segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Falhas?


                                                              (Imagem captada em S. Julião)


Viver numa falha temporal
Tem o seu quê de sísmico
É por entre ela, no que fica
Entre nada e tudo
Que a espuma da vida
Canta e glorifica


(Cynthia Guimarães Taveira)

domingo, 5 de outubro de 2014

Pessoas


Uma das vantagens de um estado de "olhar acutilante" (isto só para ser devidamente composta na definição sem chocar ninguém...) prolongado com uma possível denominação de “lucidez”, ou “realismo exacto”, ou talvez um estado que possa ser uma espécie de apreensão de o “estado” em que os outros se encontram ou por aí fora é o de perceber que cada pessoa é de facto um conjunto de crenças únicas. Ninguém crê no mesmo, todas elas são compostas por pequenos domínios produtos de um pouco de tudo: género, gene, genética astrológica, genética divina, genética cultural, genética erudita, genética biológica, genética de experiências pessoais, genética celeste e talvez mais por aí fora. Quando assim se apreende a realidade facilmente se percebe a forma de como um “grupo” é constituído. Um grupo é apenas um acordo, um contracto, uma plataforma para a construção ou destruição de qualquer coisa. Cada pessoa é um mistério, como o disse Olavo de Carvalho, e no entanto, cada grupo parece ser quase uma ausência dele, sobretudo nos dias de hoje em que facilmente se saltita da vivencia para a sobrevivência com uma facilidade enorme sendo que, por vezes, os domínios de uma e de outra se chegam mesmo a confundir...  

(Cynthia Guimarães Taveira)

Pátria




Dizem que vivemos na pátria, que acordamos e adormecemos, todos os dias, nela. Que lhe vamos sabendo das cores e nuances... tantas nuances.. Estamos sempre a escrevê-la mais do que a descrevê-la, por ela, a pátria, ser indescritível. A pátria que nos cerca por todos os lados e nos torna ilhas dela. Ilhas únicas dela e nela... ai o mistério da pátria está em nós. E há quem diga que começa com um suspiro, um aí profundo de quem entendeu que ficou cercado por ela para sempre, condenados a escrevê-la nas palavras e nos gestos, reinventando-a em cada curva da criatividade, e a nós com ela...


(Cynthia Guimarães Taveira)

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Alva


A barca está alva e voa,
anda de proa erguida.
Nada se nota nela,
É apenas nuvem colhida...
Que interessa a verdade ou a mentira?
Se nos entretantos voa e se agita,
é dos vivos sua verdade.
Se em nuvem é chuva diluída,
é dos que morrem da verdade.


(Cynthia Guimarães Taveira)

 

Nascidos em crista


De todos os cavaleiros
Não há um com o caminho igual
Subtraem-se fórmulas e devaneios
Ainda assim, cada um é especial

Nós e encruzilhadas são
Lugares de encontro, e não em vão
Se repetes, não és certo
Se coincides, tens razão
 
Em todos os cavaleiros há
Rugas que pendem paralelas
Aproxima o olhar delas
Cada vale é monte do futuro cá
 
Nunca param os cavaleiros
E pelo mundo vão
Cada passo dado na erva
É pedra transformada em pão

Se de noite espreita a sombra
Da monotonia sabida
Logo de dia se adivinha
A luz em cada ida tripartida

Não há casco que não seja a forma
Do caminho que já foi
Todos eles estão na sombra
do coração que tudo mói

Pobre daquele que já não espera
A surpresa desiludida
Nem encontra, nem navega
a alegria desmedida


(Cynthia Guimarães Taveira)

 

 

 

Impossível não reparar...



E troca-se a vida por um jogo político
E troca-se o brilho das estrelas
Pela baça pele do palhaço
E nega-se a luz, dizendo luzir demais
Não há fartura que não dê em fome
Não há caixote do lixo que não se encha
Com as danças, os poemas, as cores
Vestem-se vestes humildes
Cuidadosamente escolhidas por entre lantejoulas...
Os valores  espetam-se em bandeiras e guerras
Os tsunamis apaixonados não varrem parlamentos
Todo o carisma é assassinado à nascença
Os lampejos de vida pagam-se
Em vida vivida em branco, na utopia
A qualidade só o é em região demarcada
As fronteiras diluem-se por não haver seres
E não por os haver....
Os semi-vivos são a sombra por onde se arrastam
As boquilhas são exibição e exiladas
As memórias a única razão
O medo alastra-se no excesso do saber desvivido
As carapaças prudentes chocam no trânsito
A flor rara é aberrante por ser berrante
O sol queima mais do que dá vida
A corrida do cavalo é interrompida
E todos se riem num esgar entristecido
Consigo, com o mundo, em eterna despedida
Impossível não reparar e não tentar reparar
nem que seja reparando...
 
(Cynthia Guimarães Taveira)

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Nada?




Onde não há nada,
há um poema,
escrito a tinta d’água,
como este que aqui vês,
morto sem que nasça,
ou vivo antes de nascer.

(Cynthia Guimarães Taveira)