domingo, 31 de maio de 2015

Não reparaste, ainda?




Não reparaste, ainda? Estão por toda a parte... em mesas, vestindo-as, mas também vestindo humores indiscretos, em sombras de fotografias,  nas festas, nas cidades, nas fogueiras de vaidades. E na diplomacia, serenas, em recantos vibrando em cores, junto à morte e às casas tristes, junto aos olhos nas varandas, livres e soltas e abandonadas, presas e disciplinadas, por entre o público, sem nada que ser e longe, tão longe se as olhamos, e tão perto que nem as vemos e fazem falta, se delas nos esquecemos, sobretudo na alma, em centelhas, deslizando por nós, refazem o eterno elo que vamos sendo, lembrando as estrelas que são, na outra margem... segredos mil de quem as ousa, mais que imagem que em nós ruiu são um vasto clã  da eterna asa... flores, segredos escondem, rescritas na história de um corpo tendente à glória.

 

(Cynthia Guimarães Taveira)

sexta-feira, 29 de maio de 2015

Fio ténue


“Que voz vem no som das ondas
Que não é a voz do mar?
E a voz de alguém que nos fala,
Mas que, se escutarmos, cala,
Por ter havido escutar."
 
  Fernando Pessoa, in Mensagem
 
Tornavas tudo íntimo porque tudo tendia a tomar mais do que duas dimensões e, ao fazê-lo, nada ficava inocente. Nem podia sê-lo. Descontextualizavas as palavras e os gestos e colocava-las num qualquer outro pensamento, ideia ou tempo. Assim, de repente, raptavas aqueles que de ti se aproximavam para um outro lugar, para uma outra consciência das coisas, para a dimensão mais profunda que delas te conseguias aproximar. Sabias que, em último grau, tudo era afinal revelação, mas sabias também, que se cada gesto era uma viagem, se cada pensamento um passo, se cada ideia um voo, havia uma espécie de ilha que ia contigo, onde quer que fosses. Ilha única, impartilhável pela impossibilidade de quem quer que fosse poder fazer a mesma viagem até lá. Sabias da impossibilidade de duas pessoas fazerem a mesma viagem, por terem tido vidas diferentes, serem outras, e terem até outro corpo que não o teu. Mas no fundo de ti, vivia a dúvida, aquela isenta de vontade ou desejo, e que se prendia com a certeza de memórias sem tempo, coladas a ti como um tempo presente. Era esse o teu limite da dor, o exacto instante em que acabava a ilha e começava o mar. E nesse pequeníssimo espaço de areia e tempo cabia o infinito abismal de separação. Essas ilhas encobertas que se dispunham no mar, atravessando-o eram, sem que o soubessem, a sagração do próprio tempo, tão raras quando vistas, tão próximas quando encontradas, tão ímpares na realidade que propunham, mas tão ilhas que eram e  inalcançáveis, por isso.  Dessas ilhas apenas o vento as sabia quando levava as folhas como poemas, as sementes como esperanças, as poeiras como estrelas... e nada mais era senão isso, e todas as obras dos artistas não eram senão isso... e todos os descontextos das palavras e gestos que proporcionavas a ti e aos outros, nada mais eram senão isso... e os olhos e as almas ficavam sempre por acontecer, enfaixados numa falsa esperança porque a realidade nunca se submetia à vontade do sonho, calando-se este, na viagem que era só promessa... e tudo ganhava a utilidade que o próprio sonho negava: as folhas, as sementes, as poeiras caiam, geravam numa utilidade descarnada, quase, donde tinham vindo. As brumas nunca enalteceram as ilhas e os sonhos nunca foram de ninguém, os deuses entregavam-se em vão, porque não escutaste e, com a capa da esperança se afastavam, deixando-te com um sorriso vago de quem caminha nas esferas e volta a estender a mão, em contra vontade, a quem passa, numa eterna espera.
 
E há, no entanto, esse fio ténue aproximando-se, e segreda tanto a voz como a escuta.
 
 
(Cynthia Guimarães Taveira)

quinta-feira, 28 de maio de 2015

No extremo


Há, no extremo oposto de nós, um lugar reservado ao imenso que em tamanho que somos. Como um mapa que tão bem conhecemos... E, é desse promontório, tornado sagrado, por o ser, que nos elevamos à condição do que somos. É, nesse extremo oposto, que há o gesto mais imenso de que somos capazes, tornando o desejo num sem número de impossíveis, e nele e com ele, resgatamos, como marés, todos os desafortunados e todos os naufragados e todos os infurtunios e naufrágios de todas as formas pelas quais a vida se reveste.

Nesse promontório, que nos foi dado como paisagem e no qual, extremo oposto de nós, submersa e imersamente nos adivinhamos, para lá se estar, com as vestes ainda límpidas e esvoaçantes neste fim de ciclo, há uma resistência imperceptível a tudo o que nos cerca como forças tenebrosas, maléficas, caóticas, próprias de um Adamastor que é todo rocha e histórias tristes. Há, como uma espécie de dança, vinda do fundo dos tempos, celebrando a vida no que tem de mais genuíno e mais espontâneo e mais simples, numa claridade e transparência capaz de se fundir com qualquer gota desse mar onde somos imensos. Há, uma resistência firme incapaz de ceder a toda a incompreensão, a todo o desamor, a toda a vaga alternativa de horrores que este fim de ciclo nos dá. A haver uma nova religião, que nem sabemos se é necessária, ou não, ela será a do mar ou marítima porque só ele nos dá a dimensão, tanto do infinito espelho do céu, como, ao mesmo tempo, em matéria viva, em corpo agitado, em vida múltipla, em faces e cores de uma criatividade transbordante, em alegria exacta espelhando a luz do sol sem a noite negra, só ele nos explica sem palavras, como um mestre, o papel dos homens na terra e a forma como, por mais Adamastores que sejamos, estancamos frente ao mar, estancamos frente ao Vasco da Gama que todos somos, e desaparecemos em sal e lágrimas, vencidos por nós mesmos, nesse confronto eterno entre nós e o extremo oposto de nós, onde somos imensos...

 

(Cynthia Guimarães Taveira)

quarta-feira, 27 de maio de 2015

Antes de...


Era no que não vias, no que nem suspeitavas que te poderia dizer o segredo. Como se houvessem segredos quando deixassem de haver alusões, pressentimentos, ou ideias. Era na nudez completa da tua ignorância de todas as coisas, excepto de ti, como se fosses apenas factos acumulados e sensações várias ao longo dos factos que eras que, sentada nessa praia, te poderia dizer, a palavra simples, a palavra azul de mar. Que poderias ser o azul do mar, e o barco, e o tripulante, e o capitão, e as estrelas e o infinito... porque o mar, consegue, mas só perante a tua nudez, ser o que não vês, nem suspeitas, indiviso no seu mistério, altivo na sua exigência, transmutador da tua essência, abrindo-te todas as moléculas do corpo ao infinito. Antes de haver segredo, deverias saber que há segredo... mas sabê-lo, não é lê-lo, nem dizê-lo, é sê-lo.
 

(Cynthia Guimarães Taveira)

segunda-feira, 25 de maio de 2015

O essencial?





Há coisas que só em jeito de transexulidade profunda anunciada por Herman José e mangificamente interpretada por Maria Rueff: “Sou mulher mas tenho um homem dentro de mim que é uma Drag Queen”. Assim, só nesse jeito  é possivel de fazer uma regra de três simples absolutamente surpreendente no excesso de barroco, que é já a tontura final: o problema dos historiadores é não terem memória, ou não terem a memória necessária, por isso, se pode dizer, ainda de que modo intuitivo, sem se saber bem do que se está a falar, que, acesso, podemos nós ter a dois planos, mas o terceiro é que vem ter connosco. Os tempos, são outros hoje, e aquilo que pensamos ser necessária, a repetição, é afinal causa de desgraça por se ficar apenas à superficie das coisas. O terceiro plano vem ter connosco de uma forma evidente. Temos sorte, no entanto, se somos pressentimento.

(Cynthia Guimarães Taveira)

sexta-feira, 22 de maio de 2015

Para quê?




Ver-te assim, quase como se não quisesse ver-te assim, impressiona-me o teu choro final. Não viste e tudo viste. Não sentiste e tudo sentiste. Portugal não morre porque reencarna, neste e naquele, e com este e aquele vai dizendo, ou com todos os outros que se lhe aproximam vão dizendo. Corpo sem alma nem corpo é... pó estrelar e pouco mais... toda a substância se une em ti. Único em voz e em esperança. Que posso dizer ou fazer sendo o país assim? Irregular e indeciso, branca de neve adormecida em castelo e caixão, qual deles de cristal, qual deles prisão? Consegui um monte que é um vale e um vale que é um monte. Que mais posso fazer desta torre que de tudo me cerca? Todos são parte de um poema já escrito. Reconheço todos os passos e todos eles em mim. Quase em tédio me envolvo se os leio dentro, fora de mim e ainda em outros traços... Deste-me uma folha branca, para que acabasse o poema que iniciaste... e agora que passos darei, que deuses evocarei, que sorte ou perdição esperam tudo o quanto ainda não sei? Não, nada se repete e, no entanto, tudo surge igualmente mas transformado e, transformado, pode ser diferente, e transformado pode ser concreto. Sei que queres o milagre de um poema acabado... sei que queres esse milagre, da luz, das estrelas e de outras coisas que, ao contrário,  não vi... mas se não vi? Sou a memória viva dos poetas e nem escrever os sei, apenas vivê-los por onde ninguém os vive.  Sou apenas a sua memória dos seus passos... e que são passos. Para que serve uma memória? Para que serve para que sirva?
 
(Cynthia Guimarães Taveira)

Lembro e não sei, sei e não lembro


 
 
Não recordo como se tivesse saudades tristes
alguns barcos navegando,
vapores de longos fumos junto às margens,
entre despedidas e festas de longos fatos,
e trajes negros e distintos, charutos e champagne.
Não recordo algumas memórias
como se precissase delas e sem elas não pudesse
achar tudo o que é futuro...
 
Do que não recordo, mas sei,
disso sim,  um barco de longe vindo,
junto das nuvens e com elas confundido,
de patamares de mármore quente,
de uma claridade consciente,
e essa temperatura mais doce que morna,
que não recordando amei.
 
Guardo impressões do mundo,
como se por aqui tivesse passado,
em passeios de tempo e campo,
em histórias colhidas num jardim de jasmim
e, só por isso, ao vê-lo nascer na calçada
recordo não serem ramos de alecrim,
estes que vejo aqui, e as flores, essas
possam ser canções que canto de cor,
quando perante o vento se inclinam, ainda assim...
 
(Todo o mundo é um cenário que vivi,
mudando a cena para outras de outra vida.
Quem sabe cenários de um amor sem fim...?)
 
Mas nada disso entra por esse outro de mim,
que de longe parece guardar um eco d’outro passado
dizendo-me em Saudade o que sei e onde nunca estive...
 
Entre o que recordo e o que sei,
há uma infinita ponte erguida no vento,
toldada pela neblina da eternidade,
brilha vagamente sem lembrar ser o que é:
esse estar dentro do abraço num certo tempo,
a festa, girando por entre os sóis, debruada a dança,
a lua aplaudindo quase silenciosa esse outro tempo,
e dele sabe, e dele não se lembra e dele não se cansa.

(Cynthia Guimarães Taveira)