quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Pítia e a estrela


Pítia e a estrela

Que há de tão impreciso nos teus passos que faz as flores fixas na beira do caminho oscilarem? Que há que não sei nem adivinho, essas artes de sol-posto que é desta praia e só desta praia de Portugal sem que outra haja?  Que há que calas e não dizes e nem expressas, sequer, no fundo do teu olhar? Que há que não sentes sem primeiro adivinhar?
Há o mar imenso, imenso dentro do teu olhar, dentro e fora de ti... que altíssimo te assiste nessas cores oscilantes, nessas nobres passagens por vidas breves? Que silêncio é esse de fragâncias e só fragâncias que o preenchem?
Por onde escutas, nessa noite, estrela a estrela, por ti passando... por onde vais, universo a universo por ti entrando?
Secretos tempos sem tempo... sucedendo-se no tempo rico. No tempo rico feito demais, elaborado de mais com avesso e frente tornando-te pítia por Cronos raptada e só por ele amada.
Que desenrolo é esse dessa imensidão de encontros predispostos antes de tempo? De que te falam quando te falam do que vai ser, do que pode acontecer... porque não te surpreendes já com esses passos do tempo que vem de fora e do além? Porque não estremeces já com o que esperas.. por esperares?
Que vozes são essas, donde vêm, para onde vão? E porque lhes interessa o tecido que vais tecendo se nus andam e sempre andarão? Que sei eu de ti, a não ser que vives para além de todo o artificio de tempos por mãos humanas tecidos, tão facilmente diluídos, quando o sopro verdadeiro em ti pulsa e em ti age na imensidão infinita desse azul feito de todos os azuis que te surpreendeu o ser e te surpreendeu por o seres? Como dizer que a estrela navegou no céu passando por ti primeiro?

(Cynthia Guimarães Taveira)

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

As rosas, as cruzes e a luz




 
- A senhora aprecia Camões?

- Como não? O nosso grande poeta. O nosso pai da língua! O nosso fazedor da “Bíblia” nacional!

- E dizei-me, a senhora, de que lado está? Das cativas, Leonores e ademais amadas pelo poeta, ou do lado do pobre poeta, que sem olho ficou, nas suas desventuras?

- De que lado? Existem lados? Olha-me com que olhos afinal, como personagem da obra Camoniana, como o poeta, ou como aquela cuja compreensão toca as esferas e a luz vista por Vasco da Gama (em imaginação, sim, em vera imaginação... )?

- Minha senhora, defina-se, ou ama ou é amada, ou é o poeta ou é a musa, ambos nunca, não há leitores ausentes, não me venha com a história da luz outra vez, ela não é própria de uma senhora, apenas de um homem da envergadura de Gama.

- Compreendo o que diz... são as chamadas dádivas legítimas. Pois se é dado a um homem tal presente dos céus, pode ser escrito e cantado em poemas, pois se ao invés, é dado a uma mulher, será fruto da ilusão, mera especulação da alma, sugestão de tais leituras... compreendo o seu ponto de vista, que é apenas um entre tantos.

- A senhora aprecia Pessoa?

- Como não? O nosso grande poeta. O pai da consciência da nossa alma! O fazedor de seres a haver!

- E dizei-me, senhora, de que lado está? Da fragmentação caótica de que foi alvo o poeta ou dessa unificação tentada que, aparentemente, para leitores desprevenidos, nunca o chegou a ser?

- De que lado? Existem Lados? Olha-me com que olhos, afinal, como personagem fictícia da obra de Pessoa, ou como aquela que a todos entende depois de adquiridos os olhos de luz (em imaginação, sim, em vera imaginação...)?

- Minha senhora, defina-se, ou é uma ou é várias, ou é o poeta que a todos assiste ou é todos a que ninguém assiste, e não me venha com essa história dos olhos de luz... o tempo das deusas acabou... Só um cego, um louco não vê que Fernando Pessoa morreu templário! Templário está a ouvir?

- Compreendo o que diz, se a rosa crucificada for um homem, então pode ser escrita e cantada em poemas, mas se ao invés, é dada a uma mulher tal crucificação na cruz heteronímica, será mera sugestão, colagem a um poeta, carências afectivas, histerismos vários, compreendo o seu ponto de vista, mas é um entre vários... nunca fui tão incomodada por ser mulher.

- Idiota, você é uma idiota: não vê que está tudo, mas tudo na sua cabeça? Mulher louca! Louca da casa, insubmissa, ignóbil, ignorante! Você não sabe nada, não entendeu nada. Você não é nada porque não se define... faça o favor de se posicionar perante as obras como gente grande! Cresça de uma vez!

- E o senhor? Como se define?

- Evidentemente que sou Camões e que sou Templário, sou Fernando Pessoa Unificado.

- Em imaginação?
 
(Cynthia Guimarães Taveira)

sábado, 14 de fevereiro de 2015

Vim de fora...




Vim de fora, quando ainda não havia livros nem citações e nos conhecíamos só por nos conhecer. Não havia a carga do saber e havia tudo por saber. Vim de fora, de um outro círculo do céu, longe destes homens talhados a foice de ideias... há, lembro-me, não havia ideias sequer, havia a procura dela, da grande ideia e o que sorríamos nesse procurar. Saudade? Ah, mas toda, toda sem igual. Nada disso outra vez encontrado... se andamos tristes? Oh, se andamos, tão longe desses passeios quase sem nexo, nem amarguras nem desventuras. Quando tudo se torna uma prova, nada é provado e nada é provável também... nem as boas notícias de te encontrar assim, de novo, longe de tudo isto, sem livros nem citações, nem emblemas que nos ponham em sentido. Se havia dantes, um dantes todo inteiro, sem ontem nem depois, nem amanhã que o volvesse do milagre desse momento? Oh, se havia e há esse “dantes” em que não era necessário crer para se ser... tudo acontecia no acaso do acaso, no desenrolar livre do tempo, sem a mácula do ex-libris, sem a assinatura do artista, sem a autenticação da obra, sem o timbre da exactidão das crenças. Se guardo todos esses de “fora de onde vim”, e tu vieste também? Oh se guardo, na esfera dos ausentes, na melancolia dos pacientes e, sobretudo, na imensidão dessas paisagens que nos obrigavam a cruzar o olhar e a torná-lo num só. Se te lembro, assim, sem sombra de uma aguarela terrestre que te escondesse do vero sentido da larga visão, da sapiência dos fortes, do amor dos intocáveis, do abraço tão forte que era um laço... não, não te lembro.  Só te sei assim. Só te quero assim, já sem memória das palavras que escrevi e nunca deveria ter escrito para não sobrecarregar o teu olhar, nas promessas que elas são, nas formas que tomam, para não te tornar pesado como o mundo, nas grelhas dele e equilíbrios estratégicos que são só a maldição de quem nunca esteve de fora porque nunca de lá veio... se te lembro assim? Deixo o sorriso triste descarnado e aguardo, como quem não ousa procurar aquilo que não se procura, nem se constrói, nem se talha a foice de ideias, apenas surge, nessa curva da estrada, sem nevoeiro, sem nada, só possível de nascer de novo por não haver memória antiga, sequer, que te assista, quando te vir, em novo berço, em nova hora, em pleno Inverno e esquecido dele.

 

(Cynthia Guimarães Taveira)


sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

A superfície das águas...



 
Há uns tempos dei boleia a um rapazinho desconhecido. Dizia-me ele, a meio do percurso de poucos quilómetros, sermos nós um povo afável, generoso e de bom coração. Eu sei, pensei na altura de mim para mim... e que eramos comodistas... eu sei, pensei...  Há uns tempos, conheci um pintor de paredes. O pai dele já era pintor e o avô também... ela era pintor porque sim... seríamos um povo com raízes. Eu sei, pensei de mim para mim... Há uns tempos, dizia-me uma “caixa” de supermercado que como isto estava um dia teríamos medo de viver. Eu sei, pensei de mim para mim. Há uns tempos, dizia-me uma rapariga de vinte e poucos anos nada perceber das fichas que o filho levava para casa da segunda classe. Esquecera tudo. Eu sei, pensei... há uns tempos dizia-me uma senhora na bomba de gasolina... que se devia respeitar toda a gente e que desde que tivéssemos para comer e pudéssemos andar de cara descoberta, tudo andava... eu sei, e pensei... Há uns tempos ouvia os pescadores olhando o mar, dizendo que “eles” eram todos uns ladrões... eu sei. 

E pensei que estamos sempre em trabalho de campo a sentir o “pulso” às gentes... e que há tantas, tantas gentes... desde os que, vivendo na opacidade da monotonia da manutenção do mundo são levados pelos líderes embriagados de poder sobre os que vivem na opacidade da monotonia da manutenção do mundo, passando pelos filósofos mais inteligentes e mais estudiosos, mais espirituais, menos espirituais, e até àqueles que deram uma volta inteira na curvatura dos abismos do pensamento sem entranhas nem o bater do coração... e há artistas incomodados outros acomodados... e os desligados, também.
Lembrei-me de Teixeira de Pascoaes falando da imensidão de gentes que surgiam como fantasmas... e pensei que só um morto em vida os podia ver e reconhecer como tal... qualquer coisa de cadavérico no turbilhão do mundo, e no entanto, qualquer coisa de imensamente mais...

A quem foi dada a ver a luz, e com ela o sentido da vida, por vezes, é dada uma vida sem sentido, de maneira a que a própria vida seja ela um debate eterno entre as duas: ou ganha o sentido da vida, ou ganha a vida sem sentido... ironias divinas...

Ainda navegando nestes passos fronteiriços entre a vida ausente que existe na contemplação, quase parda, quase indefinida... movem-se na superfície das ondas pequenas brisas... são elas que dão alento e fazem reluzir, de modo intermitente, esse brilho do sol sobre o mar.  Seremos nós capazes dessa sensibilidade aquática às brisas em forma de pessoas que por nós passam? Seremos nós capazes de quebrar a casca dura que esta civilização produziu  e de sentir essas pequenas brisas de Elias?
Se tudo for, como à primeira vista parece ser, uma eterna dança entre dois polos extremos: a sobrevivência e o poder... que nos é dado do Espírito afinal?

Para bem da nação tenho assistido ao autoconvencimento e às múltiplas tentativas de persuasão dos autoconvencidos de que uma ideia, política ou religiosa ou ambas são, sem dúvida, sem sombra dela, o germe da salvação do mundo. É assim que têm nascido os mais variados exércitos ao ponto de, por vezes, o mundo me parecer mais uma arena do que qualquer outra coisa... mas, ao sairmos dessa arena, na qual há alarido imenso e gritos, e públicos que a sustentam... ao sair, dessa arena, que vemos à nossa volta?
Brisas que passam, algumas, impressões, vagas outras, fantasmas, alguns... dúvidas cada vez mais e crescentes sobre o verdadeiro papel da arena a não ser aquele que nos diz não servir para mais nada senão ir alimentando esse sentido da vida, ainda que a vida em si não tenha sentido... ou talvez sejam necessárias essas guerras para ir aprendendo o óbvio, que é o irmos arrancando, sempre mais e mais, as armaduras-carapaças desumanas que tanto usamos em combate em nome da humanidade.
Que nos restará um dia senão a consciência de que talvez a arena, essas guerras sem fim, de persuasão, de autoconvencimento não sejam apenas armaduras da subtileza humana que é capaz de sentir a brisa, e que uma vez, livres dessa roupagem essa brisa se torna assertiva e derradeira, como a evidência de um trovão? Desculpem se sonhei um pouco...

(Cynthia Guimarães Taveira)

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Há anjos...


(De nada interessa ser louco ou são. O que interessa é o poema que sai.)

Há anjos que não deixam os poetas morrer
E lhe fazem respiração alma a alma
E lhes endireitam as hastes
E lhes redobram as asas
E os ensimesmam de forma tão absoluta
Em arqueologia ainda mais funda
que a verdadeira...
Há anjos que não os deixam morrer
E, no intervalo das multidões sôfregas
Que invadem as florestas sagradas
Nesse espaço de ninguém
Recuperam a flor pisada
Desembocam em cascata
Na verdade que a vida tem
Há anjos criados de sonhos e tormentos
Envoltos nas brumas irrevogáveis
Protegendo o divino navegar
Das sombras mais densas dos abismos
Há anjos que não param, nem para dormir
Ao som das palavras dos que amam
Creem ser elas a razão do seu próprio existir
Há anjos feitos de estrelas
Cujo toque mágico é sincero
Por saberem e terem por verdadeiro
Que a cada poeta salvo
É dado um anjo em tom mais alvo...

(Cynthia Guimarães Taveira)

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Longe, tão longe...





Sim, talvez fosse o único nicho do mundo onde era possível ser exuberante e discreto todo o ano. E onde o dentro correspondia ao que estava cá fora num sentido irónico e ligeiramente melancólico... longe, hoje, essa Veneza, essa outra que apenas deixou um rasto de sonho atrás de si. Longe, tão longe das vaidades genuínas e das máscaras tão absurdamente verdadeiras. Longe, essa Veneza do hoje sem arte... percorro as galerias na rua e procuro, em vão, esse vulto d’outrora em que se adivinhava o pormenor, o detalhe e a atenção da máscara... tanto que não era máscara coisa nenhuma mas a realidade última da expressão do artista, andando naturalmente com os chapéus que sabiam vindos da sua própria cabeça, prolongamento deles... nada mascarado, afinal, senão de si próprio... com dias mais discretos, tão discretos que se confundia a máscara com a própria sombra e outros, tão radiantes e luminosos que se confundiam com a própria fonte de luz... longe, tão longe essa Veneza, tão rara de encontrar numa esquina da rua que só tem sentido com ela, e onde, a dignidade da vénia nada mais é do que uma imensa reverência pela arte.


(Cynthia Guimarães Taveira)

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Há já algum tempo que não te via...



(dedicado a...  àquele que sabe quando ler este poema)

Havia na tua presença
Toda a recordação viva
De nunca ter partido
Havia em todo o teu glamour
A ciência exacta da arte
Havia toda a máscara
Que te apetecia ter
E por dentro toda a eternidade
Donde te reconhecia
Havia o grande transbordar
Do mais que nós por acontecer
Havia a recordação de um lado
E o não acreditar nela, pelo outro
Havia a certeza intensa
Da mesma natureza e do mesmo instante
Havia a compreensão mútua
De quem não cessa o fogo errante
Havia o fado, a sorte e o destino...
A tragédia, o dom, a alma
e a comédia
Havia a compreensão lenta
Naquilo que era vero diálogo
Havia um espírito reconhecido
E a mágoa desmedida do impossível
Havia a dádiva do nascer do sol
Entregue em embrulho
de sol posto
Havia a recusa de toda a morte
Havia o lugar para além do estado
Havia a gratidão
A loucura como brandura
A ciência exacta dos aflitos
A nobre e eterna guerra
De quem acorda na paz dos anjos
Havia esse pairar que recordavas
Por gestos, tantos e de tanto espanto
Havia o elo que faltava
No desejo absoluto de um novo encanto
Eras o que sempre foste nas Eras
Atravessando e saltando as esferas
Pairavas sem dúvidas ou tormentos
Passei por ti e lá estavas
Só recordei contigo
O principio, o meio e o fim do tempo
Nada de que não te rias quando te digo
Nada que me importe o teu rir
por te saber de cor há tanto tempo
Nem há alegria ou lamento
Apenas a certa ideia que detenho
Como herança que não estrago
Nem me arrependo
Sei-te como se sabe um Mestre
Para além de ti, vejo as montanhas
Transparente e sereno e em recato
no recanto da memória do meu afecto.

(Cynthia Guimarães Taveira)