sexta-feira, 31 de outubro de 2014

A dádiva das tardes...




Coisas, tantas que por nós passam,
e não regressam envoltas em luz,
e não regressam em sinfonias,
e não regressam nem frágeis,
nem com um olhar que é longe...
Nem nos dedos simples de uma mulher.
E não regressam senão nos braços
de um Deus que é futuro demais,
longura de mais, sonho demais...
Há coisas que para sempre ficam,
nas nuvens do que são,
na eterna missão por cumprir,
num eterno devir, devendo-nos o seu ser.

E passamos, continuamos a passar,
rios intransponíveis,
rios dos desvios da nossa plenitude...
E no oceano, ao longe, só aí,
na bênção do pôr-do-sol,
nos encontramos no mesmo olhar,
em tardes irreflectidas,
dadas, vindas,
como a verdade viva
Suspensa no nosso mar.


(Cynthia Guimarães Taveira)

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Palavras recolhidas




Escrever é uma passagem pela rua do desvio do destino como pensar é uma passagem pela mesma rua da alma. Nada obriga a uma coisa ou a outra.  Que o mundo se vislumbre por palavras e que as searas se agitem, qual a diferença fundamental? Se é permitida à consciência o todo que é o todo que percepcionamos e que se bebam as águas ardentes enquanto o sol ferve e o mar se agita, qual a diferença? Que diferença há no mundo ou fica no mundo com as palavras brotando em fonte? Que sustentam ou inventam elas que já não esteja sustentado ou inventado? Que diferença há entre nós e as palavras? Ou semelhança já que brotam da fonte que está antes de nós sequer existirmos... Há um universo ritual nas palavras que em determinadas primaveras permitem a sua recolha, como orvalhos... sem que haja diferença entre o alto e o baixo. Com que instantes, eles, os instantes,  únicos, se nos acercam elas de nós? Há madressilvas nos campos e outras tantas palavras, e há as águias que tudo contemplam e tendem a voar sobre os vales para se sentirem ainda mais altas... como os poetas...
Todo o mundo é uma percepção possível de criação, ou assim julgamos nós. Julgamos que criamos mas limitamo-nos, no nomadismo que é da alma, a recolher as florestas de encantos que se oferecem à nossa passagem. Assintomáticos num a-priori que desconhecemos possuímos todos os sintomas da graciosa doença que é estar vivo... as palavras são um caminho como qualquer outro... só que mais vivo pois obrigam ao silêncio e a uma consciência em tendente desmascaramento das raízes e, em simultâneo, perpetuando os troncos das árvores no seu alongamento. A escrita é um alongamento do mundo, a árvore que tende a crescer até ao infinito... que diferença há, nesta anomalia totalmente inconsistente com a normalidade da presença... Ah, mas como?! Se as palavras se desviam do tempo e o aprisionam e o negando na forma e na virtude o transmutam, deveras... e nessa negação se tornam nele... 
Autenticamente, nem palavras há. Autenticamente nem são necessárias  sequer, autenticamente nem deveríamos falar, nem tornar as palavras coisas. Em virtude das características do ser, só lhe resta estar presente para que seja... o resto, é uma anomalia, uns chamam-lhe missão, outros, castigo... mas sempre algo que transborda do ser que não necessita de palavras por estar em todas elas... quase como num mito antes de ser escrito, antes de ser dito, antes de ser actualizado no jornal da mera existência. Só tomamos a consciência do pré-existente que somos diante do ser outro que encontramos. É no espaço vazio, entre um e outro, que encontramos o ser que somos e todas as palavras possíveis antes de as serem. E todas as palavras que deixámos existir antes dessa consciência adquirem o significado de uma história lida sob uma outra luz e sob essa luz, tudo o que acrescentámos ao mundo, retirámos de nós... desse núcleo vivo, algures situado tão acima ou tão adentro que se torna invisível e indizível ao todo que nos foi dado. E nem a explicação pelo mito o traduz na plenitude. Um mito é parte de uma interrogação maior.


(Cynthia Guimarães Taveira)

Jardim


 
Poderia ser que o olhar
Fosse ainda mais para longe
E te tocasse no horizonte
Poderia ser que o sorriso fosse
Multiplicado pelos instantes
E te desvendasse o teu
Poderia se que as palavras
Fossem todas elas concentradas
Em livros, em prateleiras,
Infinitas na biblioteca
Elevada em degraus
Poderiam ser tantas coisas
Concentradas num único ponto
Jardim que nos percorre
E do qual somos a fonte
Brotando em água fresca
Onde todas as simetrias
Não são pensadas
E onde toda a dança
Solta do nascimento das flores
É da ordem das estrelas
Formando tudo o que quisesses
Entre a dúvida se os deuses
Estão implicitos nelas
Ou se as viagens
Estão inscritas nelas
Ou se ambos vivem e se geram
Enquanto o jardim passa por nós
Na transparência do que somos
Sem alfa ou ómega
No eterno movimento
Do que vamos sendo
Em espíritos unidos
Por aqueles por quem
O jardim passa
Deixando o jardim vivo
Àqueles porque quem
O jardim sempre esperou.

 
(Cynthia Guimarães Taveira)

domingo, 26 de outubro de 2014

Uma das Heranças de Camões



Ouvido ontem, de um amigo de um amigo. Conversas de café. Conversas daquelas que passam, não têm importância nenhuma. Elas são como bastidores, elas são como o sub-reptício das palestras da ribalta, elas não têm holofotes, nem microfones e escondem mágoas. Palavras ditas mais do que em segredo, em solidão. Uma solidão partilhada por entre várias solidões como um vento que passa. E ainda assim, mesmo sem importância nenhuma, sustêm o mundo, são a forma de consciência exemplar que se esconde. São um sorriso entre amigos. São experiencias e, às vezes, pré-experiências. Surgem de aqui e dali, de amigos de amigos que "trazem outros amigos também". São essas conversas o sustento da alma. São elas que sentem a falta da alma do país e se queixam, porque afinal, ainda tem o país uma alma... seja lá o que isso for: eterno mistério da nebulosa que cobre o planeta, dando-lhe as nuvens e purificando a água... Dizia esse amigo, porque "amigo do meu amigo, meu amigo é...", - provérbio lindíssimo não sei se apenas português mas muito usado por nós - e tão difícil de colocar em prática:
"A inveja e os defeitos dos portugueses são prejudiciais à economia do país". Aquilo que chamamos de virtudes e que os mais conscientes entendem ser o lugar por onde se move o espírito e que os mais conscientes, de entre os conscientes entendem ser ele, o espírito, a vanguarda do tempo e que, por isso, sua luz brilha na síntese de todas as cores... aquilo a que chamamos virtudes e que mais nada são senão as acções da alma cuja genética condicionante pode ser alterada pela prática da consciência diária (assunto mais complicado do que uma mera psicologia em moda - senão todas as psicologias  - cujo vicio determinista fica submerso numa cura aparente), essas virtudes contêm, naturalmente, o seu oposto e, de uma forma, ainda mais menos enganadora, podem ser entendidas como características na paleta dos impulsos do coração, não necessariamente opostas de qualquer coisa, mas características em si...
A cultura de um povo passa por fases, não é estática e cristalizável como nos fizeram crer os antropólogos positivistas nascidos no século XIX e aos quais somos tentados a voltar, de vez em quando, quando a afirmação cultural se torna mais periclitante face à mistura entre sedução e imposição do que vem de fora, tendência que é um movimento de resposta natural de defesa, aliás, mas que deverá conter em si a crítica (autocritica) necessária para que se possa ver também, nessa cultura ideal e cristalizada, os defeitos que acompanham o povo e começaram a acompanhar a partir de determinada altura.
Todo o regresso à História, esse movimento de "se conhecer o passado para melhor se entender o presente", a partir de determinado ponto da viajem da consciência, quando a própria viagem passa a ser  consciência, torna-se a de tentativa de correcção. Não é uma necessidade de "ambição" o que está por detrás desta atitude, é apenas o processo natural que a natureza utiliza no seu desenvolvimento  tendente para a transfiguração sendo que esta não implica o desaparecimento completo da matéria, ao contrário do que um ideal excessivamente platónico  formatou  nalguma cultura ocidental.
Nestas conversas de café... sem importância nenhuma, quantas vezes, estas solidões, paradoxalmente partilhadas, às vezes até com a ajuda de um copo de vinho como "desbloqueante", apenas...  nos revelam o erro, a tristeza dele, a consciencialização dele, mas também a esperança de correcção.
Camões não deixou cair a palavra no final dos Lusíadas "sem querer", inscrita na grande atitude poética que é a verdade do que somos como povo, esta obra deixa um testamento e um aviso: a Inveja como a mãe dos defeitos que devíamos corrigir, talvez em primeiro lugar; sem ela poderá ser que nos seja devolvido o espírito vivaz e vivificador, no impulso que falta a este país para que se cumpra em descrição, amor e harmonia.
A inconsciência dos políticos que têm atravessado os governos ao longo das últimas décadas, a total falta de conhecimento da nossa História e da nossa constituição psíquica e física, conduziram-nos a um lamaçal do qual só é possível sair por via do espírito, e isso, só se faz, encarando a nossa alma, face a face, com toda a sinceridade, mas tanta dela é exigida, que pelo excesso se torna outra palavra: transparência. Só na Transparência a luz do espírito brilha, a verdadeira eucarística, que como sabemos, é uma comunhão na qual se partilha o pão entre com(pão)nheiros, contida no número da própria palavra: 8 consoantes e 5 vogais: o Homem inscrito no Infinito.

(Cynthia Guimarães Taveira)

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

A arte do improviso




No divagar absurdo pelos quais são compostos certos escritos em papel, na actual aceleração dos tempos, concomitantes de certezas absolutistas e várias, na corrida desenfreada de um positivar como coisa verdadeira, abrangendo os tempos e as histórias, no imediatismo chocante da afirmação concreta como critica impar, porque sem par, ou paralelo sequer ou sem contraponto, sem medida que se lhe acrescente, nisto tudo, neste mar envolto de nuvens e agitações profundas no qual os mastros mais parecem sustentáculos imediatistas de convicções que definem e delimitam o ser e toda a imaginação que potencialmente nele vigora, a desenvoltura do vero movimento criativo é colocado numa espécie de cave cujo movimento, em pequenos soluços, como micro-tremores de terra, são sentidos no meio da invalidez da dimensão humana.

Há uma trágica confusão entre o que se é e o que se escreve ou cria quando o que se é se vai sendo, na eterna viagem, mesmo que camuflada de uma casa aburguesada e bem posta, com alicerces fixos em raízes que são apenas a meia esfera iluminada da fonte da criação.  Há uma desmedida violência na herança de uma cultura toda ela baseada no julgamento, que é sempre final (nem necessitamos do final... agora), o que compromete o futuro tornando-o inexistente, na variedade do que possa ser, devido a uma aparente auto-suficiência, na qual, no mundo da criação segue as passadas das teses académicas: cada obra é igual ao ser que a compõe ficando para sempre justificada na sua moldura de notas de rodapé culturais, na bibliografia que (embora sempre parcial) compõe a sua própria história, numa cadeia lógica de acontecimentos que conduziram o ser à obra, acontecimentos fixados no tempo, como datas-prova de uma construção morosa e derradeira, ficando fechados, a obra e o ser em si mesmos, o que produz a sensação de não haver espaço para o que vulgarmente se chama inspiração.

A exigência de regulamentação da arte dentro do quadro das ideologias que, atentemos, como essência, são sempre a mesma no sentido em que promovem a existência de fronteiras que em princípio nem existem... (falo evidentemente do espaço de criação), impõe-se como condição muito parecida àquela da manipulação genética para o apuramento da raça... quando, em termos humanos, tal coisa nem existe. É na urgência do medo e do pânico nascidos do convívio com todo o artificialismo quer tecnológico, quer humano que vigora e ,estando este entrelaçado entre o medo da morte e o sentimento de culpa exacerbado, talhado cuidadosamente na cultura ocidental, que se produzem (a produção não é o mesmo que criação...) e nascem, actualmente, as diversas correntes artístico-ideológicas remetendo estas numa espécie de monotonia que já vai ganhando o epíteto de clássica... ou para a ausência de total criatividade plasmada na actividade criativa como indústria, ou, por via da sua ausência, para inoperância da própria imaginação como instrumento, verdadeiramente capaz, da actividade transmutadora. Tudo isto são sintomas, não de agora, mas de há muito, e não raras vezes a verdadeira actividade criadora sofre, por vias um pouco inexplicáveis, o mesmo percurso que a actividade espiritual, sendo-lhe incrustada , no entanto, muito mais as penas que lhe são próprias do que as benesses de uma “iluminação” capaz de tomar o seu lugar no tempo que lhe é devido.

É vivendo neste tipo de escorreita e infeliz visão tendenciosa das coisas, como que se a um regresso a um maniqueísmo camuflado se tratasse (confundindo e cegando, apenas...) que se torna cada vez mais urgente o improviso, como dom de alcance do movimento temporal. Descontextualizado assim de qualquer apego ideológico, o artista, outra espécie de homem, mas não de raça, poderá, mesmo que em termos invisíveis participar na desenvoltura da vida e na sua perpetuação; reunindo, a arte do improviso, dois tempos, a saber: passado e presente, colocando-se, consequentemente, em posição ideal para o terceiro tempo futuro e ainda uma quarta dimensão lhe é acrescentada porque, de tal modo, solta e livre, permite a operância de uma espécie de "abertura", porque imediatista ao livre fluir de influencias transcendentes. É só nessa, perspectiva, e apenas quando ela é integrada em consciência, que será permitida e a todos os que falem a mesma linguagem (e aqui as artes plásticas e a escrita podem aproximar-se da universalidade permitida em maior abundância pela música), nem que seja apenas num momento, uma espécie de cumplicidade extra-forma, extra-formatada porque ausente de conceitos integrados em vias dirigistas. Isto é sabido há séculos, por exemplo e como espelho desta sabedoria, a escrita dos caracteres cursivos do oriente. Cá, neste ocidente esquecido de si, encontrar-se ainda como linguagem camuflada tanto pela castração que lhe querem impor como pela cegueira de a tornar coisa hermética, fechada, isolada, como câmara secreta de um esoterismo forçado em si mesmo. O verdadeiro esoterismo no qual navegam estes barcos-improviso, ( também encontrados na pintura de ícones, nos quais os olhos são sempre a última coisa a ser pintada, como se aí, toda a mensagem do ícone fosse concentrada num único momento, sem emenda, no próprio simbolismo que contém: centro do centro...) encontra-se à vista de todos... mas apenas alguns se dão conta de tais fenómenos... é nesse sentido que, quem co-participa em tal género criativo, foge aos ditames das regras, por mais que se tentem mecanismos de manipulação, quer venha esta do "baixo", querendo com isto dizer, da pura matéria visível, ou de um invisível inconsciente,  totalmente inconsciente, sem luz do consciente, fenómenos aos quais a maior parte de humanidade está sujeita e que utilizam, exactamente, as vias ideológicas como tentativa de aprisionamento das reais capacidades humanas, motores imóveis, necessários para a mudança de ciclo que se avizinha.
 
 
(Cynthia Guimarães Taveira)

Do barco à caravela


 
Barquito, casca de noz
Tua graça imensa
Não compensa
A vil vontade dos ventos
 
Barquito, frágil
Ao barlavento
Perdido andas
Na rosa dos ventos
Nem norte, nem sul
São as absolutas margens
Do horizonte transbordante
Do outro lado que não sentes
 
Barquito vazio
Sem ninguém que seja alguém
Andas hoje e além
Recebendo das nuvens
As chuvas várias
Desde as finas gotas
Às outras, maiores,
E menos soltas...
 
Barquito simples demais
Balanças em vertigem e abundância
Dia a dia, com ontem e depois
Se de fora do tempo te pudesses ver
E a essas ondas servindo-te o mudar
Na sensação de vontade e boa esperança
Em alvas velas se ergueria teu sorriso
tocando em sua curva a orla
de uma outra despedida...

Nada na tua solidão, barquito só
É teu e único crer
Se dos ventos e marés
És deles só um ter
Enche o barco d’alma
Enche o barco de ti
Fa-lo transbordar
Para além daqui
 
Três vezes rodará o mostrengo
Três vezes a resposta darás
A dos remos, a do leme
E a das velas que o tempo teme...

 
(Cynthia Guimarães Taveira)

domingo, 19 de outubro de 2014

Tao e tu...



A verdade do teu sorriso,
acompanhando as curvas
das elevações dos montes,
o brilho do teu olhar,
acompanhando o sol...
são predizeres das paisagens
com as quais já sonhaste.
Ver-te no caminho,
é estar no caminho.
O Tao sem fim na tua
inquieta presença
por ser demais
e transbordante
o brilho da tua verdade....
 

(Cynthia Guimarães Taveira)