma proporção em que nunca acaba. É muito sério,
isto. Não devemos rir em voz alta. Nem cantar acima do coro. A uniformidade
eleva-se por si, não necessita de primeiras figuras. Necessita de uma espécie
de limbo onde todos dão as mãos. Somos todos pavilhões multiusos e, uma das
nossas vertentes é dar-mos as mãos uns aos outros para nos fundirmos no todo
musical. Uma espécie de suicido colectivo para que o coro cante. Ai, a vida é
tão complicada. Deveras. Foi quando me tronei fantasma que comecei a ver o por
do sol com a máxima atenção. A vida de um fantasma tende a descomplicar-se. É uma
tendência natural. Está aqui e ali e prega uns sustos. Diz umas coisas que
fazem os outros fugir. Alguns malucos chamam por nós. Sentam-se numa mesa, dão
as mãos e alteram a voz. Já lhes tentei dizer que não é necessário alterar a
voz. Nem gritar. Não somos parvos nem surdos. Mas prosseguem contentes a chamar
pelos seus fantasmas de estimação. Sentem-se realizados assim. Aquilo que mais
me tem custado ultimamente é o facto de dizer piadas e de ninguém as entender. Logo
agora numa altura em que as “stand up” (é um termo estrangeiro) estão aí e em
força. Os que levam a vida a fazer rir têm o papel de chatear os que levam a
vida a fazer chorar e vice versa. Pelo menos é isso que parece. Por outro lado,
parece não haver motivo para rir e, nessas alturas, quando isso acontece somos
os que levam a vida a fazer chorar. As piadas têm um feitio intratável. Nunca se
sabe bem quando dão uma volta de cento e oitenta graus e se transformam em
tragédia ou em piadas de mau gosto. O mau gosto. Esse está por aí e venceu. É por
isso que o por do sol é um eixo de beleza. Há quem diga que é só isso. Beleza. Um
por do sol é belo, ponto final. Não há mais nada. Quem pensa que a beleza só é
bela engana-se, tem padrões lá dentro. Harmonias. Cores combinadas. Equilíbrios.
Sons. Palavras, memórias, histórias. E para além disso tudo a beleza é bela. A cereja
em cima do bolo. A beleza comunica por si. Só os desatentos ao belo não veem
isso e dizem que a beleza por si mesma não chega. Chega e sobra. Sobra para
tudo. A vida é complicada, mas a de um fantasma é menos. Consegue subir os
degraus sem que mostre que existe. Normalmente são muito observadores. E sabem dançar.
Nunca estão quietos. Dizem que isso acontece por serem almas atormentadas. Mas os
mesmo se pode dizer de um poeta. A diferença é mínima. É uma questão corporal. Uns
são mais encorpados do que outros. Os poetas são encorpados porque são incorporados
por fantasmas. Nunca poderão ser santos. Mas contribuem para ela, essa coisa a
que se chama santidade e que se limita a brilhar e a curar doenças. Um poeta é
um doente que provoca doenças de alma. Atormenta as pessoas. Torna-as
fantasmas. Quem sabe se fantasmas de si. A vida é muito complicada. Complicadíssima.
Mas um fantasma é menos. Limita-se a andar por aí e prega sustos. Pode incorporar
um poeta e passa a pregar sustos com as palavras. A poesia é um susto, bem
vistas as coisas. Afantasma os seres. Adoenta-os. Depois vem o santo e cura. É o
fim da poesia. Acaba-se tudo. Até a vida se acaba no momento da cura. Fica tudo
parado. Em beatude incessante nas saias do Senhor a ouvir os pedidos de ajuda. A
ouvi-los sem parar. Eternos. Normalmente são para curar doenças, esses pedidos.
Sim, na sua grande percentagem é um pedido para que a vida possa continuar e
para que o poeta continue a escrever poesia, de boa saúde, por mais anos e robusto.
Um fantasma raramente tem piada como a vida que é complicadíssima, mas isso é
porque um fantasma é um vivente que não vive na vida. Na vida de todos os dias.
Na vida corriqueira. É, de facto um ser à parte. Embora muito corra por aí,
pouco tem de corriqueiro. E diz piadas que ninguém entende.
sexta-feira, 2 de outubro de 2020
O fantasma da ópera
quinta-feira, 1 de outubro de 2020
A Quinta da Regaleira
A palavra “gnóstico” está para o universo esotérico como a
palavra ciência está para a actual época. Serve para tudo. Para o bem, para o
mal e para o assim-assim. Falar de conhecimento é um cliché neo-vanguardista
que pode ir desde o simples concurso na televisão com perguntas e alternativas
de quatro respostas com uma correcta apenas, até aos mundos mais invisíveis e
de difícil alcance. Na verdade, Dante, estava sobretudo preocupado com a Igreja
católica e com o destino dos bispos, se estavam mais ou menos acima no círculo
infernal que ele mesmo criou, bem como com os políticos. O seu interesse por Beatriz
não passa do facto de produzir energias sexuais estimuladas por essa mulher
distante e aproveitadas para fazer a obra. Francamente, não vejo amor nenhum
por Beatriz. Vejo antes, Eros a comandar toda a operação criativa em função de
uma Igreja que sempre recusou esse deus e o tomou como maldito. Não falo do
estilo, da língua ou dos poemas, falo do substracto. No fim, rende-se à Igreja
Católica como bom italiano. Já Cervantes, parece ficar num limbo gótico tardio.
No fundo, o seu entendimento da Idade Média é o de que era uma época cheia de
fantasia. Cervantes é um moderno cujo enaltecimento medieval é apenas uma
máscara que dissimula o seu fascínio por uma época “esclarecida” e, para isso,
produz um hiato artificial entre a imaginação e a realidade. O maniqueísmo
vence como força motora para a obra e todos sabemos que o maniqueísmo tem como
base, Eros, exactamente o mesmo deus, com os polos atraindo-se e repelindo-se.
Temos nós por aqui
Camões, o navegador. E aqui o caso é outro. É provável que Camões fosse cristão
novo, já alguns o afirmaram. Não sabemos se isso conta para o caso ou não. A realidade
é que a sua grande preocupação não foi a Igreja Católica, nem a Idade Média,
nem o Renascimento. A sua grande preocupação foi para com o povo português como
se este fosse, em si, um caso único, situado para além da religião e do tempo. E
é. Na sua gesta, o povo português está acima da época, transportando-as todas
em barcos. As guerras medievais, as mulheres distantes que ficaram à beira-mar,
as outras encontradas nas Ilhas Afortunadas. Há uma dispersão muito própria,
como disperso é o próprio mar. E, nessa dispersão, há uma rota em direcção à
recompensa concedida pela deusa. A deusa não é nem uma época, nem uma mulher
que morreu e que ficou no céu a servir de guia em direcção à Igreja Católica
como o é Beatriz. A deusa eleva-se acima das montanhas do espaço e do tempo e
recompensa os navegadores com o conhecimento que nada mais é do que a visão da essência
das coisas. Não foi nem a matriz erótica de Beatriz, nem a cisão do tempo entre
a Idade Média e o Renascimento, a força que impeliu os portugueses. A ser
alguma coisa foi esse apelo de diluição no mar em busca de uma rota, ou na construção
de uma rota (busca e construção neste caso vai dar no mesmo, daí a tónica na “experiência”).
Essa busca de rota, como constituição do ser-se português, provavelmente foi adquirida
no Dilúvio. Não sabemos até que ponto as memórias nos ficam incrustadas nos genes
(um chip não é nada face ao sangue). Essa busca de rota parte da ignorância de
não se saber ao certo por onde ir. Dante e Cervantes possuem roteiros “à priori”.
No primeiro, o imaginário é adquirido via catolicismo com um sentimento de
culpa exacerbado, bem como o de pecado, o que é o mesmo. No segundo, o roteiro,
é o próprio espírito renascentista que o encaminha para a Idade Média como
coisa “outra” e perdida. O seu roteiro é binário. A aventura lusitana parte da
esperança e da incerteza. Não existem “à priori” demasiado materiais. Os únicos
“à priori” são essa deusa que nunca foi mulher carnal bem como todas as épocas
que este povo concentrou em si, desde o dilúvio, como memória difusa e como
apelo para regressar ao mar em busca de “algo” maravilhoso. E esse algo de
maravilhoso é efectivamente encontrado. Essa é a marca de génio de Camões. Não
está preocupado nem com a salvação (apenas com a salvação da diluição através
da descoberta ou construção – as obras ”libertam da lei da morte” - de uma rota-espaço- ao longo do tempo) como
Dante, nem com o tempo como ilusão (como Cervantes) e essa despreocupação é aquilo
vai fazer com que ambos, espaço e tempo sejam dados a conhecer pela deusa ao
povo português como deve ser conhecido: com a Máquina do Mundo, ou seja, espaço
e tempo indissociáveis. O problema do gnosticismo actual, afirmamos de novo, é
confundir isto tudo. Tal como a ciência se confunde na fragmentação das
certezas. Falar-se em gnosticismo ou em ciência é hoje a mesmíssima coisa e a
opinião diverge apenas devido ao ângulo de visão. O bom, o mal e o assim-assim,
funcionam como tábuas de salvação momentâneas num mar caótico onde nem sequer
chega a existir diluição porque, de ambos os lados, já se partem com “a prioris”
materialistas ou materiais. Sendo o “a priori” português, fora do espaço e do
tempo isso torna as coisas muito mais interessantes. Da mesma forma de que
quando falamos actualmente em ciência temos de perguntar “de que ciência
estamos a falar?”, o mesmo se passa com o gnosticismo, “de que gnosticismo estamos
a falar?”. E começam a surgir as respostas mais variadas e mesmo divergentes,
por vezes. O caso português é atípico na sua base. Na sua parte mais material,
existe o “apelo do mar”, da “saída de si”, como memória de um dilúvio, de uma
forma de vida que desapareceu nos abismos do oceano, a tal ponto que, mesmo
materialmente, esse apelo de regresso ao mar para o estabelecimento de uma rota
é difuso o suficiente para não ser totalmente palpável ou material: o apelo é, na
sua essência, misterioso e tem o seu quê de etéreo. É nesse instante que toca a deusa e que ela
compreende o povo português. O apelo português e a deusa são feitos da mesma
matéria que é imaterial e material ao mesmo tempo. Esse “toque” é aquilo que é
mais difícil de compreender pelos outros povos. Ele está na palavra saudade que
se confunde, em mentes mais simplistas, com o fado cantado, embora o fado
cantado seja o lamento ininterrupto do dilúvio. Uma prece permanente para o não
afogamento e corremos o risco de, com ele, andarmos sempre de xaile negro… como
negro ficou o céu quando caíram as águas (corremos o risco de nos afogarmos em
lágrimas) e corremos também o risco de o povo português se confundir com isso o
que seria, no mínimo absurdo. O fado é apenas um aspecto da Saudade e muito restrito
no tempo. Um entre muitos. Com esta moda
dos gnosticismos corremos também o mesmo risco que corre a ciência: que venha algo
de muito pequenino, como um vírus e toda a estrutura fica em risco. O
gnosticismo é equivalente a “conhecimento”. E, a palavra em si, no fundo, não
quer dizer nada. Podemos conhecer tudo, como a ciência, o bem, o mal e o assim-assim,
já dizia a Bíblia. O gnosticismo ou conhecimento é apenas um dos aspectos da
Saudade, apenas um. O aspecto mais importante da Saudade é a tentativa do povo
português de sair dela em direcção a qualquer coisa onde já não a sintam. E a
deusa, aí, distraída no seu passeio sempre matinal, repara, pára e concede. Não há nada de Católico nisto, nem nada de
Medieval. São dois factores absolutamente alheios a esta estranha relação que o
povo tem com a sua deusa, mãe do mar, mãe de mar, mãe sobre o mar, mãe e mar,
mater e matriz, a única capaz de nos levar a fazer uma rota, estabelecida com e
nos quatro cantos da terra. As guerras absurdas sobre a “interpretação da quinta
da Regaleira”, parece que têm em vista o esquecimento da figura mais importante
desse complexo arquitéctónico. A menina que se ergue acima de tudo (e se parece
soltar até da própria pedra) com pombas no regaço. As mesmas pombas soltas em
alto-mar aquando as festas do Espírito Santo. Aquela que se ergue acima das montanhas
e que “oferece” a libertação. O ponto central da Regaleira de que se fala e
escreve “por alto”, sem efectivamente se olhar para o alto para a ver, e ao
qual nunca se dá a devida importância. A menina-neta, o futuro. E, aqui para
nós. O único possível. Em vez disso perdem-se as interpretações do cenário que
não é mais do que um cenário de uma ópera, onde deuses se elevam em patamares e
poços invocam à força universos dantescos, cenas de caça e um anjo que ri ao
pés da cama enquanto anota os sonhos, uns atrás dos outros… de maneira a que
todos se percam neles, nas ciências, nos gnosticismos, nas alquimias soporíferas,
nas “Beatrizes” beatas, nos catolicismos baratos, nos ritos que imaginam, nas
espadas que disferem e rasgam camisas em duelos, magoando-se e ferindo-se. A grande lição deixada em pedra no século XIX,
o século mais contrastante de que há memória com forças de tensão entre um “passado
imaginado” e um “progresso imaginado”. As épocas e os presságios ficam sempre
inscritos nas pedras. Enquanto andarmos divididos entre Dante e Cervantes, não
lemos Camões, ou antes, lemos Camões com o coração e com os olhos de Dante e de
Cervantes o que é desarmónico e nada tem a ver com ele.
segunda-feira, 21 de setembro de 2020
Templária à força
Já é o segundo que me diz "se quiser vi ver é só telefonar". Em comum, produzem obras. A falta de espaço e de interesse ainda vai fazer nascer as galerias em casa. Estive a ver uma galeria que dá ""oportunidade" aos artistas. Por duas semanas cobra novecentos euros. Diria antes que dá a oportunidade aos artistas de "apostarem" que vão vender pintura acima dos novecentos euros. O artista torna-se um apostador e o galerista, esse, joga pelo seguro. Assim, já é o segundo que conheço que mantém as coisas consigo e, se é para apostar, então que se aposte no "além-vida", ou seja, depois de morto, logo se vê. As galerias caseiras poderiam começar a nascer como cogumelos o que era uma boa resposta ao vampirismo dos "galeristas" que se limitam a alugar um espaço. Por convite ou por marcação, quem fizesse uma romaria pelas casas dos artistas iria encontrá-los no seu meio ambiente, de melhor humor e provavelmente ainda seriam convidados para almoçar. E então, sim, poderíamos falar numa "democrátização" da arte e não nesta fantochada da banha da cobra onde é dito que todos "podem fazer tudo" mas que, na prática, é um "vê se te avias" no aluguer de espaços de exposição. Se não fizesse as coisas para a glória de Deus estava tramada. Templária à força, é o que é.
quarta-feira, 16 de setembro de 2020
Factos
https://pontofinalmacau.wordpress.com/virgula-cronica-de-jose-luis-peixoto/?fbclid=IwAR2pK5vxmU-zq5GgCnL9MfXl3gySk9jtzF-d5bytDdfoYvakA9LWpI4UYEk
Nesta crónica José Luís Peixoto queixa-se da doença crónica do saber factual. Começou com os enciclopedistas e tem agora o seu auge na Internet. Já uma vez me questionei aqui como é que Leonardo da Vinci reagiria com tanto acesso a informação, ele que queria saber tudo. O saber desalmado é apenas isso, desalmado. Pode ter utilidade mas não tem nem produz efeito na alma. E aqui está o busílis de muitas questões. Inevitavelmente conduzem ao belo (que contém sempre a sabedoria). A informação pode deslumbrar mas é fugaz. A sabedoria acaba sempre por criar. E a criação só pode ser feita com alma. Cientificamente não se sabe o que a alma é. Apaixonadamente, sabe-se o que ela é. Ainda muito haveria para dizer sobre a Iniciação e o papel das Hierarquias. Oh, se havia.
terça-feira, 15 de setembro de 2020
Intriga-me
E esquecem-se do diagnóstico. Correm para a putativa cura como uma manada de elefantes descontrolados, utilizando conceitos de trazer por casa que vão roubar à Net (não aos livros), só para conseguirem vender o seu peixe, que é diferente e variado (cada qual defende coisas diferentes e, relativamente à iniciação, não me parece que saibam muito bem do que estão a falar ) e que atrai público, honrarias, aplausos e admiração, crescente em número, no domínio virtual, e decrescente em número, no domínio presencial (já era assim antes da pandemia). Mas, se tivermos em conta o conceito de "iniciação virtual" e o de "iniciação efectiva", veremos que até a palavra virtualidade decaiu. O virtual deixou de ser a semente efectiva que se lança à terra para passar a ser um mundo decadente, em ciclo final, espelhado na Internet. Assim sendo, a Mania das Previsões, torna-se facilmente na Mania das Antecipações (nos telejornais, devido à americanização da língua, já não se diz "prever", diz-se "antecipar", o que são duas coisas totalmente diferentes) e os esotéricos portugueses lançam-se numa corrida (que é sempre competitiva entre eles - basta um colocar um vídeo no Facebook onde aparece a falar para os outros, logo de seguida, colocarem o seu, só um ceguinho é que não vê) em direcção a essa Nova Ordem , seja lá o que isso for. De uma coisa tenho a certeza. O nome é horrível. E, a palavra Ordem, nunca poderá ser Nova. Ela pertence à Tradição que está para além do Tempo e do Templo. Aliás, a "com - templação" é estar com o Templo, não é ser o "Templo" (aquele que é o templo é o fanático), e, nesta altura, só podemos constatar, depois de contemplar, que nos encontramos num fim de um ciclo. Os germes do seguinte estão na Iniciação efectiva. As virtualidades são recursos de emergência para uma época onde as pessoas são incapazes de chamar os bois pelos nomes. Até porque não sabem os nomes dos bois, não conhecem a sua linguagem, por mais que falem na linguagem dos pássaros, espampanante nas suas penas e colorida na internet. Essa linguagem, permanece o véu por retirar e nada tem a ver com "bocas" ou "sugestões", como muitos crêem. É superior a isso.






