sexta-feira, 22 de outubro de 2021

Testemunho


 As pessoas esgatafunham-se por um minuto de fama, a real preocupação com o estado das coisas é outra coisa porque não dá fama alguma, a não ser a de profeta da desgraça. Olhando o panorama geral, chego a desejar que a parte subtil e benéfica do planeta se solte desta avaria materialista e volte em forma de anjo para ir redimindo o planeta. Parece radical, mas para grandes males, grandes remédios. Uma purga é uma purga. Meia purga não chega para um mal maior. Não é difícil de adivinhar onde isto vai parar, ou a um grande cataclismo ou a uma reviravolta impensável, ou as duas coisas. A degradação tem limites, como tudo tem, aliás, neste mundo. O que aflige mais é ter de assistir a isto porque não nos faz sorrir nem nos dá tranquilidade. O que nos faz sorrir ou nos dá tranquilidade é sabermos que tudo tem um limite. O chamado "progresso", filho do evolucionismo, nunca foi tão troca-tintas durante a sua parca existência. Mas talvez exista mesmo "progresso" e este não seja mais do que "ver o filme ao contrário": quanto mais "progredimos" mais estamos perto do "fim do progresso" e isso, sim, é um progresso, atendendo à existência de ciclos, coisa que o "progresso" na sua visão limitada, não entende porque a sua visão é tão limitada que não se enxerga. No outro dia, um amigo, por brincadeira, chamou-me "mulher das cavernas". Ri-me porque não anda nada longe da verdade. Algo de primitivo ou primevo chama por mim, e não é bem aquilo que se encontra nos compêndios da psicologia da História, a pulsão de reprodução, alimento e sobrevivência. Esta caverna, donde sou proviniente, não é escura. De escuridão nada tem porque o elemento que nela mais abunda é o da luz. Assim sendo, eu e o meu amigo, falamos de coisas muito diferentes, aliás é o que nos distingue e o que me torna a mim distinta. Bem vistas as coisas, um minuto de fama é hoje replicado em imagens, reproduzido. É, também, uma forma de sustento e sacia desejos de imortalidade. As cavernas não são todas iguais, isso aponta-nos a história, tal como os corações. É a incapacidade de entender os distintos mundos subterrâneos que vai fomentar, depois, a maior confusão na espécie humana e, meia dúzia de pseudo-iluminados, vão espalhando o testemunho das pulsões arcaicas, quando o homem, já muito caído e com um dilúvio em cima, se deixava reger pela mesma batuta dos seus amigos animais vendo tudo desfocado como se estivesse ainda debaixo de água. É esse testemunho, na corrida desenfreada contra o tempo, que é passado, como o único e verdadeiro e, em sintonia com a época, tem fama e sucesso. 

  


terça-feira, 19 de outubro de 2021

O jardim


 Andava a fazer um jardim sem que o soubesse. E um dia reparo que todos os objectos juntos, adquiridos ao longo dos anos, na sua grande, grande, enorme maioria, tinham elementos vegetais, folhas, flores, caules. Aprendi agora como o jardim se torna vivo ou ligeiramente amargurado conforme o seu jardineiro se vai sentido ou vai dando um sentido à sua própria vida. À frente, tenho um jardim para guardar e ele vai adquirindo um verde espesso, uma espécie de potência que só o verde escuro consegue ter. Guardar um jardim é um acto bíblico. A ecologia é uma queda de algo muito mais profundo. É a queda da metamorfose da alma no mais rasteiro sentido prático da existência. A ecologia é um simples eco de uma palavra maior: guardiões. Os que guardam. E, os que guardam, acompanham e fazem-se acompanhar. É esse o significado de guardar, mais tarde caído em mãos bélicas, tornou-se defesa de um potencial ataque. É nessa companhia que se transmuta alguma coisa porque não há obra sem criador nem criador sem obra. É todo um mundo diferente dos factos. Num jardim não há factos porque nada está fixo. Tudo cresce, muda. Questionava-me o porquê de não querer guardar muitos factos na memória, alguns apenas, como portais.  Num jardim, não existem muitos, talvez a fonte, mas até essa jorra. E a ideia de evolução parecia-me ridícula quando me perguntavam se tinha "evoluído". O jardim não evolui, limitam-se a ir sendo. Era a primeira flor mais imperfeita do que esta última? Parece estranho, mas todas estas evidência tornam impossível um diálogo com os coleccionadores de factos e com os "vaidosos" do seu caminho. Um jardim assim murcha logo, ao primeiro passo de orgulho na colecção de factos que pensam ostentar. O meu mundo interior é tão estranho como um jardim, tão intrigante como a sua espontaneidade enquadrada na perfeição do gesto do jardineiro. Ao regar sinto a terra a absorver a água, os nutrientes a deslocarem-se e a ficarem mais acessíveis às raízes, as plantas a ficarem mais viçosas. Se não imaginar isto tudo, nada se passa, e a rega é uma chuva anónima sem o fogo da paixão pela vida que faz deslocar os nutrientes para a posição exacta, e não ao acaso, num jogo de sorte ou azar. Se não imaginar isto tudo o jardim não toma a forma do meu coração nem o meu coração se torna num jardim intrigante. Só assim, as nossas raízes tocam o mistério do mundo, o nosso e o da criação inteira. E é um acto íntimo e invisível cuja repercussão não sabemos. Os guardiães são seres intrigantes. Parecem parados. São o motor imóvel. Os que estão próximos do centro. Tão próximos que nem sabemos se são ele mesmo. Guardar o jardim é um acto bíblico. Não é um acto ecológico. Até porque não tem nada de lógico. É intrigante por isso mesmo. Porque nunca se sabem quais as repercussões. A ecologia está plasmada na linguagem académica, erudita, factual. A ecologia está longe do jardim e não conhece o perfume das rosas. Conhece compêndios. Acções e reacções. Causas e consequências. No jardim tudo é causa e consequência em si. Desta maneira, não sou ecologista. Abomino a palavra tal como abomino os eruditos. São seres fragmentados em factos. E não têm nada de intrigante, nem de misterioso porque se limitam a expor factos, como se estes fossem roupa estendida à janela para todos verem. E a ecologia é a sua filha bem comportada. Irritantemente bem comportada. Bem vestida. Debutante. Deputante. O jardim é livre disso tudo. É fresco e muda de humor. Tem bom humor, mesmo quando não tem. É tão parecido com um coração verdadeiro. 

sábado, 16 de outubro de 2021

Civilização

 


Segredo a segredo, imagino, uma a uma as aves longínquas eternizando-se no meu olhar. Cai a noite sobre a civilização e adormeço na tentativa de um lugar mais luminoso. Como me ardem os versos mudos? Como a prova de fogo de um herói. Sabes, contorno as arestas dos acontecimentos, não como uma serpente, mas como um voo curvo de uma ave e se a noite cai, não caio com ela. Pela janela observo os vultos sombrios retirados das vielas de uma outra realidade e afiguram-se como aquelas marionetas indonésias, sombras numa história hipotecada pela maldição, acorrentadas num pequeno cenário, só delas, onde se movem num enredo que trouxeram para si com o esforço dos condenados ao cadafalso da ausência de consciência. Atordoa-me esta ausência de teatro substituída por essas sombras. Talvez me atordoe demais e não me deixe respirar. Não deixo que isso aconteça no último minuto, quando sobra a palavra “quase” como esperança. E, nesse último minuto, abro ainda mais os olhos e afasto a dormência e inauguro a comédia onde só se encontram os vivos. E os vivos aparecem a cores e a sua voz é um eco da minha própria alma lá longe, escondida num vale do tempo, entre montanhas d’hoje. É imperativo, esse eco. Como um chamamento. Os adjectivos cobrem as palavras que devem ser despidas para que surjam nuas e completas em si mesmas.

Sabes, tremo só de pensar no olhar deles, daqueles que são das sombras. Assemelham-se a franjas arrancadas de um manto real e espalhadas pelo chão do meu palácio. Não as quero por lá. A oferta deles chega sempre demasiado tarde e as minhas palavras chegam sempre cedo demais.

Neste momento tudo é um sonho livre mas aprisionado em si mesmo. Civilização que se auto-cerca sem misericórdia. E as sombras estão nela como habitantes naturais, nativos da humidade de um Inverno demasiado prolongado no tempo. E arrastam as palavras fixas que nunca são ecos da minha própria alma. Vivem em si e por si. Estão absortas desde há muito na perspicaz vontade que lhes esculpe os degraus demasiado baixos para serem dolorosos.

Os vivos não. Sofrem em segredo e sussurram, uns para os outros, palavras inaudíveis. Há uma melodia captável apenas pela sensação da memória. Mas uma memória que é toda ela real. É o manto real estendido pelo palácio que habito. A historia que fica para trás debruada a ouro, com flores brancas e uma paz sossegada, religiosa. Há um corte ontológico com a própria civilização porque o devir é demasiado ingrato, corre como um louco e não nos deixa chorar profundamente nesta comédia que somos. O vivos têm de chorar profundamente na comédia que habitam e que cometem como um crime na tragédia humana. Encontram-se espalhados, aqui e ali, no fundo do olhar de um gato, na cauda agitada de um cão, numa criança que se aproxima e adivinha o centro onde somos todos iguais entre nós. Linguagens outras, mudas e que nos indicam a bússola que surge, por breves momentos, no céu.

Sabes, temo o olhar deles pela luz que lhes possa dar com o meu, mesmo sabendo que não a veem. Nas sombras não se vê nada. E nós, os vivos, vimos a sombras que eles não veem. A luz não os cega  porque são cegos e não podem ser mais do que isso. Nem podem cegar novamente sequer...

 

 

 

sábado, 2 de outubro de 2021

Os múltiplos

 




Aí, Fernando, nem queiras saber o que por aqui vai

A multiplicidade de Fernando Pessoa é criativa. Depois dele, tornou-se moda ser múltiplo e, com esse escudo, alguns aproveitam para justificar as asneiras dizendo: "Não fui eu, foi o outro que há em mim", e safam-se do raspanete ou de algo pior. Normalmente os neo-múltiplos não criam nada, limitam-se a dizer que são múltiplos e, ao contrário de Pessoa, não sabem quem são. Fernando Pessoa escreveu muito em nome dele próprio. A melhor forma de lidarmos com os neo-múltiplos e dizer que também o somos. No diálogo fica criado um vazio suficiente para que nada sobre a não ser o passatempo dos "incriadores" que é fazerem tudo em nome da lei, que é múltipla também. Antigamente isso tinha o nome de vira-casacas, agora, com a leitura de Fernando Pessoa tornou-se tudo mais culto e mais fino. Já conheci dois que me disseram ser eles mesmos Fernando Pessoa ao que respondi: "Então porque é que não escreve?". Evidentemente que sempre poderão inventar que são a quarta personagem vista numa visão por Pessoa e que ninguém sabe qual é e se ele a viu mesmo e que consta não ter deixado nada escrito, uma excelente justificação para as duas pessoas que me disserem ser o poeta e que deixo aqui em forma de sugestão não vá alguém fazer-lhes a mesma pergunta. Em nome da multiplicidade e da ignorância do que se é, faz-se o que se quiser. Assumir a liberdade é coisa que fica mal nos círculos e circuitos intelectuais que são circuitos em círculo porque não a conhecem nem gostam dela. Mas, se nesses circuitos circulares alguém se afirmar "múltiplo" o aplauso é total e em pé. Fica assim escancarada a porta para o caos moderno que é sempre bem vindo e nada criativo. A liberdade é outra coisa e fonte de criatividade, feita de um diálogo constante entre nós e nós, nós e os outros e nós e Deus. Até mesmo quando Deus soletra o que deve ser escrito, fá-lo num clima de liberdade que é desconhecido dos circuitos em pista (normalmente a competição é feroz nesses círculos intelectuais, à imagem das empresas multinacionais que angariam clientes, o princípio é o mesmo) e há uma convergência, um ponto de encontro entre duas ou mais vontades, o contrário da competição. Quando ouço dizer que são múltiplos quero ver o aspecto criativo que contêm e nunca contêm, ou apenas os mínimos como quem sabe identificar as cores quentes e frias. São técnicos. 




quinta-feira, 30 de setembro de 2021

Com título


 

Mas há coisas eternas
Como suaves recordações sem época
E delas guardo todos os sons e todas as cores
 
Nada permite saber o quão violentos foram
O quão desagradáveis se mostraram
O quanto implacáveis e cruéis se revelaram
 
Nada, não, minto
O coração tem um centro inexplicável
E pulsa como uma dança
E é o vulto que se esconde
O que Viu
 
Mas nas actas desta História
Constam testemunhas cegas
Outras surdas
E outras de coração morto
E nelas que aparecem nos arquivos
Escritos com palavras trocadas
As histórias erradas de uma história desconhecida...
 
 
O meu coração é a demonstração de um salto mortal em chaga
Uma reviravolta no ar quando tudo parecia ir em direcção ao abismo
Um voo súbito, inesperado, atento e fiel
 
 
A noite da alma que me impingiram não cobre as estrelas
Não apaga o caminho
Não torna coxo o caminhante
Não altera uma vírgula na página que foi escrita
 
E somente são vistos agora
Os profundamente desagradáveis e nauseabundos
Como escórias ininterruptas que não mudam a sua condição
Por falta de coragem, lucidez e de amor
 
A História paralela foi-me contada pelos anjos
Que não falaram
Mas que me forçaram aos passos 
Em direcção às palavras que calaram
 
E forçaram-me a voltar a face
E forçaram-me a ir em frente
 
Não queiram saber o que é esta vontade que não é a nossa
Que nos escolhe os passos
Que nos diz o inacreditável
A verdade mais improvável
 
É um susto
É viver constantemente em susto
Pela responsabilidade do sangue que circula nas veias
Pela autenticidade desses anjos que
Chegam a passar pelo meu corpo
A dar-me a mão porque a sinto
 
Há qualquer coisa nas palavras esotéricas actuais que não bate certo
É o facto de serem fórmulas matemáticas sem actualidade
Porque a actualidade verdadeira e não pré-formulada
É inesperada, absolutamente inesperada
Não é esquemática
Não diz coisas como “Não podemos olhar o sol de frente”
E outras barbaridades do género
 
A audácia do céu não se compromete com fórmulas
No diz que disse dos livros
Na vantagem da última palavra que é sempre a última cartada
Não, nada disso
A liberdade que se respira é total
O ar é feito de outro modo
Não há perdição
 
A bandalheira das fórmulas e dos sistemas
Permite a infestação do Corpo e o Espírito não desce
 
Desta História original ninguém sabe
Feita de retorcidos encontros
Feita de passos presos aos anjos
 
Se chorasse seria Ísis, choraria um rio
Se me risse seria a brilho de todas as estrelas juntas que há no universo
Mas não posso
Nem consigo
Nem me deixam
Nem eu quero
 
Nem tenho espaço para o sonho tal o tamanho da realidade que me impõem
O sonho aparece como uma fuga, uma alienação
A realidade imposta tem o peso de um sonho maior do que o meu corpo
 
Tudo é diametralmente oposto ao que se pensa que é
E há quem me acompanhe neste destino
Neste rigoroso destino
Neste fim do mundo
E me situe logo que duvido
E me esclareça logo que não veja
E me lembre o propósito
E inaugure em mim, sempre, uma Nova Era
 


(Cynthia Guimarães Taveira)

NIcho

 

Para além das capelinhas, este país tornou-se também no país dos nichos. “Nicho” é uma palavra engraçada porque nele, pode caber apenas uma pessoa, como cem ou mil, dependendo do número da população ou da temática a que se refere. Há livrarias só dedicadas à poesia e são normalmente apelidadas de nicho embora a poesia em si seja um imenso portão sobre o universo. As capelinhas estão normalmente dedicadas aos favores, os nichos são dedicados à exclusividade. O exclusivo é sempre um artigo de luxo. É algo que contraria o número. Dentro das capelas podem existir nichos, lugares onde os crentes se dirigem especialmente esquecendo, por instantes, a capela inteira. Um nicho é um lugar de fé e de concentração de forças. Um lugar íntimo, reservado, longe dos olhares dos frequentadores do culto apenas ao Domingo. Um nicho é um local onde se está bem, tanto a sós como acompanhado. Já a capela requer imensos jogos de cintura, frequentemente agradar a gregos e a troianos e também requer a separação dos crentes apenas no nicho, dos restantes que acreditam e estão apegados a tudo. Há situações na vida em que descobrimos que somos um nicho em nós mesmos. Estou certa que a maior parte das pessoas já se sentiu “anichado” em si, colocado de parte, auto-colocado de parte. Essas alturas são fundamentais para o nosso reencontro connosco e com os outros que podem ou não estar no mesmo nicho. O nicho tem qualquer coisa de ninho, estar anichado ou aninhado anda ela por ela. Não é bem o sótão que, como observou Gilbert Durant, é o lugar os amuos. No nicho pode-se estar muito bem, porque o nicho é o espaço interior, absolutamente protegido dos malvados, dos agitadores e dos capelistas. No nicho somos como somos sem responder a ninguém se não quisermos. Nem responder por ninguém se não quisermos também. É um espaço cheio de qualidade e com chaves de ouro difíceis de encontrar. Quem tem uma capela tem quase tudo, quem tem um nicho tem tudo e, no entanto, o nicho está dentro da capela como uma pinta do tau, só para indicar que o pequeno é latente e que, mais tarde ou mais cedo, deixará de o ser. As pintas pretas e brancas do Tau são exclusivos. Altos Cargos. Mestres em si próprios e de si próprios. O nicho é fundamental na civilização actual desde que nunca seja confundido com uma capela. Quando o é, deixa de ser nicho e passa a participar na roda louca da existência decadente desta época. E, ao fazê-lo dá por si a separar naturalmente as águas separando os crentes apenas num nicho, dos restantes que acreditam e estão apegados a tudo mas não são tudo como é a poesia-nicho avarandada sobre o universo. Os capelistas chateiam-se frequentemente com os anichados porque não suportam a liberdade e não fazem ideia do que é um centro ou onde ele se situa na circunferência. Possuem uma falha geométrica, uma espécie de cegueira que pode ser hereditária e/ou contagiosa se deixarmos... mas não deixamos.