sábado, 28 de março de 2015

Luz




Luz, que entras e  lembras
todos os solstícios de amor
escondidos nas frestas das pedras.
Luz que invades sem mais nem quê
todos os quintais das infâncias que houveram
em Verões serenos de cigarras cadentes.
Luz que desdobras as ondas do mar
e abranges o escuro azul do sonho tido
na mais intranquila noite do mundo.
Luz que bates nesse chão de pedra
e voltas em voo iluminando a face,
e que fazes arder a rocha
Numa idade que não há ainda...
Luz do dia e do entardecer
em cortinas ondulantes em morno torpor
Nas saias brancas antevendo-se em rendas.
Luz das flores que cintilam à tua passagem,
e tornas o céu improvavelmente claro,
e levas o nevoeiro para longe
ness’outro tempo onde não há poetas tristes,
nem a solidão dos amantes marcando as horas
Nem um gomo caído de uma laranja,
esquecido numa alma que é caminho
Nem os frutos a sós num paraíso antecedido
Luz, de longos braços
apresentando-me ao templo como ave...
Brilhas em água tornada benta com teu beijo
Espelho d’outra que não finge
Sustentando este, aquele
e ainda um outro universo
que não o sabendo todo
em ti , por ti,  em tudo o adivinho.


(Cynthia Guimarães Taveira)

sexta-feira, 27 de março de 2015

A matéria-prima do amor




(para Rosemina, pequena flor)
 
Estive com uma amiga de longa data. Por duas vezes, em conversas de horas. Conversas de horas, como são belas essas conversas, como fluem em sorrisos, em pormenores, em paragens. E como, toda a base, do amor ou da amizade é essa busca incessante de tentativa de compreensão do mundo, de nós, como se este e nós guardássemos o segredo de todas as coisas, visíveis e invisíveis. Há, ainda que com mágoas e memórias, alegria nesse percurso de desvendamento. A verdade que procuramos está acima de nós, e nós escalamos a montanha em busca dela. Ela não está em mim, nem em ti: fora de nós como uma dama. A matéria prima do amor, é para além de nós um apelo. A arte do amor, ou da amizade que é o mesmíssimo é essa concentração na verdade no percurso das afirmações e interrogações. O amor não é parado porque se deseja mais do que a ele próprio, porque tem como musa a sabedoria, essa tentativa de a enlaçar. Só é amor porque é em conjunto... só há amor porque há com-junto.

 
(Cynthia Guimarães Taveira)
 

quarta-feira, 25 de março de 2015

Barco com proa alta


 

O mais alto valor de Portugal é a liberdade (quantas vezes tendo como forma de expressão a independência...).  Colocou, a minha amiga Alexandra Pinto Rebelo, a fotografia da serra de Nossa Senhora do Socorro numa rede social. Estou certa que, lá em cima, bem no alto, e quando se olha em volta, usufrui-se desse sentimento de liberdade. Qualquer um pode subir a montanha. A forma mais rápida é em sonhos. Fechamos os olhos e, num rasgo estamos lá. No entanto, e embora o sonho seja veloz, como por exemplo o facto de se colocar a aprendizagem acima de tudo (forma de liberdade também), o sonho está no domínio do frio... (complementar do quente). Quem o faz em sonhos chega lá, mas quando acorda, dá-se uma sensação de frio, como se a justiça predominasse sobre a mesericórdia. A paridade entre o sol e a lua, permite a correcção entre ambos à medida que, tanto por via do sonho, como por via dos pés no caminho, permite um usufruto da liberdade cuja temperatura é semelhante ao paraíso. É como as formas de luz, que tanto Goethe tentou perceber: a luz pode iluminar a paisagem, como um objecto ou pode conter em si uma propriedade, uma espécie de fogo que, ao mesmo tempo que a desvenda a completa com um substrato cognitivo muito mais lento (mas mais duradoiro ao longo do caminho) do que esse salto, aparentemente irracional, que é o sonho, mas cujo resultado pode ser simplesmente acordar numa estepe deserta.

Quando Camões chama a atenção para o “saber de experiência feito”, chama, igualmente a atenção para o “saber de teoria feito”. A teoria, estranhamente, é o sonho. O sonho, em determinadas alturas precede a realidade, como a teoria precede a prática, como os arquétipos precedem o mundo... a experiência é o encontro com um certo “precedimento” ao mesmo tempo que já foi construido ou descoberto em nós... daí que, a verdadeira leitura, seja uma confirmação e que o paraíso, para certos sábios, seja poder ler e, finalmente, ler compreendendo. Indissociável, é portanto a liberdade do conhecimento. Falo do caso português como via. Ora a grande vantagem de um povo marítimo é esse mar que é todo liberdade. A grande lição é a aprendizagem da bússula, das estrelas, do astrolábio, num dialogo incessante entre terra e céu para melhor se saber do mar...

O substracto deste povo é de uma liberdade endémica. Volta e meia, e por via instintiva se sonha com o cume da montanha e daí as sucessivas revoluções sobretudo depois dos Descobrimentos, numa tentativa de re-alcance da liberdade perdida, no entanto, se formos atrás, e até Aljubarrota, a grande batalha foi a de definir as fronteiras face a Espanha (porque face ao mar não há fronteira numa viagem que é, em simultâneo para o futuro e para o passado) e ainda a construção de uma liberdade espiritual absolutamente sui generis... no modo como foi sendo edificada e mantida, com actos de violência máxima e de doçura máxima mas cujo o cerne, lá está, e volta e meia, reside sempre na procura dessa liberdade, num diálogo com o divino, (quantas vezes directo, dai a originalidade portuguesa...)  algumas vezes traduzido em paz,  não a artificial que hoje tanto vigora, mas naquela que dilui as dúvidas e os fragmentos, tão rara... e tão num ápice, mas ainda assim, existente por diversas vezes. O movimento é incessante.  Do que nos esquecemos  nas últimas revoluções, desde D. Sebastião, é desse principio de independência que é a primeiríssima forma de expressão da nossa liberdade, e esse esquecimento deveu-se, em grande parte, ao contágio com os problemas que nos vieram de fora, obrigando-nos a um circulo vicioso de pequenas revoluções necessárias para que nos mantivessesmos de pé, mas não totalizantes no que concerne a essa subida à montanha, confundindo-se esses pequenos rigores com o sonho, quando nem isso é. O que alguns autores nos vêem lembrar, é exactamente essa separação entre as guerras que não são nossas mas que as cumprimos por falta de alternativa e o aviso de que a par destas corre um sonho verdadeiro e útil que por sua vez corre a par com a realidade com os pés na terra. Quando um autor, mesmo que de forma implícita, faz esta separação, é absolutamente imprescindível dar-lhe atenção pois encontra-se num estado de lucidez e de sintonia com o país que pode estar na base de uma saída pelo alto a uma temperatura que permite a entrada nos domínios da liberdade feita de amor, e, por isso mesmo, quente e susceptível de ser partilhado por muitos e muitos anos e povos. É o chamado Banho Maria do nosso país, que, com um nome masculino (único na Europa), guarda em si, todas as Beatrizes, Sophias, Leonores, Margaridas que a Europa intuiu, ou não tivesse sido raptada, mas que, foi perdendo pelo caminho devido a guerras, algumas delas, francamente, desnecessárias. Não somos aqui uma espécie de Suíça, gelada, oportunista e indiferente a tudo. Muito temos sofrido em consequência da Europa, mas penso, sinceramente, que temos uma palavrinha a dizer à Grécia no que toca à ver acção pelo mundo, não feita de sugestões e alusões, mas feita de “experiência”. É que navegar no Atlântico é muito diferente de navegar no Mediterrâneo: poderemos ouvir os gregos, em parte, mas desde sempre soubemos que a terra era redonda e não quadrada como Tales pensava... Poderemos dar-lhe uma palavrinha, conversar um pouco, trocar ideias, mas Ulisses, quando partiu em viagem, chegou às colunas de Hercules e viu que tudo era diferente do que pensava, esse sim, com “saber de experiência feito”, fundou Ulissipo, na terra da Lux (itânia) cuja memória ainda era mais antiga do que a dele, porque mantida viva, não só em história... talvez por essa liberdade endémica que nos percorre as veias, obrigados que fomos a percorrer o mundo e, nessa obrigação, descobrimos, a um nível inconsciente, o que seria a verdadeira liberdade e como afinal, sempre havia estado em nós, na aparência de um castigo e no substrato, uma missão. Uma missão de libertação, evidentemente: entre a raiz e a flor, às tantas, não há diferença, queremo-la inteira para que possa haver mais. A eternidade reside algures aí, mas se nos darmos conta da luz com que é feita, hei-la desvendada aos nossos olhos, no seu verdadeiro esplendor, bem no meio de um jardim, no alto da montanha, toda ela em vida transbordante.

 

(Cynthia Guimarães Taveira)

segunda-feira, 23 de março de 2015

Acerca da Portugalidade



O que porque outros passaram, pode tornar-se caro, não como pistas mas como confirmações. Aqui, nestas arribas longas estendidas sobre o mar, lembro mestres:

Dalila P. da Costa
Fernando Pessoa
Camões
Bandarra
António Telmo
António Quadros
Sampaio Bruno
 
Neles, o que há de mais comum, mas também de mais misterioso, de mais imperceptível é a ligação a Portugal que dispensa, nas comunhões com as quais nos cumprimos, qualquer vínculo ao que nos seja externo como país e isto porque, pulsando com as paisagens, falando com os momentos e experimentado as letras, foi o quanto bastou para que, para quem tem ouvidos e para quem tem olhos, se aperceba de que este pequeno território e esta cultura feita de pequenos nadas em comparação com tantas outras mais vistosas e grandiosas, é o suficiente para uma união, em corpo, alma e espírito tanto com o país visível como com o invisível, sustentáculo iniciático real, não por via de um imaginário diáfano, mas sim, por via dessa conjunção tripartida feita a consideráveis dimensões. Adoptar qualquer país ou suas ideias antes do nosso será uma espécie de emigração espiritual, arriscando-se a ser, sem retorno, legitima, mas longínqua.


(Cynthia Guimarães Taveira)

domingo, 22 de março de 2015

Sol atrás da montanha



Nesta solidão fosca
Habitam-me todos os seres
Não os que invento
Porque a esses não os desejo
Mas os outros
Povoando o mundo
Ecos e ecos são vozes vivas
Pressinto-os
Sinto-os em cada som
Adormecem comigo ao fim do dia
E sei-os quase de cor
Como se fossem uma família
Nesta solidão fosca
Há sóis para além da montanha
E todas as sombras deste vale
Brilham numa manhã que não sei
Atrás do mar, atrás do próprio sol
Atrás dos seus sonhos até
Como jóias que não ouso usar
Guardadas no cofre do coração

 

(Cynthia Guimarães Taveira)

sábado, 21 de março de 2015

Poema simples




Há paragens no olhar,
trazendo outro tempo de volta,
passam e prendem pelo espanto,
vão para longe como ribeiros mansos.
 
Só mais tarde e em surdina,
elas voltam a espreitar, 
revelam o que calado ficou,
no encontro aonde sou...
 
Por de tão longe virem
Voltam na obra-prima do tempo
Não são ciclos, mas círculos
feitos de vontade e de intento
 
(Guardam todo amor
Encerrado na esfera dos anos...)
 
são apenas reflexo das águas
que a alguns assiste e a outros não
a uns reserva as penas
a outros, solidão
 
................................................................
 
guarda-os bem e enobrece
tal mistério tão guardado
se de fios sombrios os teces
em tapeçaria de luz te serão dados...
 
 
(Cynthia Guimarães Taveira)
 
 
 
 

quinta-feira, 19 de março de 2015

Filosofia Marítima



 
A razão pela qual a filosofia sistemática, tanto francesa, como alemã, não nos são convenientes, a nós portugueses, com modos de filosofar próprios, reside no facto de, por genética, herança cultural e chamamento, termos entendido que é tão importante conhecer por dentro os estados de alma de nós e dos outros, como entender o mundo pelo intelecto. Essa nossa natureza de pensamento gera, inevitavelmente,  a saudade como causa de percepção, não totalmente idealista, de que a filosofia só se cumpre, verdadeiramente, na acção. É dentro dessa tensão,  que por constante e que por inevitável, que a filosofia portuguesa é um dos suportes (totalmente indispensável) da nossa espiritualidade que nega as autoestradas para Deus, a espiritualidade destituída de pensamento, um pensamento vazio dos outros, e que autoriza, como um respirar,  todas as ondas do mar.  Semelhante a esse mar, de facto, só o céu.
 
(Cynthia Guimarães Taveira)