quinta-feira, 26 de setembro de 2019
quarta-feira, 25 de setembro de 2019
Selfie - 25/9/2019
A Língua dos Pássaros
o encanto das quimeras
é o que nos dá o espaço
do ser agora e mais além
sem que nada fique sem
se encontrar na quimera
que de nós está para além
O caranguejo
Geneticamente sou portuguesa, pai, mãe, avós , bisavós, trisavôs e por aí fora. Também o sou por opção. Há muitos portugueses que vivem em Portugal e que nunca chegam a ser portugueses. Gostariam de ser de outra terra qualquer. Há alguns assim... Dentro disso, faço parte de uma elite que quis pensar Portugal. Essa elite leu e lê imensa coisa sobre este país. Dentro dessa elite há ainda os que se arrepiam com coisas pequenas mas que indicam a sua profunda ligação espiritual a este país. É um arrepio total. Os pelos levantam-se todos, às vezes com uma ideia, outras com uma memória do país, com uma música, com um objecto, com uma pessoa, qualquer que seja a sua classe social ou intelectual. Qualquer coisa que nos indique o Portugal Real. Por causa dessa ligação espiritual talvez o sentido crítico para com o país seja mais apurado. No outro dia estava a ver um daqueles programas de entrevistas a uma só pessoa onde acaba sempre por haver lágrimas (vendem bem publicidade). No programa em causa estava a ser entrevistado Fernando Pereira, o imitador. A determinada altura, com uma expressão bastante triste, conta uma história. A história de dois estrangeiros que estão a apanhar caranguejos na praia. Um deles vai pondo os caranguejos num só saco. Ou outro diz-lhe para os dividir por mais sacos porque assim é mais fácil mantê-los, não vá um saco perder-se por fugirem todos. O amigo responde-lhe:
-- Não te preocupes, estes caranguejos são portugueses. Quando um tenta subir, os outros puxam-no logo para baixo.
Parece uma realidade crua, dita talvez por dois ingleses. Conheço bem esse ar inglês, capaz de uma auto-crítica absolutamente firme. Afinal, foi o primeiro ar que respirei, o inglês. Talvez o tenha trazido um pouco comigo e talvez, por isso, saiba reconhecer uma crítica justa quando a ouço, coisa que é muito rara em Portugal. Fernando Pereira estava referir-se ao esforço que tinham feito para o deitar por terra e, em resposta, foi implacável na crítica. Pessoalmente, e com todos os meus genes portugueses (que como se sabe são uma combinação de tudo) penso que fez muito bem em dizer o que disse. Até porque é verdade.
O mesmo tenho sofrido eu. Há uma incompatibilidade com as pessoas diferentes neste país. Uma grande incompatibilidade. Tão grande que, frequentemente, ouço a resposta, a resposta mais estúpida que alguma vez ouvi, a de que "somos todos iguais". Como se existisse um desejo de igualdade constituído pelo resultado de se nivelar tudo por baixo. Pelo mais baixo possível. Apenas por causa da insegurança.
Desde que ouvi essa história, mentalmente, comecei a transformação de algumas personagens em caranguejos. Vejo-as com as suas pinças feitas de insegurança. Inspiro um pouco daquele ar inglês (Fernando Pessoa também teve que o inspirar de vez em quando e ele, sim, é um exemplo), uma espécie de calmante que só faz bem e acabo por voltar para a minha concha onde, de facto, reina alguma justiça. Lá fora, há um espectáculo permanente de insegurança a desaguar na injustiça.
terça-feira, 24 de setembro de 2019
Ela e eles
Na realidade, morro de tédio. Sem contar com a paisagem, os animais, umas quatro pessoas, e o gosto de estudar e de criar, tudo o resto é tedio. Ainda assim, as coisas enumeradas acima muitas pessoas não as têm e, ainda assim, também, são capazes de não sentir tédio. A última que consegui fazer foi estar a discutir com uma vizinha que conseguiu dizer mais palavrões por minuto do que uma arma automática e no meio daquilo estava a olhar para ela enquanto ela soltava os demónios que utilizaram a minha pessoa como bode expiatório, e sentir que estava a morrer de tédio, que nada daquilo era uma surpresa embora na aparência o fosse. Sabia que dentro dela estava aquele chorrilho interminável de raiva, inveja, amargura e dor e que bastava dizer-lhe uma frase simples, sem ofensas nem acusações para ela desatar naquilo. Olhei para ela, que berrava, ameaça e insultava e tive a imagem da monotonia, como se já viesse vivido aquilo milhares de vezes e fosse verdadeiramente inútil aquilo que ela estava para ali a dizer. Um tédio sem fim, como se ela concentrasse a imagem que tenho do mundo: um mundo amargo, raivoso, invejoso e cheio de dor. O mundo dos seres humanos actuais. A grande maioria deles vertidos em gordura, tatuagens e em injustiça. A franqueza pura de se odiar o belo, o bem, a sabedoria. A imensa História que estava por detrás daquilo. Como concentrou toda a civilização abrutalhada nela agora reporto-lhe todas as injustiças, arrumo-as no vasto corpo dela, que não pára de parir, pior do que os animais porque nem cria os filhos que vai tendo, é inerte porque nunca se mexe para nada, está sempre parado e preparado para mais uma tatuagem que lhe diga que é única e especial. Mas não é. Ela é o tédio desta humanidade imensa atordoada por estes tempos do fim. Ela é o fim a desfraldar as últimas sombras, enquanto eu sou o princípio do desdobrar da luz. E não temos nada em comum. Somos apenas dois tempos obrigados cruzarem-se na rua pela lei da cadeia temporal que diz que quando uma coisa está a morrer, outra está a nascer. Ela é o tédio que observo e que nada tem a ver comigo excepto ser obrigada a senti-lo. Eu sou a fonte de um mundo diferente e novo que pressinto.
domingo, 22 de setembro de 2019
A promessa
Não se encontram
As elevadas canduras
Neste chão de pedra
E de terra poeirenta
Apenas no sol descendo
Livre de o fazer
Banhando as águas
Iluminando as suas profundezas
Se o teu sorriso fosse verdade
Ia com ele até ao fim do mundo
As hipóteses vivas de não o ser
Não chegam para o sustentar
Se escolhesse fazer poemas
Tocava baladas a estas casas
E a este mar d'oiro de sempre
Onde fomos sem o saber
Se escolhesse dizer-te alguma coisa
Nunca te traria pela mão
Levar-te-ia acima de mim
Como se fosses um pássaro a amanhecer
E das derrotas e das causas
E das lutas e das vitórias
Ficavam apenas as memórias
De quando rias, sem o saber
Não foste comigo até lá?
Não trouxeste a rosa que era tua
E prometida.
Agora sei que vives nesse azul baço
Sem o brilho da manhã
Foram tantas as vírgulas
No teu texto
Tantas onde o mundo se deteve,
À espera da próxima palavra
Que seria todo o verso no princípio desejado
Até os espelhos enegreceram
E tornaram os vultos apenas sombras
Ténues e infelizes de um Inferno
Que julgam representar
Fiquei a salvo nessa ondulação
Onde a relva parece um seio
Estendendo os braços
Para a lua e para o sol
E dando os passos que desejava
(Cynthia Guimarães Taveira)
A angústia de Nietzsche
Dizer a alguém para não reagir a estímulos é já tentar fazer com que alguém reaja ao estímulo do que foi dito. A isto chama-se barbárie. Os bárbaros eram os que vinham de fora. A sua acção era imediata e brutal. Li numa secção de uma editora uma citação de Nietzsche sobre isto. Achei curioso ser Neitzsche, o das terras bárbaras que quis ressuscitar os deuses e matar Deus, a dizer isto. Achei ainda mais curioso vir donde veio. O problema da moralização, quer seja positiva ou negativa, quer use a psicologia ou a psicologia invertida (como está na moda agora dizer-se) é exactamente o mesmo problema que conserva a magia: o seu campo é extraordinariamente limitado. A deificação (como ambição maior dos ressuscitadores de deuses) implica a sua projecção imediata para fora da existência, ou seja, na ilusão de que nessa projecção alcançam o ser, esquecem-se da necessidade de um centro. Se conservarem esse centro, então, os ressuscitadores de deuses, são também os seus assassinos porque no seu campo limitado, não pode existir mais do que um deles (um dos deuses). A mesmíssima coisa se passa com estes seres "moralizantes" que o são a toda a hora, no seu universo fechado: ao instruírem os outros destroem a instrução que almejam. É portanto, evidente, que se lhes dissermos que são lentos (e lentos a perceber as coisas), naturalmente terão a espectável reacção imediata de se sentirem ofendidos e, assim, cai por terra, com um ligeiro sopro, a sua tentativa de impassibilidade que impõem aos outros. São pequenos ditadores que, não tendo alcançado a deificação, (aquilo que se supõe ser o estado mais alto desse caminho), tomam facilmente o lugar de Deus que dizem ter matado. Muitas vezes, para fora, na imagem que querem projectar, dizem ter resolvido este conflito que requer a ressuscitação dos deuses, o seu assassinato, a deificação, a manutenção de Deus e o seu assassinato também. É assim que os ouvimos dizer que, relativamente ao paganismo e ao monoteísmo, "as coisas não são incompatíveis", mas tal frase, bonita e sonante, é arruinada pela sua tentativa quotidiana de moralização. Se, por um lado, defendem a transgressão como legitimação do processo de deificação, por outro, parecem querer assumir o lugar central de um panteão (a serem algum deus teriam de ser Zeus...) o que coloca em causa esse mesmo panteão. É por isso que estes neo-paganismos já nascem com a marca evidente da Igreja Católica da qual nunca se despegaram (a moralização é aliás um tique facilmente constatável) a partir da qual nasceram (e não o inverso) como se tivessem pedido boleia a meio do caminho e não conhecessem, de facto, as origens do que dizem querer ser ou do que dizem, mesmo, ser. Este texto pode ser considerado uma reacção ao estímulo das palavras de Nietzsche, no entanto, a sua maturação é anterior ao acto de as ler. Também assim cai por terra a ideia de que as reações a estímulos são "impensadas" ou são produto da falta de capacidade de "impassibilidade". A impassibilidade é o mesmo que a não-existência, aliás, e é por isso que esta ideia, imposta quotidianamente por tais personagens é composta com o objectivo da morte como inércia e não da morte como motor imóvel. Nem eles próprios são capazes dessa impassibilidade que "propõem" tal como o padre diz "olha para o que eu digo mas não olhes para o que eu faço". A origem é então a mesma: a da Igreja Católica no seu pior. Aliás, a maioria dos neo-paganismos, senão todos, tem origem numa reacção à Igreja Católica e aos fantasmas que produziu o que, convenhamos, é muito pouco. As transgressões são sempre moralizantes e extremamente limitadas no seu domínio de causa e efeito e daí que digam "não serem incompatíveis". É o pensamento dual no seu esplendor. O mesmo fazem as vias "eróticas" com as suas evocações do "eterno feminino", como se fosse domesticável (é mesmo um pensamento instituicional), numa tentativa de domesticação do Espírito de Deus ou do Espírito Santo. O resultado é temporário, fragmentário e inócuo como é a cultura geral dos concursos da televisão. Não há nada mais monótono e monocórdico do que um "fogo" domesticado com vista à realização da obra que, dessa maneira, nunca saírá grande coisa. Toda a grande obra requer momentos ou o momento da via breve (conforme os casos) e as mutações são surpreendentes. O que se passa com este tipo de pensamento neo-pagão é a substituição das Revelações pelas Visualizações. São um espelho da época. Vazio e causador de angústias.
sexta-feira, 20 de setembro de 2019
Santa Maria da Feira
Qualquer pessoa com dois dedos de testa consegue ver que a quantidade de acidentes, desgraças e desgraças inusitadas que acontecem em Santa Maria da Feira são o suficiente para transcender toda a esfera do racional.
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