sexta-feira, 2 de outubro de 2020

O fantasma da ópera


 

Não convém ser-se muito pesado numa altura em que uma piada pode ser dificilmente entendida por tudo ser demasiado leve à nossa volta. Aparentemente isto é um paradoxo. As piadas deveriam servir para atenuar a dor. Pelo menos é o que se costuma dizer. Mas parece que o que é leve se torna facilmente pesado e aquilo que é pesado dificilmente é entendido. Talvez pense demais quando nem deveria pensar numa altura em que o pensamento é levado a mal. Quando temos um percurso sem folclore dificilmente passamos à condição de existência. O privilégio de se ser sem existir é apanágio do mundo invisível. Foi quando me tornei fantasma que o mundo começou a ser uma plataforma quadrada, um pouco elevada e cujo acesso a ela se dava por meia dúzia de degraus de madeira que procuravam ranger o mínimo possível quando alguém os pisava. A transição entre a plateia e o palco e vice-versa deve ser silenciosa senão essa fronteira torna-se demasiado audível e, quando isso acontece, parece deixar de existir diferença entre a plateia e o palco. Não é isso que se deseja. Gostamos de fronteiras bem definidas para que possamos entrar noutro mundo, saltar entre mundos por entre um eclipse de tempo no qual deixamos de existir. Nesses degraus não existimos. Apenas somos qualquer coisa de invisível entre cá e lá, entre a plateia da realidade e o sonho real. Dito isto, o esoterismo não tem muito mais que se lhe diga. Há entidades de um lado e do outro que se podem cruzar ou não e que se olham mutuamente quando os projectores não batem demais nos olhos. Este fenómeno luminoso serve para ambos os lados porque a luz tanto pode ser considerada como qualquer coisa de divino que preenche por inteiro qualquer extâse como pode ser considerado um simples foco de luz sobre alguém, tornando esse alguém o centro das atenções, o centro dos centros da atenção dos humanos, um humano demasiado cheio de si o que constitui uma autêntica blasfémia para todas as religiões. Todas elas professam o apagamento. Um estranho apagamento face à luz, o que não deixa de ser um paradoxo. A luz brilha e apaga o ego e os seres tornam-se uns simples receptáculos de luz, formas passivas gozando a beatude. Como se pode constatar o espectáculo acabou na mesma proporção em que nunca acaba. É muito sério, isto. Não devemos rir em voz alta. Nem cantar acima do coro. A uniformidade eleva-se por si, não necessita de primeiras figuras. Necessita de uma espécie de limbo onde todos dão as mãos. Somos todos pavilhões multiusos e, uma das nossas vertentes é dar-mos as mãos uns aos outros para nos fundirmos no todo musical. Uma espécie de suicido colectivo para que o coro cante. Ai, a vida é tão complicada. Deveras. Foi quando me tronei fantasma que comecei a ver o por do sol com a máxima atenção. A vida de um fantasma tende a descomplicar-se. É uma tendência natural. Está aqui e ali e prega uns sustos. Diz umas coisas que fazem os outros fugir. Alguns malucos chamam por nós. Sentam-se numa mesa, dão as mãos e alteram a voz. Já lhes tentei dizer que não é necessário alterar a voz. Nem gritar. Não somos parvos nem surdos. Mas prosseguem contentes a chamar pelos seus fantasmas de estimação. Sentem-se realizados assim. Aquilo que mais me tem custado ultimamente é o facto de dizer piadas e de ninguém as entender. Logo agora numa altura em que as “stand up” (é um termo estrangeiro) estão aí e em força. Os que levam a vida a fazer rir têm o papel de chatear os que levam a vida a fazer chorar e vice versa. Pelo menos é isso que parece. Por outro lado, parece não haver motivo para rir e, nessas alturas, quando isso acontece somos os que levam a vida a fazer chorar. As piadas têm um feitio intratável. Nunca se sabe bem quando dão uma volta de cento e oitenta graus e se transformam em tragédia ou em piadas de mau gosto. O mau gosto. Esse está por aí e venceu. É por isso que o por do sol é um eixo de beleza. Há quem diga que é só isso. Beleza. Um por do sol é belo, ponto final. Não há mais nada. Quem pensa que a beleza só é bela engana-se, tem padrões lá dentro. Harmonias. Cores combinadas. Equilíbrios. Sons. Palavras, memórias, histórias. E para além disso tudo a beleza é bela. A cereja em cima do bolo. A beleza comunica por si. Só os desatentos ao belo não veem isso e dizem que a beleza por si mesma não chega. Chega e sobra. Sobra para tudo. A vida é complicada, mas a de um fantasma é menos. Consegue subir os degraus sem que mostre que existe. Normalmente são muito observadores. E sabem dançar. Nunca estão quietos. Dizem que isso acontece por serem almas atormentadas. Mas os mesmo se pode dizer de um poeta. A diferença é mínima. É uma questão corporal. Uns são mais encorpados do que outros. Os poetas são encorpados porque são incorporados por fantasmas. Nunca poderão ser santos. Mas contribuem para ela, essa coisa a que se chama santidade e que se limita a brilhar e a curar doenças. Um poeta é um doente que provoca doenças de alma. Atormenta as pessoas. Torna-as fantasmas. Quem sabe se fantasmas de si. A vida é muito complicada. Complicadíssima. Mas um fantasma é menos. Limita-se a andar por aí e prega sustos. Pode incorporar um poeta e passa a pregar sustos com as palavras. A poesia é um susto, bem vistas as coisas. Afantasma os seres. Adoenta-os. Depois vem o santo e cura. É o fim da poesia. Acaba-se tudo. Até a vida se acaba no momento da cura. Fica tudo parado. Em beatude incessante nas saias do Senhor a ouvir os pedidos de ajuda. A ouvi-los sem parar. Eternos. Normalmente são para curar doenças, esses pedidos. Sim, na sua grande percentagem é um pedido para que a vida possa continuar e para que o poeta continue a escrever poesia, de boa saúde, por mais anos e robusto. Um fantasma raramente tem piada como a vida que é complicadíssima, mas isso é porque um fantasma é um vivente que não vive na vida. Na vida de todos os dias. Na vida corriqueira. É, de facto um ser à parte. Embora muito corra por aí, pouco tem de corriqueiro. E diz piadas que ninguém entende.

quinta-feira, 1 de outubro de 2020

A Quinta da Regaleira


 

A palavra “gnóstico” está para o universo esotérico como a palavra ciência está para a actual época. Serve para tudo. Para o bem, para o mal e para o assim-assim. Falar de conhecimento é um cliché neo-vanguardista que pode ir desde o simples concurso na televisão com perguntas e alternativas de quatro respostas com uma correcta apenas, até aos mundos mais invisíveis e de difícil alcance. Na verdade, Dante, estava sobretudo preocupado com a Igreja católica e com o destino dos bispos, se estavam mais ou menos acima no círculo infernal que ele mesmo criou, bem como com os políticos. O seu interesse por Beatriz não passa do facto de produzir energias sexuais estimuladas por essa mulher distante e aproveitadas para fazer a obra. Francamente, não vejo amor nenhum por Beatriz. Vejo antes, Eros a comandar toda a operação criativa em função de uma Igreja que sempre recusou esse deus e o tomou como maldito. Não falo do estilo, da língua ou dos poemas, falo do substracto. No fim, rende-se à Igreja Católica como bom italiano. Já Cervantes, parece ficar num limbo gótico tardio. No fundo, o seu entendimento da Idade Média é o de que era uma época cheia de fantasia. Cervantes é um moderno cujo enaltecimento medieval é apenas uma máscara que dissimula o seu fascínio por uma época “esclarecida” e, para isso, produz um hiato artificial entre a imaginação e a realidade. O maniqueísmo vence como força motora para a obra e todos sabemos que o maniqueísmo tem como base, Eros, exactamente o mesmo deus, com os polos atraindo-se e repelindo-se.

 Temos nós por aqui Camões, o navegador. E aqui o caso é outro. É provável que Camões fosse cristão novo, já alguns o afirmaram. Não sabemos se isso conta para o caso ou não. A realidade é que a sua grande preocupação não foi a Igreja Católica, nem a Idade Média, nem o Renascimento. A sua grande preocupação foi para com o povo português como se este fosse, em si, um caso único, situado para além da religião e do tempo. E é. Na sua gesta, o povo português está acima da época, transportando-as todas em barcos. As guerras medievais, as mulheres distantes que ficaram à beira-mar, as outras encontradas nas Ilhas Afortunadas. Há uma dispersão muito própria, como disperso é o próprio mar. E, nessa dispersão, há uma rota em direcção à recompensa concedida pela deusa. A deusa não é nem uma época, nem uma mulher que morreu e que ficou no céu a servir de guia em direcção à Igreja Católica como o é Beatriz. A deusa eleva-se acima das montanhas do espaço e do tempo e recompensa os navegadores com o conhecimento que nada mais é do que a visão da essência das coisas. Não foi nem a matriz erótica de Beatriz, nem a cisão do tempo entre a Idade Média e o Renascimento, a força que impeliu os portugueses. A ser alguma coisa foi esse apelo de diluição no mar em busca de uma rota, ou na construção de uma rota (busca e construção neste caso vai dar no mesmo, daí a tónica na “experiência”). Essa busca de rota, como constituição do ser-se português, provavelmente foi adquirida no Dilúvio. Não sabemos até que ponto as memórias nos ficam incrustadas nos genes (um chip não é nada face ao sangue). Essa busca de rota parte da ignorância de não se saber ao certo por onde ir. Dante e Cervantes possuem roteiros “à priori”. No primeiro, o imaginário é adquirido via catolicismo com um sentimento de culpa exacerbado, bem como o de pecado, o que é o mesmo. No segundo, o roteiro, é o próprio espírito renascentista que o encaminha para a Idade Média como coisa “outra” e perdida. O seu roteiro é binário. A aventura lusitana parte da esperança e da incerteza. Não existem “à priori” demasiado materiais. Os únicos “à priori” são essa deusa que nunca foi mulher carnal bem como todas as épocas que este povo concentrou em si, desde o dilúvio, como memória difusa e como apelo para regressar ao mar em busca de “algo” maravilhoso. E esse algo de maravilhoso é efectivamente encontrado. Essa é a marca de génio de Camões. Não está preocupado nem com a salvação (apenas com a salvação da diluição através da descoberta ou construção – as obras ”libertam da lei da morte” -  de uma rota-espaço- ao longo do tempo) como Dante, nem com o tempo como ilusão (como Cervantes) e essa despreocupação é aquilo vai fazer com que ambos, espaço e tempo sejam dados a conhecer pela deusa ao povo português como deve ser conhecido: com a Máquina do Mundo, ou seja, espaço e tempo indissociáveis. O problema do gnosticismo actual, afirmamos de novo, é confundir isto tudo. Tal como a ciência se confunde na fragmentação das certezas. Falar-se em gnosticismo ou em ciência é hoje a mesmíssima coisa e a opinião diverge apenas devido ao ângulo de visão. O bom, o mal e o assim-assim, funcionam como tábuas de salvação momentâneas num mar caótico onde nem sequer chega a existir diluição porque, de ambos os lados, já se partem com “a prioris” materialistas ou materiais. Sendo o “a priori” português, fora do espaço e do tempo isso torna as coisas muito mais interessantes. Da mesma forma de que quando falamos actualmente em ciência temos de perguntar “de que ciência estamos a falar?”, o mesmo se passa com o gnosticismo, “de que gnosticismo estamos a falar?”. E começam a surgir as respostas mais variadas e mesmo divergentes, por vezes. O caso português é atípico na sua base. Na sua parte mais material, existe o “apelo do mar”, da “saída de si”, como memória de um dilúvio, de uma forma de vida que desapareceu nos abismos do oceano, a tal ponto que, mesmo materialmente, esse apelo de regresso ao mar para o estabelecimento de uma rota é difuso o suficiente para não ser totalmente palpável ou material: o apelo é, na sua essência, misterioso e tem o seu quê de etéreo.  É nesse instante que toca a deusa e que ela compreende o povo português. O apelo português e a deusa são feitos da mesma matéria que é imaterial e material ao mesmo tempo. Esse “toque” é aquilo que é mais difícil de compreender pelos outros povos. Ele está na palavra saudade que se confunde, em mentes mais simplistas, com o fado cantado, embora o fado cantado seja o lamento ininterrupto do dilúvio. Uma prece permanente para o não afogamento e corremos o risco de, com ele, andarmos sempre de xaile negro… como negro ficou o céu quando caíram as águas (corremos o risco de nos afogarmos em lágrimas) e corremos também o risco de o povo português se confundir com isso o que seria, no mínimo absurdo. O fado é apenas um aspecto da Saudade e muito restrito no tempo.  Um entre muitos. Com esta moda dos gnosticismos corremos também o mesmo risco que corre a ciência: que venha algo de muito pequenino, como um vírus e toda a estrutura fica em risco. O gnosticismo é equivalente a “conhecimento”. E, a palavra em si, no fundo, não quer dizer nada. Podemos conhecer tudo, como a ciência, o bem, o mal e o assim-assim, já dizia a Bíblia. O gnosticismo ou conhecimento é apenas um dos aspectos da Saudade, apenas um. O aspecto mais importante da Saudade é a tentativa do povo português de sair dela em direcção a qualquer coisa onde já não a sintam. E a deusa, aí, distraída no seu passeio sempre matinal, repara, pára e concede.  Não há nada de Católico nisto, nem nada de Medieval. São dois factores absolutamente alheios a esta estranha relação que o povo tem com a sua deusa, mãe do mar, mãe de mar, mãe sobre o mar, mãe e mar, mater e matriz, a única capaz de nos levar a fazer uma rota, estabelecida com e nos quatro cantos da terra. As guerras absurdas sobre a “interpretação da quinta da Regaleira”, parece que têm em vista o esquecimento da figura mais importante desse complexo arquitéctónico. A menina que se ergue acima de tudo (e se parece soltar até da própria pedra) com pombas no regaço. As mesmas pombas soltas em alto-mar aquando as festas do Espírito Santo. Aquela que se ergue acima das montanhas e que “oferece” a libertação. O ponto central da Regaleira de que se fala e escreve “por alto”, sem efectivamente se olhar para o alto para a ver, e ao qual nunca se dá a devida importância. A menina-neta, o futuro. E, aqui para nós. O único possível. Em vez disso perdem-se as interpretações do cenário que não é mais do que um cenário de uma ópera, onde deuses se elevam em patamares e poços invocam à força universos dantescos, cenas de caça e um anjo que ri ao pés da cama enquanto anota os sonhos, uns atrás dos outros… de maneira a que todos se percam neles, nas ciências, nos gnosticismos, nas alquimias soporíferas, nas “Beatrizes” beatas, nos catolicismos baratos, nos ritos que imaginam, nas espadas que disferem e rasgam camisas em duelos, magoando-se e ferindo-se.  A grande lição deixada em pedra no século XIX, o século mais contrastante de que há memória com forças de tensão entre um “passado imaginado” e um “progresso imaginado”. As épocas e os presságios ficam sempre inscritos nas pedras. Enquanto andarmos divididos entre Dante e Cervantes, não lemos Camões, ou antes, lemos Camões com o coração e com os olhos de Dante e de Cervantes o que é desarmónico e nada tem a ver com ele.


segunda-feira, 21 de setembro de 2020

Templária à força


Já é o segundo que me diz "se quiser vi ver é só telefonar". Em comum, produzem obras. A falta de espaço e de interesse ainda vai fazer nascer as galerias em casa. Estive a ver uma galeria que dá ""oportunidade" aos artistas. Por duas semanas cobra novecentos euros. Diria antes que dá a oportunidade aos artistas de "apostarem" que vão vender pintura acima dos novecentos euros. O artista torna-se um apostador e o galerista, esse, joga pelo seguro. Assim, já é o segundo que conheço que mantém as coisas consigo e, se é para apostar, então que se aposte no "além-vida", ou seja, depois de morto, logo se vê. As galerias caseiras poderiam começar a nascer como cogumelos o que era uma boa resposta ao vampirismo dos "galeristas" que se limitam a alugar um espaço. Por convite ou por marcação, quem fizesse uma romaria pelas casas dos artistas iria encontrá-los no seu meio ambiente, de melhor humor e provavelmente ainda seriam convidados para almoçar. E então, sim, poderíamos falar numa "democrátização" da arte e não nesta fantochada da banha da cobra onde é dito que todos "podem fazer tudo" mas que, na prática, é um "vê se te avias" no aluguer de espaços de exposição.  Se não fizesse as coisas para a glória de Deus estava tramada. Templária à força, é o que é. 


 

quarta-feira, 16 de setembro de 2020

Factos


https://pontofinalmacau.wordpress.com/virgula-cronica-de-jose-luis-peixoto/?fbclid=IwAR2pK5vxmU-zq5GgCnL9MfXl3gySk9jtzF-d5bytDdfoYvakA9LWpI4UYEk


Nesta crónica José Luís Peixoto queixa-se da doença crónica do saber factual. Começou com os enciclopedistas e tem agora o seu auge na Internet. Já uma vez me questionei aqui como é que Leonardo da Vinci reagiria com tanto acesso a informação, ele que queria saber tudo. O saber desalmado é apenas isso, desalmado. Pode ter utilidade mas não tem nem produz efeito na alma. E aqui está o busílis de muitas questões. Inevitavelmente conduzem ao belo (que contém sempre a sabedoria). A informação pode deslumbrar mas é fugaz. A sabedoria acaba sempre por criar. E a criação só pode ser feita com alma. Cientificamente não se sabe o que a alma é. Apaixonadamente, sabe-se o que ela é.  Ainda muito haveria para dizer sobre a Iniciação e o papel das Hierarquias. Oh, se havia.

terça-feira, 15 de setembro de 2020

Intriga-me




O fenómeno da chamada Nova Ordem Mundial intriga-me. Há uns anos era uma teoria da conspiração terrível da qual era dito que um único governo totalitário comandava o mundo  (ver a Wikipédia) e eis que, com a pandemia, para alguns esotéricos portugueses, subitamente, (deve ser da virose), se transformou numa coisa boa. Já é o terceiro a quem ouço isto (não percebi se lhe tiraram a palavra Mundial ou não). É a mesma coisa que pegarem num partido de extrema Direita ou de extrema Esquerda e dizerem que, segundo a sua interpretação, são partidos moderados. Pode ser também que seja estratégia hermenêutica de maneira a fazer desaparecer a ideia de totalitarismo do horizonte. Ou pode não ser. Como não confio nas hermenêuticas de alguns esotéricos há muito tempo, a dúvida intala-se. Talvez queiram simplesmente comunicar (os esotéricos portugueses gostam muito de comunicar), chegar às massas com as palavras que as massas utilizam. Como isto já não tem ponta por onde se lhe pegue e, olhando para o caos à minha volta (segundo Mircea Eliade, o homem, no espaço e tempo sagrados é o centro do mundo -- por isso é que olho à minha volta), há uma nomenclatura muito mais apropriada e capaz de chamar os bois pelos nomes: "Kali-Yuga", o ciclo mais pequeno e mais destrutivo de um conjunto de ciclos temporais. Mas como isso é chamar os bois pelos nomes, ninguém está interessado. Preferem entrar em hermenêuticas intrigantes sobre Novas Ordens Mundiais, nem sei bem para quê porque do caos não se livram. Evidentemente que muitos sofrem da síndrome nacional do Chico Esperto na esplanada, sentado a fazer o quatro com as pernas, de óculos escuros, com ar de quem "controla", com ar de quem "domina", de quem "sabe" tudo o que se acontece à sua volta, desde as "gajas" que passam, passando pela política mundial. Com ar de quem, se tivermos dúvidas sobre qualquer questão, são a pessoa certa a quem devemos perguntar. Na verdade, não são o centro do mundo, apenas o centro do seu próprio mundo que criaram e encontram-se no terreno do profano julgando que são chão sagrado. Qualquer pessoa, com dois dedos de testa (são muito raras), só pode denunciar o que se passa. Constatar, como crianças (atenção aqui às crianças porque estamos a falar no sentido superior da infância e não na divinização da infantilidade mórbida que tem muito a ver com a obesidade mórbida - nome fantástico para designar os cérebros e corpos em papa) que o que se passa hoje no mundo é caótico. É um caos à escala Mundial. Como é um caos, apela-se à palavra Ordem com interpretações várias mas sempre acoplada com as palavras "Nova" (da qual suspeito), e "Mundial" que se encontra absolutamente fundida, nos dias de hoje, com a palavra "globalização" que é o que sabemos. Assim, quando tentam novas hermenêuticas do conceito "Nova Ordem Mundial" esquecem-se do velho conceito indiano "Kali-Yuga" que, por ser velho, é sábio e preciso no que aponta.
E esquecem-se do diagnóstico. Correm para a putativa cura como uma manada de elefantes descontrolados, utilizando conceitos de trazer por casa que vão roubar à Net (não aos livros), só para conseguirem vender o seu peixe, que é diferente e variado (cada qual defende coisas diferentes e, relativamente à iniciação, não me parece que saibam muito bem do que estão a falar ) e que atrai público, honrarias, aplausos e admiração, crescente em número, no domínio virtual, e decrescente em número, no domínio presencial (já era assim antes da pandemia). Mas, se tivermos em conta o conceito de "iniciação virtual" e o de "iniciação efectiva", veremos que até a palavra virtualidade decaiu. O virtual deixou de ser a semente efectiva que se lança à terra para passar a ser um mundo decadente, em ciclo final, espelhado na Internet. Assim sendo, a Mania das Previsões, torna-se facilmente na Mania das Antecipações (nos telejornais, devido à americanização da língua, já não se diz "prever", diz-se "antecipar", o que são duas coisas totalmente diferentes) e os esotéricos portugueses lançam-se numa corrida (que é sempre competitiva entre eles - basta um colocar um vídeo  no Facebook onde aparece a falar para os outros, logo de seguida, colocarem o seu, só um ceguinho é que não vê) em direcção a essa Nova Ordem , seja lá o que isso for. De uma coisa tenho a certeza. O nome é horrível. E, a palavra Ordem, nunca poderá ser Nova. Ela pertence à Tradição que está para além do Tempo e do Templo. Aliás, a "com - templação" é estar com o Templo, não é ser o "Templo" (aquele que é o templo é o fanático), e, nesta altura, só podemos constatar, depois de contemplar, que nos encontramos num fim de um ciclo. Os germes do seguinte estão na Iniciação efectiva. As virtualidades são recursos de emergência para uma época onde as pessoas são incapazes de chamar os bois pelos nomes. Até porque não sabem os nomes dos bois, não conhecem a sua linguagem, por mais que falem na linguagem dos pássaros, espampanante nas suas penas e colorida na internet. Essa linguagem, permanece o véu por retirar e nada tem a ver com "bocas" ou "sugestões", como muitos crêem. É superior a isso.

segunda-feira, 14 de setembro de 2020

Chocolate

Tive a sorte de conhecer bons jogadores e maus jogadores e, assim, penso que os maus jogadores e com mau perder (para não dizer, péssimo), estão envolvidos numa teia da qual só podem sair sem jogar. O gozo que me dá ver a sua cara de pau, ainda com os mesmos truques a espreitar por debaixo da manga e incapazes de franqueza, só é igualável a comer um chocolate.

Estão horríveis




‌Perguntou-me ontem um vizinho por causa da minha pintura se já tinha feito exposições. Disse-lhe que sim embora sem grande interesse por parte das pessoas. "Mas como?" Perguntava ele. Respondi-lhe que o sentido estético tinha sofrido uma grande anomalia e que a capacidade de decifrar símbolos ainda mais e que, por isso, não havia grande interesse por parte das pessoas. As pessoas gostavam mais de borradas do que de outra coisa. Vivemos numa época estética atípica, não é só o vírus que torna a época atípica. No outro dia o meu irmão ligou-me e adivinhei-lhe o sorriso maroto do outro lado do telefone (já não se pode dizer, do outro lado da linha porque já não há linhas, é tudo pelo ar) quando me perguntou: "O que é que achas da cultura?" referindo-se ao mundo cultural actual. Respondi-lhe que era uma "mer...". Ele disse que já sabia que iria responder assim. Nem costumo dizer asneiras, mas, neste caso, não há volta a dar. O desgraçado do meu irmão também apanhou por tabela com a cultura clássica da minha mãe e sofre de uma síndrome irreparável: a não identificação com nada disto. Já pintei a casa toda. Ao menos serve para alguma coisa. Demos por nós a falar sobre frascos transparentes para a casa de banho. Ele parou a meio da conversa e disse: "Já viste sobre o que é que estamos para aqui a falar? Sobre frascos!" Ri-me. Chegámos à conclusão que era uma tentativa desesperada de nos agarrarmos a qualquer coisa de bonito numa época tão feia. E é verdade, agarramo-nos a coisas aparentemente fúteis mas que são a ponta de  um iceberg enorme, com as suas raízes numa educação da visão, da harmonia, do símbolo. Quem gosta de grafittis, de arquitetura contemporânea, das porcarias expostas, não pertence ao nosso universo, tomamo-los por tontos (por parvos). Vivemos numa espécie de solidão a dois. Na solidão de quem, pela infância, passeou pela mão da nossa mãe, ele com cinco, eu com sete anos, pelas ruínas de Roma e sentiu o tempo como coisa viva. Estamos vivos por entre ruínas. As pessoas, por seu lado, na sua grande maioria, surgem aos nossos olhos, como algo incompleto, tosco e difuso. Sem a dignidade das ruínas. Vivem numa ignorância pestilenta e peganhenta. Gostam das coisas piores e desdenham as melhores com a arrogância de quem se sente superior. São insectos obedientes. Horríveis. As pessoas, na sua grande maioria, estão horríveis. Dizer o contrário é mentira.