sábado, 27 de junho de 2020
O horror
Construí o meu próprio mundo, onde a fealdade e a aberração não residem. As gotas de mar que o compõem, o sal da vida que as mantém, a alegria da cor que nos faz pensar se foram as flores a nascer primeiro ou se foi a cor, são todo o mistério de mim mesma. O resto são escórias que não pedi. Partes de um todo de que não faço parte. Nasci apenas para dizer a verdade que há na luz e que a sua voz é a beleza. E fui completamente negligenciada por este país e por tantos que nele vivem. Quem perde é Portugal, agarrado às traves do horror e do horrível. E vejo-os naufragar na viagem que escolheram sem poder adiantar os tempos que nos esperam...
quinta-feira, 25 de junho de 2020
Juntos somos mais fortes
Os farfalhudos eventos que faltam à conta de uma virose, são compensados pela desesperada chamada de atenção nas redes sociais (e socializantes, quer à esquerda, quer à direita). Aquela história do "juntos somos mais fortes", letra de lema e de canção que me enjoa até à náusea final, é, tal como suspeitava, um pau de dois bicos em dias em que os ajuntamentos se tornam ilegais. Mas, juntos na virtualidade, pensam os desesperados, continuamos a ser mais fortes, ainda que num mundo plasmado num ecrã, de bonecada de memes em fila indiana e de emoções amarelas taxadas e etiquetadas pela bonecada dos gostos, corações e afins e cuja existência na vida real é reduzida ao grande vazio da solidão que cada qual rumina em digestão semi-parada, nas sombras das selfies onde aparecem em eventos intelectuais ou nas Maldivas esticados em camas de rede, o que é exatamente a mesma coisa, com a vantagem de que nas Maldivas se pode tomar um banho em águas transparentes enquanto peixes (e não peixeiros nem peixeiras) passam na passarela de areia debruada a anémonas. Cada um para seu lado, acaba, estranhamente num "juntos somos mais fortes", do género canção do engate "estou sozinho e tu também, estamos juntos nisso". Não há melhor fotografia do que uma montagem com várias selfies. São os retalhos das vidas dos memes disfarçadas com o chantilly da pseudo-sabedoria e com uma anémona colorida na cabeça. O mundo tornou-se num terreno para pasto de idiotas vistosos. Qualquer tourada tem mais graça do que isto. Olé!
quarta-feira, 24 de junho de 2020
A coragem
Às vezes temo que um dos maiores actos de coragem que se pode ter é o de enfrentar hipocrisia geral sem torcer o pepino a alguém. Aquele do pequenino. Se formos corajosos a esse ponto, somos corajosos, mas hipócritas. E isso não queremos. Torcer o pepino é canja.
O complexo de Xerazade
O complexo de Xerazade invadiu os candidatos a mestres do esoterismo português. É frequente dizerem que não dizem tudo não vá o público-rei mandá-los matar. E aquela coisa, do suspense, tanto dos filmes de terror, como dos thrillers como das guloseimas oferecidas pelo divino ou pela sabedoria concedida, servem para que o público-rei, incapaz de castigar, passe a idolatrar os candidatos, rapidamente colocados no altar-real. E assim se tira o poder ao povo. Quando dizem tudo ou se dizem que dizem tudo são imediatamente queimados vivos, tanto pelo povo radicalizado como pelos cabecilhas invisíveis do esoterismo que são aqueles que fazem o mesmo, mas às escondidas. Uns por que são intolerantes no seu radicalismo, outros porque são tiranos relativamente aquilo que consideram ser a verdade a ser revelada ou não e todos porque são ignorantes.
segunda-feira, 15 de junho de 2020
O passeio
Na massa absurda de confusão sem fronteiras, de ebulições sem abluções, vou pela rua a passear o meu cão. Vamos os dois numa nuvem muito nossa, sem sabermos que somos psicopompos um do outro. Eu o dele por aqui, ele o meu por ali. E sabe bem a frescura do encontro. Sabe bem olhar para o que pintei e saber que permanece, como todas as flores que fui permanecem, exactas ou ao vento tanto faz, e que a massa absurda de confusão, embora sem fronteiras, não alcance a mais distante que é esta nuvem onde vou eu e o meu cão, alegres e em paz sem que seja necessária qualquer ablução. Olhamos lá de cima para um mundo que se tornou, ou ridículo ou motivo de compaixão sem outra coisa que não seja isso, e olhamo-nos nos olhos, ora rindo, ora tristes, conforme os vultos, alguns cultos, que por nós passam, sem poder fazer nada porque ainda nos confundiriam com fantasmas por não nos verem, embora estejamos vivos e sejamos psicopompos um do outro.
domingo, 14 de junho de 2020
Os diz que é rosa e diz que é cruz
Os impertinentes pertinentes
nem sempre são quem esperamos. Ficamos suspensos e ligeiramente ofuscados com o brilho e com a aura dos autores e depois, com olhos de ver, vê-se que são apenas impertinentes. Ter-se talento, em Portugal, e ainda por cima ser meio "esotérico", ou "místico", ou que se queira chamar, é uma mistura que não resulta. Um muro de impertinentes é imediatamente construído e ousam no fim, dizer, que temos de o derrubar. Deitam os foguetes, fazem a festa e dizem, no crepúsculo dos deuses, com um ar superior, para os telentosos irem apanhar as canas. Quando mais precisámos deles, estavam demasiado ocupados em construir muros para que a espontaneidade (que os assusta), fosse afastada de uma vez por todas. Por sorte, a impertinência pertinente está onde menos esperamos, e se o teatro não passa de teatro, então, há que escolher excelentes actores que são aqueles que "fingem a dor que deverás sentem". Há que escolher poetas da vida e não vendedores da banha da cobra daquilo que são. A diferença, entre uns e outros, reside no grau de transparência, algo que é inimaginável para o mero fingidor que nada sente. Só eles nos conduzem à sintonia, à inteligência e ao amor, capazes de verem para além dos livros, de observarem meticulosamente a nossa própria transparência. Este é um dos sustentáculos da chamada Tradição. O bando de falsos rosa-cruz que invadiram por completo áreas que não lhes pertencem nem nunca lhes pertenceram conduz, inevitavelmente, ao desastre. Fica um chiqueiro depois da festa que não há talentoso, por melhores intenções que tenha, que aguente meter as mãos naquilo. As escórias sempre foram úteis, mas as actuais são tão más e estão tão putrefactas que servem apenas como adubo para sabermos aquilo que não devemos nunca ser nem fazer, ou seja, até as escórias se tornaram na mais elementar lição que todos, sem excepção, deveriam receber na educação dada logo na primeira infância.
Os impertinentes pertinentes
nem sempre são quem esperamos. Ficamos suspensos e ligeiramente ofuscados com o brilho e com a aura dos autores e depois, com olhos de ver, vê-se que são apenas impertinentes. Ter-se talento, em Portugal, e ainda por cima ser meio "esotérico", ou "místico", ou que se queira chamar, é uma mistura que não resulta. Um muro de impertinentes é imediatamente construído e ousam no fim, dizer, que temos de o derrubar. Deitam os foguetes, fazem a festa e dizem, no crepúsculo dos deuses, com um ar superior, para os telentosos irem apanhar as canas. Quando mais precisámos deles, estavam demasiado ocupados em construir muros para que a espontaneidade (que os assusta), fosse afastada de uma vez por todas. Por sorte, a impertinência pertinente está onde menos esperamos, e se o teatro não passa de teatro, então, há que escolher excelentes actores que são aqueles que "fingem a dor que deverás sentem". Há que escolher poetas da vida e não vendedores da banha da cobra daquilo que são. A diferença, entre uns e outros, reside no grau de transparência, algo que é inimaginável para o mero fingidor que nada sente. Só eles nos conduzem à sintonia, à inteligência e ao amor, capazes de verem para além dos livros, de observarem meticulosamente a nossa própria transparência. Este é um dos sustentáculos da chamada Tradição. O bando de falsos rosa-cruz que invadiram por completo áreas que não lhes pertencem nem nunca lhes pertenceram conduz, inevitavelmente, ao desastre. Fica um chiqueiro depois da festa que não há talentoso, por melhores intenções que tenha, que aguente meter as mãos naquilo. As escórias sempre foram úteis, mas as actuais são tão más e estão tão putrefactas que servem apenas como adubo para sabermos aquilo que não devemos nunca ser nem fazer, ou seja, até as escórias se tornaram na mais elementar lição que todos, sem excepção, deveriam receber na educação dada logo na primeira infância.
sábado, 13 de junho de 2020
O grande mar
Os loucos de hoje são os tontos de ontem. Já não há espírito caridoso que aguente. Para que serve ter interlocutores ou tontos ou loucos, se a única coisa que se pode fazer é ficar em silêncio e aguentar firmemente o monólogo onde navegam? Quem me dera ter a sorte de gente sólida. E poder não guardar a inteligência que, exposta, nem se vê. Hoje faz anos o meu amor Fernando Pessoa. Ontem fez anos o único, que em anos, manteve um diálogo comigo rico, mágico, pleno e criativo como um ovo cheio de gema a germinar a verdade. Sim, a verdade. Ainda assim, tive sorte. Mas depois. Depois vem uma solidão profunda de surdos e mudos. E cegos. Tento colocar um véu de novo, entre mim e o mundo. Mas não consigo. É impossível. Aparece-me o mundo tal qual como é. Custa-me a caridade por a achar um imbecil remendo. Coisa de pouca dura. Preciso de generosidade como de pão para a boca. Mas só aqueles, que mantêm um diálogo rico, mágico, pleno e criativo podem ser generosos. Só com eles posso ser também. Com os restantes arrasto as grilhetas da caridade pesadas e imbecis que não ensinam ninguém a pescar. Porque nem um nível de interpretação acertada conseguem ter. A caridade é um atraso de vida. A generosidade, um avanço na vida. Canso-me da fome. Da minha própria fome. Os outros só a têm por batatas-fritas Pala-Pala, com um prazo de validade estendido no tempo, mas sem a frescura saudável de um fruto acabado de colher. Oh, Deus! Dou por mim a falar com o mar porque a sua música, pelo menos, parece responder-me. E vejo a ilha lá longe, tão próxima de mim. Saudades de quem fala e me fala ao ouvido e a quem respondo como se fosse um grande mar a quem é impossível parar de ondear para que alguém navegue nele, distante de mim, e contente por ter a onde ir.
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