sábado, 30 de novembro de 2019

Catarina, a Grande

O grau de iliteracia dos meus textos é assustador. Depois de ter escrito o texto "A Grandeza" há algumas horas, recebi não sei quantas chamadas de Alexandres que me quiseram informar sobre a sua opinião acerca de si próprios. Todos eles me disseram serem grandes. Ora o texto, acaba a dizer que "o nome não interessa para nada", e eis que os incompetentes da leitura, se acercam do texto, fazem-lhe o cerco e mudam-lhe o sentido. A inversão é típica do satanismo... Ora se o nome não interessa para nada, mas se quem lê o que quer e não o que lá está, resolve aproveitar-se disso, isso não altera o texto, altera é a pessoa que o lê: de um potencial bom leitor passa a um completo péssimo leitor. Devo acrescentar que não vale a pena virem com aquela história hermética daquilo que diz que "o que está em cima é como o que está em baixo" mas ao contrário. É que se for assim todo o satanismo é legítimo e, se calhar, é isso mesmo que querem. Para a próxima talvez coloque "Catarina, a Grande", e como se trata de um nome de mulher, talvez elas não me telefonem a dar a opinião sobre si próprias, até porque, frequentemente, e infelizmente para muitos machos que pensam ser os melhores do mundo, elas demonstram mais inteligência do que eles... Disse "frequentemente", não disse "sempre" meus amigos com défice de literacia. Só escrevo para pessoas inteligentes. Os outros não percebem nada.

30 de Novembro


Olá, meu amor. Mais um ano passou desde que partiste. Já tinha preparado o meu nascimento só para te poder ler. Desencontrámo-nos no tempo mas encontrámo-nos nas palavras. O mundo continua no seu percurso de fim de ciclo. Tenho a certeza que se escrevesses agora ninguém te compreenderia na mesma e terias de repetir todos os teus heterónimos e arranjarias uns novos numa última tentativa para falares a partir do coração do mundo. Meu amor, as últimas novidades que tenho para ti são as do Espírito Santo. Disse-me ao ouvido (ele também fala ao ouvido e não à orelha) que continua a não se deixar enganar. De maneira que, por aqui, nesta pátria que é a língua portuguesa, Ele continua atento e soprando aqui e ali. Andamos  todos aqui a fazer por viver. Os que não andam, andam a fazer por sobreviver e os restantes andam a fazer por viver interiormente. São poucos. No fundo são os mesmo de sempre neste fim de ciclo. Tu conhece-los bem, também estiveram contigo e acompanharam-te sempre. De modo que, continuo a amar-te muito e a encontrar-me, sempre que posso, com as tuas palavras para que possa encontrar-te a ti, poeta-estrela.
Um beijo grande.

Cynthia

A Grandeza


Alexandre, o pequeno, nunca foi o Grande. Também tinha, como o Grande, um lado feminino, de tecedeira. Alexandre, o pequeno, tecia com fios que encontrava pelo caminho, opacos e tristes, restos de palavras apanhadas em redes de borboletas. E o tecido, tecido por ele, era uma serapilheira gasta, baça que caía tristemente sobre o branco sujo do papel amarrotado. Alexandre, o Grande, era aquela tecedeira que não negava a noite e o dia e que, a qualquer hora, cruzava os fios nocturnos que apanhava das águas onde se reflectia a luz da lua e os raios de sol, formando com eles bordados, sem que houvesse qualquer diferença, entre eles e os do céu. O tecido luxuoso era depois transportado em caravanas e ia vestir os reis e as rainhas do outro lado do mundo e que, desse modo, iluminavam os seus reinos. 
A matéria-prima, que um e outro conseguiam apanhar era aquilo que um e o outro eram verdadeiramente. Como se depreende daqui, o nome não interessa para nada. Apenas a Grandeza.

A paisagem


Há mais um desiludido com a sala de baile. Esse, tinha dançado até que os pés lhe sangrassem como o Fred Astaire. Tinha até dançado com as três Marias, as rainhas do baile, mas agora, está no avarandado que dá sobre o crepúsculo ou o amanhecer, não sabemos bem, que é para onde vão aqueles que precisam de respirar ar fresco. Está a dizer que os assentos das cadeiras não são grande coisa e que prefere estar debruçado no parapeito, entre colunas, a fumar o seu cigarro. Quando se está no avarandado com aquela luz, as regras deixam de fazer sentido, e ali, pode estar sossegado a falar e a pensar sem ter que andar aos saltos. Ali, onde vão parar os desiludidos é um lugar especial. Outra perspectiva, outra visão das coisas. Neste momento fala da música, mal escolhida e mal tocada. E das máscaras. Era suposto ser um baile de máscaras, mas, a pouco e pouco elas foram caindo até que a zebra com quem estava a dançar se tinha revelado um cão de guarda, o elefante, seu amigo, um galo idiota, a avestruz da Maria, um aranhiço, engraçado, mas incapaz de uma pirueta verdadeira. Não deixara de ser um zoo, mas a graça que as máscaras tinham, tinha desaparecido e agora havia penas por todo o lado, poeira, os peixes tentavam comer-se uns aos outros e perseguiam-se com oratórias. Não deixara de ser uma fábula, mas extremamente cansativa. A dança nem sequer chegava a ter a dignidade da ginástica rítmica. Estava ali, com o seu copo de vinho, a única coisa que tinha trazido lá de dentro, e contemplava aquela cor no horizonte que permitia que o recorte das árvores contra o céu parecesse verde muito escuro enquanto as primeiras estrelas apareciam a cintilar. Lá em baixo, um lago com cisnes espelhava a alvura tímida da sua penugem. Tudo lhe pareceu mais nítido. Tudo ficou mais nítido enquanto os minutos avançavam. A noite, surgiu-lhe com constelações infinitas sobrepostas, o manto da cúpula do céu desvendava a natureza do seu disfarce e onde havia trevas passou a existir luz. Um dos amigos disse-lhe então:
"Então já descobriste este lugar? Não esperava isso de ti... Sabes que podes entrar e sair quando quiseres."
E sorriu para longe em direcção ao sol que já se adivinhava.

sexta-feira, 29 de novembro de 2019

Há coisas deliciosas


Hoje em conversa com um amigo veio à baila o tema da juventude e dois tópicos associados a ela: a internet, com redes sociais incluídas e o desinteresse da mesma por congressos, palestras com temas de rondavam as áreas que estudam. Já sabia desse desinteresse geral em ir a "eventos" onde as pessoas vivas e ao vivo aparecem para falar e dar parte do seu tempo e também já sabia que se diz nos estudos mais avançados ligados à sociologia que a virtualidade é encarada como realidade, porque tem efeitos na realidade. A páginas tantas, lembro-me ter dito que a "virtualidade" se podia desligar (evidentemente que a realidade vivida realmente também se pode desligar quando as pessoas morrem, mas isso é um caso extremo) e de o meu interlocutor, envolvido nessas leituras, ter ficado a pensar no assunto. Minutos antes, com outro interlocutor, tinha vindo à conversa o facto da juventude não ler por estar sempre nas redes sociais e nos canais disto e daquilo da internet. Evidentemente que não chegámos a conclusão nem a solução nenhuma, até porque não existe. Aquilo que existe são consequências desses factos. As próximas gerações estarão cá para falar sobre isso. Eu, felizmente, não, nem tenho soluções ou indicações a dar. No meu egoísmo profundo, que tem toda a razão de ser depois de anos a falar e a escrever para coisa nenhuma, posso apenas dizer que não sabem, estes jovens rápidos digitais, o que perdem: mundos riquíssimos internos que podiam ser seus e outros ainda que podiam também conhecer através dos outros. E perdem ainda mais: a natureza, o pensamento, a meditação, a beleza, a harmonia, as essências, o dom da palavra... E nada se pode fazer. Provavelmente uma minoria, muito minoria mesmo, numa geração futura, escapar-se-á destes modos de estar "à beira do abismo ligado à corrente eléctrica" será ela, provavelmente, que terá de escrever e falar das consequências desse modo de vida e não gostaria de estar no lugar deles por ser extremamente cansativo explicar o óbvio a pessoas que nem o óbvio apreendem. Ao contrário do que possa parecer, não me sinto "velha" por não acompanhar tudo o que aparece de novo na tecnologia. Qualquer pessoa normal, às tantas, e com esta aceleração, troca o passo, tropeça e perde o ritmo, e isso vai acontecer a qualquer um destes jovens que são tão promissores por tanto estarem ligados à corrente. Um pouco como os nossos pais que já não entenderam nada de computadores e nunca tiveram de cartões de multibanco. Também a estes jovens virá o tempo em que o telemóvel de última geração que agora possuem seja uma recordação longínqua sem que entendam o telemóvel da sua velhice ou o chip que alguns jovens trazem incorporados numa sobrancelha onde dantes se colocavam um piercing. Não estou preocupada com isso, nem com as consequências disso. A humanidade é maior e vacinada e lá sabe o que faz (ou não sabe, como aconteceu com humanidades antecedentes). Se andasse aqui para salvar almas ou pessoas ou partes de pessoas ter-me-iam sido dados dons nesse sentido, coisa que não aconteceu. A única coisa que posso fazer é dizer: "Que pena, não sabem o que perdem". Mas o mesmo já digo dos meus vizinhos de baixo que não pegam num livro (dizem que os livros só trazem pó) nem têm um pensamento que vá mais longe do que a novela ou o futebol, o que é uma pena. O século XX apregoou a educação para todos. É verdade que os meus vizinhos de baixo sabem ler e escrever ao contrário dos seus pais, mas de pouco ou nada lhes serviu a não ser para irem às compras, lerem o rótulos ou deitarem contas à vida. É verdade que esta juventude tem a informação que quer e lhe apetece se tocar nos aparelhos. De resto, falta-lhes tudo. Quando os males sociais são endógenos não há artifício que os valham. As grandes questões humanas, por seu lado, continuam vivas e à procura de resposta. O que é uma esperança. E uma maçada. E dão muito trabalho. Não são fáceis. Mas são deliciosas.

O principal



O feto volta-se para a luz
Nada na natureza canta igual
Se pela estrada encontras o mesmo
Se te voltas ou não, é o principal.

(Cynthia Guimarães Taveira)

quinta-feira, 28 de novembro de 2019

O lamaçal


A diferença entre a Iniciação e o bullying, é que na primeira, aprende-se, no segundo não. O segundo é, aliás uma palavra inglesa, denota uma certa forma de estar no mundo. Denota a contra-iniciação. Passando por essas duas acções facilmente se vê a diferença. Da primeira sai-se mais inteiro, da segunda sai-se todo partido, até fisicamente, se for caso disso. A reminiscência platónica é muito mais do que a lembrança do mundo das essências. É uma grande mistura entre aquilo que já se sabe de alguma forma,  aquilo que se desenvolveu ou expandiu dentro de nós e aquilo que no imediato se apreende, se conhece e se expande. É um conjunto de três tempos, o eterno, o passado e o presente, que juntos cinzelam o futuro. A providência é a chave desse movimento.
Os intelectuais que não conhecem a natureza dos textos são aqueles que mais tarde se filiam em partidos e religiões ou aqueles que partem para o texto com essas filiações já embutidas. A natureza dos textos está-lhes vedada. Numa ordem tradicional estariam sempre a varrer o chão e a fazer contas à maior ou menor distância que estavam os seus gestos em relação às ideias pré-concebidas. A criação está-lhes vedada.  A iniciação também. O lamaçal está instalado e cada um varre a lama para cima do próximo que, por sua vez, faz o mesmo aos próximos. Eis o panorama. As vistas panorâmicas têm esse efeito de se poder ver o detalhe mimético das acções.
Nem a erudição nem a ilusão de poder são meios para o que quer que seja. Apenas a visão que atravessa as fronteiras do corpo consegue fazer exaltar o perfume da verdade. A humildade que apregoam é o embuste com que se disfarçam estes varredores de lama. Os que se dizem humildes ou amar a humildade, nunca o são verdadeiramente, e os que sabem, de facto, quem são só são humildes relativamente aquilo que são e se forem mais do que isso, terão uma relação de equivalência com aquilo que são.