sexta-feira, 7 de novembro de 2014

O achado da língua


Fernando Pessoa, chamou, por diversas vezes, a atenção para a língua portuguesa... sendo até misterioso nalgumas ocasiões no modo como o fazia. O seu poder de síntese (daí ser poeta e de a sua prosa,nos aparecer de alguma forma, como parte dos “bastidores” da poesia...) conduzia-o a frase lapidares. Ora, as frases lapidares contêm o mistério dos mortos, encerram em si toda uma vida e daí que haja lápides funerárias com inscrições que apelam ao “decifrar” de um passado que assim não fica totalmente enterrado na amnésia... Dei com este excerto precioso de J. A. Alves Ambrósio, no qual, parte da frase lapidar de Fernando Pessoa é explicado, revelado. Será apenas parte dessa frase que aqui mostra a sua face luminosa, é verdade, mas não deixa de ser importante chamar a atenção para estes detalhes tão brilhantemente expostos por este autor, publicados no número 14 da  revista Nova Águia, pág. 94 e que contêm em si, o germe, de toda uma relação que se pode ter com uma língua, como coisa viva e não apenas utilitária:

“Se os filhos – ainda que nos mais tenros anos – pronunciassem mal uma palavra ou dessem um “pontapé na gramática”, qualquer dos progenitores, nascidos ambos na segunda década do século passado – e o Pai tinha apenas a 3ª classe e a Mãe a 4ª –, os emendava prontamente.” (...)

"As consequências, na sua lucidez, eram inexoráveis: pensar antes de falar e/ou escrever; a busca do termo adequado (no fundo há matizes não sinónimos); a peculiaridade inerente a cada idioma; a etimologia e a semântica; vários dicionários ao lado; uma raiz, uma génese, e concreções linguísticas diversas, resultado de diversas idiossincrasias; um espantoso alargamento do campo de consciência; a transposição da linguagem, do falar, para o estudo, a escrita e a relacionalidade, v.g.; uma total exigência para a Vida, na Vida; uma prospectiva perspicácia na identificação e comunicação do/com o outro; uma coadjuvância para, desde logo, a captação psicológica do interlocutor e/ou de um auditório para o qual tenha que falar-se; a exponenciação da intuição; o sentir-se cada vez mais seguro interiormente; a indefectível curiosidade; o amor pelo estudo; o sentimento de que quanto mais dificuldades mais vitórias; a elevação da genuína poesia (Camões, Correia Garção, Pessoa, Torga…) e prosa (Vergílio Ferreira entre os contemporâneos); a intangibilidade da Hierarquia e da Tradição (o “medir as distâncias”, como, reiteradamente ou- via dizer ao Pai), etc., etc., etc. Da opulência de resultados, é instante salientar alguns tópicos: o conhecimento de si mesmo; o intangível respeito pelas raízes e pela semântica; o vivo sentido da evolução; o conhecimento do Passado; a incoercível implicação da linguagem – para não me alongar. Com efeito, é absoluta- mente instante lembrar – sempre – que o conhecimento de si mesmo é o ponto de partida de toda a única – e verdadeira – Filosofia; e que a linguagem implica o pensamento – e esta asserção, parece-me, é mais verdadeira que a inversa. (...)

Por outro lado, quando me tornei um cosmopolita, notei – concluí, claro – com absolutas força, consciência, que, por trás, no fundo, de cada idioma o que se situa é uma irredutível, incoercível, espiritualidade.”



quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Cansaço a contra-luz




Ainda os que vão sonhando na floresta do cansaço em árvores levantadas em desencantos, em árvores levantadas de falsas esperanças, abanando aos ventos das tempestades, elevadas as árvores aos expoentes do não-ser, grandes de raízes profundas da civilização das mil-crenças, ver estes portugueses, sombras de si mesmos, plantadores já mecânicos de naus que tardam acontecer. Ver o cansaço extremo de quem vive sem não entender... não é preciso ir muito longe, nem aos governos, nem às bibliotecas, nem aos bancos das escola, nem aos mestres do oriente, não é preciso uma demanda para se ver esses olhos tristemente cansados raramente levantados, estão por toda a parte e não é preciso ir a Marte. Antes, a viagem se faça ao invés, e não seja o longe mais longe que nos dê a real visão do triste momento... que a viagem se faça para dentro dos olhos, bem para dentro, em acto de pura consciência. Que a viagem se faça pelo interior dele, do outro, do aqui tão próximo, do tão próximo que fica que lhe vejamos essas árvores levantadas, na floresta do cansaço, na ilusão do permanecer, tão perto dele, tão junto dele que lhe transmitamos o nosso olhar, mesmo que este seja a visibilidade dessa floresta de Inverno, mesmo que lhes digamos: repara como as árvores se erguem, se movem, se agitam na tristeza do teu penar.
Haverá assim, nem que seja isso, uma companhia... um rasgo de luz nessa floresta... a esperança de que a terra pulse na agonia do desejo do verde imenso da Primavera que, mais do que a serenidade conformada e conformadora, possa um dia devolver a vida no seu estado primeiro: o da alegria. Ainda os que vão sonhando, apanhando a boleia dos pássaros, que são sempre uns poetas... e vão..., ainda porque tudo dêem sem saber que o dão,  ainda que nada lhes seja devolvido, nem a graça, nem a fortuna, ainda assim, são eles os que conhecem o caminho... e talvez cada um saiba e guarde um sonhador dentro de si.

 
(Cynthia Guimarães Taveira)

sábado, 1 de novembro de 2014

Antes e depois de ti



(a Vaslav Ninjinski)

Mudo, impenetrável,
assim é como danças.
Oh, mistério
O braço que ergues,
inevitável, não escondes a taça...
Danças em noite dourada
Mudo, em apenas música,
de largo respirar,
músculo a músculo,
nem se antevê, a persona escondida.
Nada, barreira intransponível
Somente gesto em chama.
Mudo erguido em som,
nada, para além de seres
mistério puro, frente a mim,
Com um antes e um depois de ti.
Expectativa interna,
dançado no silêncio da voz dos outros.

(Cynthia Guimarães Taveira)

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

A dádiva das tardes...




Coisas, tantas que por nós passam,
e não regressam envoltas em luz,
e não regressam em sinfonias,
e não regressam nem frágeis,
nem com um olhar que é longe...
Nem nos dedos simples de uma mulher.
E não regressam senão nos braços
de um Deus que é futuro demais,
longura de mais, sonho demais...
Há coisas que para sempre ficam,
nas nuvens do que são,
na eterna missão por cumprir,
num eterno devir, devendo-nos o seu ser.

E passamos, continuamos a passar,
rios intransponíveis,
rios dos desvios da nossa plenitude...
E no oceano, ao longe, só aí,
na bênção do pôr-do-sol,
nos encontramos no mesmo olhar,
em tardes irreflectidas,
dadas, vindas,
como a verdade viva
Suspensa no nosso mar.


(Cynthia Guimarães Taveira)

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Palavras recolhidas




Escrever é uma passagem pela rua do desvio do destino como pensar é uma passagem pela mesma rua da alma. Nada obriga a uma coisa ou a outra.  Que o mundo se vislumbre por palavras e que as searas se agitem, qual a diferença fundamental? Se é permitida à consciência o todo que é o todo que percepcionamos e que se bebam as águas ardentes enquanto o sol ferve e o mar se agita, qual a diferença? Que diferença há no mundo ou fica no mundo com as palavras brotando em fonte? Que sustentam ou inventam elas que já não esteja sustentado ou inventado? Que diferença há entre nós e as palavras? Ou semelhança já que brotam da fonte que está antes de nós sequer existirmos... Há um universo ritual nas palavras que em determinadas primaveras permitem a sua recolha, como orvalhos... sem que haja diferença entre o alto e o baixo. Com que instantes, eles, os instantes,  únicos, se nos acercam elas de nós? Há madressilvas nos campos e outras tantas palavras, e há as águias que tudo contemplam e tendem a voar sobre os vales para se sentirem ainda mais altas... como os poetas...
Todo o mundo é uma percepção possível de criação, ou assim julgamos nós. Julgamos que criamos mas limitamo-nos, no nomadismo que é da alma, a recolher as florestas de encantos que se oferecem à nossa passagem. Assintomáticos num a-priori que desconhecemos possuímos todos os sintomas da graciosa doença que é estar vivo... as palavras são um caminho como qualquer outro... só que mais vivo pois obrigam ao silêncio e a uma consciência em tendente desmascaramento das raízes e, em simultâneo, perpetuando os troncos das árvores no seu alongamento. A escrita é um alongamento do mundo, a árvore que tende a crescer até ao infinito... que diferença há, nesta anomalia totalmente inconsistente com a normalidade da presença... Ah, mas como?! Se as palavras se desviam do tempo e o aprisionam e o negando na forma e na virtude o transmutam, deveras... e nessa negação se tornam nele... 
Autenticamente, nem palavras há. Autenticamente nem são necessárias  sequer, autenticamente nem deveríamos falar, nem tornar as palavras coisas. Em virtude das características do ser, só lhe resta estar presente para que seja... o resto, é uma anomalia, uns chamam-lhe missão, outros, castigo... mas sempre algo que transborda do ser que não necessita de palavras por estar em todas elas... quase como num mito antes de ser escrito, antes de ser dito, antes de ser actualizado no jornal da mera existência. Só tomamos a consciência do pré-existente que somos diante do ser outro que encontramos. É no espaço vazio, entre um e outro, que encontramos o ser que somos e todas as palavras possíveis antes de as serem. E todas as palavras que deixámos existir antes dessa consciência adquirem o significado de uma história lida sob uma outra luz e sob essa luz, tudo o que acrescentámos ao mundo, retirámos de nós... desse núcleo vivo, algures situado tão acima ou tão adentro que se torna invisível e indizível ao todo que nos foi dado. E nem a explicação pelo mito o traduz na plenitude. Um mito é parte de uma interrogação maior.


(Cynthia Guimarães Taveira)

Jardim


 
Poderia ser que o olhar
Fosse ainda mais para longe
E te tocasse no horizonte
Poderia ser que o sorriso fosse
Multiplicado pelos instantes
E te desvendasse o teu
Poderia se que as palavras
Fossem todas elas concentradas
Em livros, em prateleiras,
Infinitas na biblioteca
Elevada em degraus
Poderiam ser tantas coisas
Concentradas num único ponto
Jardim que nos percorre
E do qual somos a fonte
Brotando em água fresca
Onde todas as simetrias
Não são pensadas
E onde toda a dança
Solta do nascimento das flores
É da ordem das estrelas
Formando tudo o que quisesses
Entre a dúvida se os deuses
Estão implicitos nelas
Ou se as viagens
Estão inscritas nelas
Ou se ambos vivem e se geram
Enquanto o jardim passa por nós
Na transparência do que somos
Sem alfa ou ómega
No eterno movimento
Do que vamos sendo
Em espíritos unidos
Por aqueles por quem
O jardim passa
Deixando o jardim vivo
Àqueles porque quem
O jardim sempre esperou.

 
(Cynthia Guimarães Taveira)

domingo, 26 de outubro de 2014

Uma das Heranças de Camões



Ouvido ontem, de um amigo de um amigo. Conversas de café. Conversas daquelas que passam, não têm importância nenhuma. Elas são como bastidores, elas são como o sub-reptício das palestras da ribalta, elas não têm holofotes, nem microfones e escondem mágoas. Palavras ditas mais do que em segredo, em solidão. Uma solidão partilhada por entre várias solidões como um vento que passa. E ainda assim, mesmo sem importância nenhuma, sustêm o mundo, são a forma de consciência exemplar que se esconde. São um sorriso entre amigos. São experiencias e, às vezes, pré-experiências. Surgem de aqui e dali, de amigos de amigos que "trazem outros amigos também". São essas conversas o sustento da alma. São elas que sentem a falta da alma do país e se queixam, porque afinal, ainda tem o país uma alma... seja lá o que isso for: eterno mistério da nebulosa que cobre o planeta, dando-lhe as nuvens e purificando a água... Dizia esse amigo, porque "amigo do meu amigo, meu amigo é...", - provérbio lindíssimo não sei se apenas português mas muito usado por nós - e tão difícil de colocar em prática:
"A inveja e os defeitos dos portugueses são prejudiciais à economia do país". Aquilo que chamamos de virtudes e que os mais conscientes entendem ser o lugar por onde se move o espírito e que os mais conscientes, de entre os conscientes entendem ser ele, o espírito, a vanguarda do tempo e que, por isso, sua luz brilha na síntese de todas as cores... aquilo a que chamamos virtudes e que mais nada são senão as acções da alma cuja genética condicionante pode ser alterada pela prática da consciência diária (assunto mais complicado do que uma mera psicologia em moda - senão todas as psicologias  - cujo vicio determinista fica submerso numa cura aparente), essas virtudes contêm, naturalmente, o seu oposto e, de uma forma, ainda mais menos enganadora, podem ser entendidas como características na paleta dos impulsos do coração, não necessariamente opostas de qualquer coisa, mas características em si...
A cultura de um povo passa por fases, não é estática e cristalizável como nos fizeram crer os antropólogos positivistas nascidos no século XIX e aos quais somos tentados a voltar, de vez em quando, quando a afirmação cultural se torna mais periclitante face à mistura entre sedução e imposição do que vem de fora, tendência que é um movimento de resposta natural de defesa, aliás, mas que deverá conter em si a crítica (autocritica) necessária para que se possa ver também, nessa cultura ideal e cristalizada, os defeitos que acompanham o povo e começaram a acompanhar a partir de determinada altura.
Todo o regresso à História, esse movimento de "se conhecer o passado para melhor se entender o presente", a partir de determinado ponto da viajem da consciência, quando a própria viagem passa a ser  consciência, torna-se a de tentativa de correcção. Não é uma necessidade de "ambição" o que está por detrás desta atitude, é apenas o processo natural que a natureza utiliza no seu desenvolvimento  tendente para a transfiguração sendo que esta não implica o desaparecimento completo da matéria, ao contrário do que um ideal excessivamente platónico  formatou  nalguma cultura ocidental.
Nestas conversas de café... sem importância nenhuma, quantas vezes, estas solidões, paradoxalmente partilhadas, às vezes até com a ajuda de um copo de vinho como "desbloqueante", apenas...  nos revelam o erro, a tristeza dele, a consciencialização dele, mas também a esperança de correcção.
Camões não deixou cair a palavra no final dos Lusíadas "sem querer", inscrita na grande atitude poética que é a verdade do que somos como povo, esta obra deixa um testamento e um aviso: a Inveja como a mãe dos defeitos que devíamos corrigir, talvez em primeiro lugar; sem ela poderá ser que nos seja devolvido o espírito vivaz e vivificador, no impulso que falta a este país para que se cumpra em descrição, amor e harmonia.
A inconsciência dos políticos que têm atravessado os governos ao longo das últimas décadas, a total falta de conhecimento da nossa História e da nossa constituição psíquica e física, conduziram-nos a um lamaçal do qual só é possível sair por via do espírito, e isso, só se faz, encarando a nossa alma, face a face, com toda a sinceridade, mas tanta dela é exigida, que pelo excesso se torna outra palavra: transparência. Só na Transparência a luz do espírito brilha, a verdadeira eucarística, que como sabemos, é uma comunhão na qual se partilha o pão entre com(pão)nheiros, contida no número da própria palavra: 8 consoantes e 5 vogais: o Homem inscrito no Infinito.

(Cynthia Guimarães Taveira)