sábado, 29 de outubro de 2016
Sobre a leitura de António Telmo
António Telmo, um místico intuitivo e dedutivo pode se facilmente incompreendido e dificilmente compreendido. Isso advém do Espírito de quem o lê. Se há como que um Espírito Científico a presidir à sua leitura e maturação ele será facilmente incompreendido. Se há um Espírito mais Místico e Intuitivo a presidir à sua leitura e maturação acompanhada de entrega, então, será dificilmente compreendido. Em todos os casos não é um filósofo fácil porque obriga a um constante salto entre o raciocínio e a intuição. Ora sendo a intuição algo de pessoal, é necessário que duas almas se encontrem nessa intuição única. É daí que vem a dificuldade pois a sintonia entre o autor e o leitor exige, de algum modo, uma iniciação (que é tanto pessoal como universal). Para um Espírito Científico é relativamente fácil fantasiar, pois ao não ser admitida a imaginação como algo que se passa num mundo imaginal (tal como lhe chamou Corbin) e que esse mundo é todo ele floresta a atravessar como forma de conhecimento da "composição da alma", ao não ser admitida a imaginação, dizia, como coisa real, toda e qualquer tentativa de imitação da imaginação cai vertiginosamente (sem nunca ter ascendido, note-se), no reino da fantasia (parte animalesca da imaginação) e isto porque, no seu âmago, tal Espírito Científico, visa a anulação de toda e qualquer forma de ilusão, como mal, como acidente, como queda. Nesse tipo de Espírito há como que uma necessidade de uma luz transcendente sem que, no fundo, se acredite nela pois até ela vive no reino da ilusão. Estes Espíritos Científicos, são, normalmente dotados de "higiene mental" e, quando são Pessoanos (se é que há Pessoanos...), fixam-se na determinação com a qual o poeta fez a divisão entre "um Espírito ou temperamento Racional e um Espírito ou temperamento Místico", dizendo o poeta optar pelo primeiro. Não deixa de ser evidente, porém, que ainda esteja por explicar racionalmente como é que o próprio poeta parece ter caído, logo à nascença, dentro do caldeirão da imaginação, tornando-se um Obélix grandioso na criatividade e no pensamento, ao ponto de, no mundo, não existir pessoa que se equipara a Pessoa. Creio que para que tal explicação seja possível seja necessário primeiro acreditar em caldeirões, o que já de si denota um Espírito Místico pois as fórmulas de Merlin têm segredos e dão poderes sobrenaturais o que, à partida, é negado pelo Espírito Científico. O privilégio dado à higiene, e citando de cor uma autor que desconheço, é dado por aquele que a prefere à bondade... Um Espírito Científico não joga aos dados como Pessoa jogou quando jogou a obra toda num baú e a lançou nas correntes do destino. Isso denota uma crença absoluta na sorte, ou seja, no transcendente. E é graças a essa crença de Pessoa que ele é hoje lido por Espíritos diversos. Creio, por isso, que a obra de António Telmo é de extrema importância para quem se interessa pela alma portuguesa, porque até Cristo, andou 30 anos a aprender, e é a alma que aprende... O Espírito Português é a recompensa do trabalho penoso da alma. Inverter o processo é cair na mais básica ditadura e na mais básica urdidura do destino (que nunca é fácil, sorridente e saltitante) que é da de crermos que não há trabalho nenhum pela frente a não ser o ritual. Quando assim é, entra-se na mais frustrante das viagens que é aquela em que até a "saída" ou "escape" do ritual é um ritual ele mesmo, ou seja, a negação da criatividade. A negação do Jardim e nele, toda a ciência não é um fim em si mesma, mas sim, um pretexto para criar. Quando é um fim em si mesma ainda o jardim não existe, é mero esquema no papel.
(Cynthia Guimarães Taveira)
quarta-feira, 3 de agosto de 2016
O moinho e a nau
Encontrei as mãos e as vozes
num moinho que nem procurei
e no brilho das espadas a sorte
que em toda a arte neguei
Ergui a flor do mato
como a princesa das flores
e o profeta de corpo estranho
estava na minha passagem...
Nesta nau de meia lua
cabe tudo o o que é
remos fundos que são raízes
que de tão fixas vão mais além
A meio gentes sobem e descem
a meio pesam ou não
a meio dormem a ver as estrelas
a meio gritam com o trovão
A meio choram com a chuva
a meio a rirem se faz sol
a meio são vento que meio é
E se a meio há terra, não há solidão
E lá por cima velas brancas
como sonhos a preencher
e mais acima ainda
um mastro d'ouro que tudo vê
Encontrei as mãos e as vozes
num moinho que rodava
e no brilho do mar toda a sorte
que por ser arte já não negava
E a História ficou nos livros
e no sangue da memória....
e lá no alto, no mastro d'ouro
outro sol só viu quem o viu bem
troca o passo a quem o nega
e não existe se por certo alguém o tem
(Cynthia Guimarães Taveira)
sexta-feira, 29 de julho de 2016
Essa esplanada tem vista para o mar? Todas têm...
Todas as palavras são o silencio
do que vi. Vejo essas cadeiras espalhadas e nós sentados nelas, bebendo um
tónico ou não, de perna cruzada, essa esplanada de gente que vem e se senta,
que vem e que trás mais alguém que se levanta e sai, que se estende pela tarde
na esperança de uma companhia morna. Vejo esse sentido de estar a olhar como se
nele se procurasse a verdade no rosto deste e daquele. Vejo a alma calada que a
todos vê, metida por dentro do silêncio que não retive.
Procuram saber todos os rostos
que se cruzam, nesse passeio de fim de tarde tendo o mar como plenitude e os
outros sempre por ansiedade. De se saber quem é, de se saber o que pensa, o que
diz ou tem a dizer. Vejo multidões de gentes que tudo querem saber. Do outro,
nesses passeios diversos da cidade, da praia, do campo que já pouco campo se
sente assim com tanta gente que por ele passa.
E em mim, rostos param também, atentos
aos meus olhos perguntando-me sem perguntar: quem é? O quê?
Todos se envolvem nessa explanada,
nessa conversa de nada mas que tudo diz das crenças e dos dias onde tudo se
passa onde tudo se comenta e se fala deste e daquele e da curiosidade que neles
há. Nas perguntas dos pormenores dos trabalhos, onde estão, onde ficaram, para
onde vão o que têm ou o que não têm, nos comentários sobre o estado do tempo
que é sempre toda a gente embutida nele.
E olhamo-nos da mesma maneira que
nos perguntamos porquê, mas se fizéssemos a pergunta “porquê” estremeceríamos
de medo e então camuflamos o “porquê” nos outros e eles são todos os “porquês”
que não ousamos perguntar porque a filosofia custa sempre uma lágrima qualquer
e os outros talvez nos deem a possibilidade de um sorriso.
Dói perguntar porque a dúvida
suspende-nos no ar quando é verdadeira. Porque é um primeiro voo de um pássaro…
Ah! Tantas caras e tantos olhos e
tantas bocas e tantas perguntas sobre elas que são sempre as mesmas. As mesmas
que trazemos do berço à cova, as mesmas esplanadas no Verão, as mesmas mesas de
café no Inverno, os mesmos comentários, as mesmas horas sem uma rosa que nos
trespasse.
E juntam-se alguns ao meu redor
esperando um outro “porquê”, que seja diferente e que os tire dessas horas
arrastadas das mesmas perguntas. E nada sei dizer porque só sei ver e de tanto
ver apenas escrever. E tudo o que é sério só encontra lugar no papel porque as
palavras ditas em voz alta fazem barulho demais no sossego que a alma tem se só
lê. Porque todas as palavras ditas em voz alta soam a teatro e a cenário e a
voz é como se nunca fosse tão perfeita como aquela que lê para dentro da nossa
alma. É como se a manifestação da voz soasse a inconsistência pela vibração
cheia de atrito no ar, e que a voz de dentro, imanente à presença
atordoante, soasse de cristal, puro som, no nosso cosmos interno.
Há nessa voz de dentro que nem se
ouve quase a ausência de palavra. Como se essa fosse o traje do sentido. E assim,
todos os sentidos explodem por dentro, nessa voz sem palavras que tudo assimila
e ecoa na simultaneidade da nossa presença.
E juntam-se a meu redor, vêm em
busca da “conversa interessante”, que não sei ter, em busca da distracção das miudezas
do mundo, em busca de uma grandeza inesperada, e só lhes sei dizer que tudo o
que escrevi foi esse silencio que retive. E que passei pelo mundo invisível, e
que assim eles também, invisíveis uns aos outros, por não saberem que o amor,
quando encontrado é só sentido absoluto das coisas, sem palavras que o valham
ou leituras que o compensem.
(Cynthia Guimarães Taveira)
Do ver as estrelas até ao “até ver estrelas”
O sistema económico em que
estamos absortos, para não dizer, submersos, prende-se com uma série de
defeitos, muitos deles ligados à má relação que se tem com o tempo.
René Guénon sexualizou a questão
do espaço e do tempo, concedendo o primeiro ao masculino, porque os homens
caçavam no espaço e construíam no espaço e o segundo ao feminino porque as
mulheres geravam no tempo. A questão da sexualização quando ultrapassa a
fronteira do símbolo pode ter como consequência exactamente o mesmo erro que
pode ocorrer quando se lê um texto considerado sagrado: a leitura literal do
texto sem que ocorra profundidade qualquer nesse acto de ler e mesmo de
pluralidade de interpretações. A palavra, entre as suas múltiplas facetas é
também simbólica. Exactamente como qualquer símbolo, quando reduzida a um só
significado perde a sua mobilidade e, ao perdê-la, perde a sua capacidade de
ser coisa viva.
Temos vindo a ver ressurgir um
certo gosto no paganismo, produto, em grande parte, de um crescente desejo de
se regressar “à terra”, “às origens”.
Perfeitamente compreensível num mundo que construímos cada vez mais artificial.
Tais movimentos são vistos como um “ai Jesus” pelas religiões monoteístas que
assim assistem perplexos (e às vezes em
pânico) áquilo que consideram, por um lado uma “involução”, na base da total
crença que a conquista de um só Deus é uma conquista benigna para a humanidade
e, por outro, porque tais movimentos seriam a entrada no inconsciente ou
subconsciente das religiões coisa que as mesmas optaram, na maioria das vezes, por
não falar delas (quantas vezes apelidados de demoníacas) ou por outro ficando
tais áreas reservadas a uma elite, secreta mas convertida a uma instituição (veja-se
o caso de Dante e do Catolicismo).
A perpétua queda do homem no
materialismo foi acompanhada pela completa inaptidão para simbolizar.
A má relação com o tempo, em
termos simbólicos terá, para uma cabeça simbólica, relação com a má relação com
a mulher/planeta terra/mãe natureza.
Antigamente, homens e mulheres
(porque não creio que vendassem as mulheres) observavam as estrelas. O passar
delas e o seu percurso pelo céu. Construíam, em seguida, autênticos
observatórios astronómicos que tentavam estar em sintonia com o movimento
temporal dos astros e corpos celestes. A noção e o conhecimento do tempo
pareciam tão fundamentais que se construía em redor de tal coordenada terreste.
Hoje o homem, tal como afirmou
Mircea Eliade, foge para a frente. Tem medo do tempo. O tempo é o grande
devorador dos homens. O problema é que, nessa fuga, os gestos dos homens
provocam a própria aceleração do tempo e consequentemente a contração do
espaço. O tempo passa mais depressa quando o espaço é contraído.
Dizem que houve um dilúvio e que
a espécie humana esteve em perigo. Se isso é verdade, e se a mulher é aquela
que transporta e gera a espécie humana dentro do seu próprio ventre, então ela
veio a adquirir, em termos simbólicos um excesso de zelo traduzido nos inúmeros
tabus sociais de que foi alvo ao longo da história e ao longo dos monoteísmos.
Ainda não ultrapassamos o trauma do dilúvio. Aliás, toda a nossa cultura tem
como base esse acontecimento. A reprodução em massa da espécie humana é um
sintoma de um trauma colectivo que se disseminou por formas religiosas traumáticas
elas mesma. A figura feminina tem sido alvo de excesso de zelo. Sob as mais
diversas formas, positivas e negativas, mas em excesso. Essa relação foi tendo importância
no modo como se percecionava o próprio tempo. E hoje não entendemos o tempo da
mesma maneira que Freud dizia não entender as mulheres…
A economia não pode ser
sustentável enquanto no nosso mais profundo fundo traumático não esquecermos,
de vez, o dilúvio. Enquanto no nosso fundo mais arcaico reinar a ideia de que
ter um filho é um dever, um dever social, uma prova de amor, uma exigência da família
e dos vizinhos, um desejo animal de um qualquer relógio biológico que se impõe à
mulher como se esta fosse um animal com períodos de cio e não um acto simplesmente
natural, enquanto não se entender que são os próprios gestos humanos que geram
o tempo e a percepção que temos dele iremos sempre entrar em guerras dualistas
pelo controlo do planeta.
Antigamente procurava-se andar de
acordo com os ritmos cósmicos. Onde é que isso já lá vai. Começa logo pelo
horário de trabalho e por relógios que não se adaptam à estrela do nosso
sistema solar. De Inverno levantamo-nos de noite e recolhemo-nos quase de
madrugada. O desfasamento com o tempo do próprio universo produz um desfasamento
do homem consigo próprio. As consequências estão à vista. Pior que o dilúvio
foi o trauma dele.
As populações ligadas à
agricultura ou à recoleção tinham ainda alguma relação com o tempo. Nós
perdemo-la por completo. E como a perdemos a única maneira de a recuperar será
por via intelectual uma vez que já ninguém tem uma relação com o tempo natural.
Intelectualmente talvez consigamos
lá chegar e, se formos capazes, isso implica a alteração total da relação que
se tem tanto da sexualidade como com aquela que se tem com o tempo. Xiva, o
grande dançarino cósmico na sua dança erótica sabe que a música se desenrola no
tempo. O seu gesto no espaço é uma consequência do modo como percepciona o
tempo. O seu gesto provoca o tempo e o espaço em gesto.
A economia tem a ver com isto. A
economia é um termo que quer dizer “governo da casa”. Neste momento até vimos estrelas com os
embates. O que é muito diferente do que ficar a ver as estrelas.
(Cynthia Guimarães Taveira)
segunda-feira, 18 de julho de 2016
A verdade e a doutrina
Dalila Pereira Da Costa é uma mistica portuguesa que escreveu livros. Como todas as figuras de verdadeiro destaque nacional (e não aquelas que aparecem recorrentemente na TV ou nos jornais "culturais" ou nas secções culturais "anichadas" dos jornais gerais e que de "nichos" culturais nada têm, antes pelo contrário, falando sempre da mesma "espécie" de cultura que alterna entre os nomes sabidos de cor e com um prestígio de décadas e com figuras da "moda" porque a cultura está hoje entrelaçada com a moda de tal forma que quase não se distingue, às vezes... Dalila Pereira da Costa, dizia, é uma figura de destaque nacional e, como todas elas, desconhecida. Esta verdade é inevitável para quem leu a sua obra, e que são muitíssimo poucos. Mística, poetisa, visionária, ensaísta que coloca Eduardo Lourenço num cantinho no qual pouca ou nenhuma luz brilha, foi, como é usual neste país, abarbatata por leituras tendenciosas querendo colocá-la, por vezes, num altar da Igreja Católica com umas flores por baixo. O esforço foi quase inútil pois na sua obra vigoram bastantes detalhes, para não dizer imensos, de experiências e observações que contrariam as doutrinas da referida instituição.
Possuindo um mundo interior vasto e rico a sua capacidade de análise feita a partir de vivências pessoais (intransmissíveis por serem isso mesmo, pessoais), paira acima, com grande frequência, de qualquer ideia pré-estabelecida em e com vigor numa qualquer carta fundamental de princípios.
Um dos pontos em que isso se revela está no seu relato de vidas passadas feito em consciência. Sem margem para dúvida, Dalila relata-nos, por exemplo, o Porto de outras épocas, com outra paisagem e outro sentido de tempo. Os actos imaginários, são fantasiosos para qualquer mente positiva e formatada da época. Os actos imaginários, para outras sensibilidades, contêm em si, toda a promessa de experiência e seu encontro com a verdade. A fantasia confunde-se com a imaginação para os primeiros e é mero infantilismo para os segundos.
Nesses relatos de outras vidas nos quais o véu do tempo é levantado, há um "distanciamento" tal como a autora escreve, face ao próprio tempo como se essa fosse uma condição necessária para que um outro tempo fosse visitado. É na distância de nós mesmos que tudo nos é dado ou apresentado.
A re-encarnação, aceite no oriente, torna-se motivo de reflexão.
Deve tornar-se motivo de reflexão. Não pelo motivo enganador da chamada "evolução espiritual" tão em vigor agora como se se tratasse de uma carta de condução com pontos, mas motivo de reflexão absolutamente materialista, com consequências materiais. Se voltarmos a esta terra voltamos à própria matéria que aqui deixámos. Tão simples quanto isto. Se deixarmos uma casa em ruínas é à casa em ruínas que voltamos. É o chamado "consciente colectivo" de que ninguém fala tão distraídos que andamos com o inconsciente e por isso mesmo com a inconsciência ou pura fantasia.
Há uma casa de "férias prolongadas" possíveis a que vulgarmente se chama céu. E há aquela de uso frequente que é esta. Se é um jogo de espelhos isso fica para as teologias que são sempre matérias vagas em vagas navegando nas vagas do vento.
A visão materialista das religiões e das políticas diz-nos "aí de nós, que planeta vamos dar à nossa descendência!" e no fundo não se rala. Mas e se a descendência, mais tarde ou mais cedo formos nós? Nós.
E se nós por mero capricho do destino voltássemos com a consciência exacta de que somos nós? Talvez já se perceba que o dilúvio tenha sido um mar de lágrimas e que o próximo seja um mar de fogo. O fogo é a consciência. Com tudo o que ela pode trazer. A memória, inclusive. É esta a questão fundamental que Dalila Pereira da Costa levanta quando fala de outras vidas. E até trememos.
(Cynthia Guimarães Taveira)
Possuindo um mundo interior vasto e rico a sua capacidade de análise feita a partir de vivências pessoais (intransmissíveis por serem isso mesmo, pessoais), paira acima, com grande frequência, de qualquer ideia pré-estabelecida em e com vigor numa qualquer carta fundamental de princípios.
Um dos pontos em que isso se revela está no seu relato de vidas passadas feito em consciência. Sem margem para dúvida, Dalila relata-nos, por exemplo, o Porto de outras épocas, com outra paisagem e outro sentido de tempo. Os actos imaginários, são fantasiosos para qualquer mente positiva e formatada da época. Os actos imaginários, para outras sensibilidades, contêm em si, toda a promessa de experiência e seu encontro com a verdade. A fantasia confunde-se com a imaginação para os primeiros e é mero infantilismo para os segundos.
Nesses relatos de outras vidas nos quais o véu do tempo é levantado, há um "distanciamento" tal como a autora escreve, face ao próprio tempo como se essa fosse uma condição necessária para que um outro tempo fosse visitado. É na distância de nós mesmos que tudo nos é dado ou apresentado.
A re-encarnação, aceite no oriente, torna-se motivo de reflexão.
Deve tornar-se motivo de reflexão. Não pelo motivo enganador da chamada "evolução espiritual" tão em vigor agora como se se tratasse de uma carta de condução com pontos, mas motivo de reflexão absolutamente materialista, com consequências materiais. Se voltarmos a esta terra voltamos à própria matéria que aqui deixámos. Tão simples quanto isto. Se deixarmos uma casa em ruínas é à casa em ruínas que voltamos. É o chamado "consciente colectivo" de que ninguém fala tão distraídos que andamos com o inconsciente e por isso mesmo com a inconsciência ou pura fantasia.
Há uma casa de "férias prolongadas" possíveis a que vulgarmente se chama céu. E há aquela de uso frequente que é esta. Se é um jogo de espelhos isso fica para as teologias que são sempre matérias vagas em vagas navegando nas vagas do vento.
A visão materialista das religiões e das políticas diz-nos "aí de nós, que planeta vamos dar à nossa descendência!" e no fundo não se rala. Mas e se a descendência, mais tarde ou mais cedo formos nós? Nós.
E se nós por mero capricho do destino voltássemos com a consciência exacta de que somos nós? Talvez já se perceba que o dilúvio tenha sido um mar de lágrimas e que o próximo seja um mar de fogo. O fogo é a consciência. Com tudo o que ela pode trazer. A memória, inclusive. É esta a questão fundamental que Dalila Pereira da Costa levanta quando fala de outras vidas. E até trememos.
(Cynthia Guimarães Taveira)
terça-feira, 12 de julho de 2016
A desordem inaparente da escrita
Há um provérbio judaico que diz que Deus criou o homem para
que este lhe contasse histórias. Como se toda a criação do mesmo não lhe
chegasse. Há na Criação, independentemente de esta ser queda ou não, uma ordem
que se confunde com a matemática. Conhecendo a exactidão da matemática
conhecer-se-ia a exactidão de Deus. O sustentáculo do mundo seria o número e o “jogo
de dados”, (que Einstein não diz quantos são, nem os jogos, nem os dados)
seria, para quem busca o conhecimento, o conforto da probabilidade e o leve
esvoaçar do número como símbolo. As histórias seriam a desordem aparente de um
mundo inteligente, mas fechado. Qualquer história de vida ou historieta
principal seria arquétipal, ora inserida no grande enredo ora inserida no
pequeno enredo que atravessa o drama teatral. De uma maneira ou de outra,
viveríamos confortavelmente incrustados no drama da nossa presença. A comédia
estraga tudo porque se ri do drama. A poesia invade como ondas a cidade fazendo-lhe
tremer os alicerces. A profecia encarna o demónio da sabedoria e a graça o eterno
problema do imprevisível e sobretudo da liberdade. O drama da nossa presença
permite que haja comédia, poesia e graça.
A conversa com os deuses permite-nos perceber o nosso
engano. O engano de não os sermos e o engano de os sermos. Os deuses são
demasiados humanos… porque o poder é o antónimo de ser-se humano, pois este
possuindo todos não possui nenhum.
A improbabilidade do sonho mais incongruente acontecer
coloca em causa o jogo das probabilidades. Porque qualquer pessoa entende que
não há sonhos improváveis e que a sua probabilidade de acontecer no real que se
nos apresente é uma probabilidade. O acto criativo é por isso aquela
probabilidade mais alta porque permite o improvável. Fora do acto criativo há o
aprisionamento incondicional na matemática das histórias arquétipais, ou
entendidas como tal. O “dispor” das formas que se nos apresentam e a sua
permanente reorganização é apenas o lado externo do processo criativo, porque
os deuses andam à solta para dentro e para fora de nós. A eternidade não é um
cristal, até porque frio, só e na
escuridão do cosmos não serve para mais nada a não ser para existir. E o
existencialismo é tão cansativo como a mais pura animalidade. Resume-se a uma
entropia que mais tarde ou mais cedo expira.
O pressentimento da melodia, dirá Damásio, intuitivamente,
resume a herança de luz que nos salvaguarda, não pelo acto imediato de identificação
mas pelo acto de fusão; identificação
tem o seu quê de racional e de intencional, a fusão é irracional e sem
intenção. A animalidade superior trata desta questão. O homem caminha para ser
irracional e sem intenção, só assim se funde na consciência que falta aos
animais. Só assim conhece. O leitor é o criativo por excelência:
“O leitor sabe que está consciente e sente que está em pleno
acto de conhecer, porque o subtil relato imagético, que está agora a fluir na
corrente dos seus pensamentos, manifesta o conhecimento de que o seu proto-si foi modificado por um objecto
que agora mesmo se torna saliente na sua mente. O leitor sabe que existe porque, nesta narrativa, o leitor é o
protagonista no acto de conhecer. O leitor eleva-se, transitória mas
incessantemente, acima da água do conhecimento, sob a forma de organismo sentido, imparavelmente renovado a cada novo
instante, graças a toda e qualquer
coisa que afecta a sua máquina sensorial, vinda do exterior ou recordada na
memória. O leitor sabe que existe e que está a ver esta página, porque a
história da consciência narra um personagem, - o leitor – no acto de ver […]
T.S. Elliot pode ter pensado em qualquer coisa de semelhante quando escreveu
nos Quatro Quartetos, sobre uma música ouvida “tão profundamente que nem sequer
é ouvida” e quando disse “tu és a música enquanto a música dura”. Pelo menos
deve ter pensado no momento fugidio em que um conhecimento profundo emerge –
uma união ou encarnação, tal como Eliot lhe chamou.” . (Teresa Martins Marques - Clave de sol - Chave de sombra - Memória e Inquietude em David Mourão-Ferreira, Editora Âncora, Lisboa, 2016. pag. 733)
As histórias que externamente contamos foram já escritas no
jogo de escondidas, achadas e de novo perdidas no Jardim das Delícias. As histórias
que internamente contamos estão todas por contar, situam-se na desordem
inaparente da escrita. A mesma desordem que há no movimento fluente da luz. Impossível
de agarrar e, no entanto, jorra.
(Cynthia Guimarães Taveira)
terça-feira, 14 de junho de 2016
"Querida, encollhi a língua" por Jorge Colaço
Com a devida permissão do autor, transcrevo esta excelente reflexão sobre a relação dos portugueses com a sua língua:
«Querida, encolhi a língua».
Reflexões sobre empobrecimento da língua
1.
Tornou-se lugar-comum repetir que a língua nos é uma
pátria. Não se terá ela tornado, porém, uma pátria longínqua, minguada, apenas
uma língua de terra?
Aprendemos todos que a língua portuguesa é muito rica.
Acontece que todas o são a seu modo. O que faz então a riqueza da nossa?
Em primeiro lugar, a solidez da sua formação, ancorada na
velha ordem latina, depois na energia vernacular resultante da sua territorialidade
própria, na sua história de unidade e dispersão, na sua capacidade de dar e
receber, na diversidade e ductilidade das suas capacidades expressivas.
Só uma língua forte seria capaz de dar novas vozes ao mundo,
conservando uma unidade essencial. É nesse sentido que se pode falar, e se
fala, de lusofonia: uma galáxia de particularismos lexicais, morfológicos,
sintácticos, semânticos e prosódicos, mantidos em relação por acção da força
gravitacional constante assegurada por uma gramática e um léxico comuns.
No âmbito do universo lusófono, esses particularismos, ou
variantes, não têm hoje um centro geográfico. Essa centralidade é ocupada por
um corpo histórico imarcescível: o tecido de peripécias e transformações que a
própria língua foi produzindo ao longo do seu trânsito através da
História.
Esse trânsito tem contudo um ponto de partida, um lugar
matricial, um rol de circunstâncias e condicionalismos internos que veio a
resultar no que se chama a variante europeia do português, ou o «português de
Portugal».
É este «português de Portugal» que nos preocupa e aqui nos ocupa.
Preocupam-nos os fenómenos de redução, estreitamento, afunilamento, todos eles
eufemismos de um empobrecimento, que muito transcendem a questão ortográfica,
aquela que mais emoções desperta e que a seu tempo também terá reflexos, embora
ainda não totalmente discerníveis, neste processo de empobrecimento, termo que
muitos não aceitam, invocando alguma espécie de saldo de uma contabilidade de
ganhos e perdas que em todas as épocas se repete.
2.
Também aprendemos todos que a língua se transforma e que
o uso é o grande agente dessa transformação, à qual nos habituámos — de uma
forma um pouco simplista — a chamar evolução, presos ainda à euforia e às
metáforas organicistas da ciência oitocentista. Tornámo-nos assim
condescendentes, ansiosos por corroborar, por participar nessa espécie de
progresso que a evolução passou a representar. Até nos dispusemos — e dispomos
— a antecipar e «facilitar» essa evolução, cujo desenrolar julgamos vislumbrar,
a abrir caminho à sua inevitabilidade histórica, que vemos inscrita na sua
própria natureza.
Rimo-nos gostosa e desdenhosamente dos esforços inglórios —
sobretudo por terem sido inglórios — dos gramáticos antigos para preservarem a
língua contra o uso espúrio, opondo a língua culta à língua popular, opondo a
língua escrita à língua falada. Desarmados pela evidência histórica e munidos
do preceito pragmático que é «se não os consegues vencer,
junta-te a eles», eis que nos pusemos a agir em nome e a favor de um certo
futuro, ou melhor, de uma certa ideia de futuro.
[Quer isto dizer que, para dar um exemplo por enquanto
caricatural, dadas as suas actuais misérias, as vogais átonas pré-tónicas — que
no português do Brasil vivem na abundância — poderiam um dia vir a ser
suprimidas por via administrativa em nome da antecipação do seu destino
histórico.] Em desfavor deste futuro, inevitável e irreversível, só poderiam
estar os velhos do Restelo, agrupando puristas, saudosistas, conservadores, e
todo um exército de contumazes oponentes da mudança e a ela resistentes, que
muitas vezes o são, dizem-nos os adeptos do progresso, por mero desconhecimento
ou incompreensão (como se conhecer e compreender fosse igual a aceitar). Creio
que muitos reconhecerão esta panóplia discursiva de outros contextos, embora se
trate certamente de uma coincidência…
Quisemos, então, examinar os usos em termos quantitativos e
determinar que língua falava o cidadão comum, de que mínimo necessitávamos para
nos entendermos. Encolhemos a língua na medida das necessidades e fizemos
dicionários e gramáticas à medida dessas necessidades.
O descritivismo triunfou sobre a normatividade. Significou
isso, na linha do que acabámos de dizer, que a descrição linguística operou sobre
um corpus em parte determinado, ou pelo menos sancionado, pelo uso. A norma
gramatical tornou-se permeável, por exemplo, à suposição de uma «intenção» do
falante ou mesmo às suas «preferências». [Vejam-se por exemplo as hesitações na
concordância com expressões partitivas, ou de quantificação, e respectivas justificações.] Além disso, o antigo sistema de
regras e excepções gramaticais, considerado insuficiente para abarcar todas as
possibilidades da língua usada, foi tomando a forma de um vasto e complexo
estendal terminológico.
Esbateram-se as antigas distinções entre culto e popular,
entre escrito e falado. Quem alguma vez deu aulas de português a estrangeiros
conhece as dificuldades de explicar a «utilidade» da aprendizagem do
mais-que-perfeito do indicativo, do futuro do indicativo, ou do condicional,
que a língua oral substitui sistematicamente, substituição que ninguém parece
particularmente interessado em corrigir: ninguém quer ficar do «lado errado da
história». Porque é assim que os falantes dizem, é claro. «É a evolução da
língua, estúpido!», dirão alguns mais acerbamente. Algum dia alguém exigirá que
se amputem essas excrescências inúteis.
Entrámos assim no reino da superstição democrática (a
expressão é de Jorge Luís Borges). A lógica é, grosseiramente enunciada, esta:
«se se diz (ou se se diz assim) é porque existe; se existe tem de ser
descrito». Certíssimo! O pior é que esta proposição gera outra, igualmente
verdadeira: «se não se diz, é porque não existe; se não existe não tem de ser descrito».
A «pátria antiga», arcaica e empoeirada, e a «pátria
pequena», no sentido em que por exemplo João Araújo Correia ou Tomaz de
Figueiredo a evocaram, foram assim convidadas a retirarem-se da mesa e irem
para a cama de castigo, uma por ser velha e desconforme, a outra por ser aldeã
e rural.
Temos reduzido, então, a língua, por desbaste, a uma língua
essencial e urbana, ufana da sua contemporaneidade, desconfiada de
vernaculismos obscuros e de construções inabituais, aberta sobretudo ao
momento, atenta a rumores e tendências, sempre um pouco avessa à nacionalização
de terminologias em voga com que nos damos ares de cosmopolitismo e
sofisticação. Sobretudo, a «pátria» estreitou-se, resignada a uma certa ideia
de simplificação, que é, no nosso modesto entendimento, um argumento
inaceitável em linguística.
Creio que temos de ser capazes de olhar este processo com
lucidez, quer reconhecendo os erros e excessos, quer sublinhando as qualidade e
virtudes. O que não podemos é olhar o fenómeno, prazenteiramente, como um
infeliz embora divertido acidente, que, por meio de jigajoga, se haverá
finalmente de recompor. Talvez não possamos mesmo limitarmo-nos a descrever o
acidente e anunciar: «Querida, encolhi a língua». Afinal, o empobrecimento
nunca é um filme cómico.
3.
Mas não é tudo.
A língua literária foi sempre considerada
o repositório dos tesouros da língua, guardiã da sua história, a sua linhagem
nobre, espaço de fixação lexical e sintáctica, e, na mesma medida, o lugar da
sua reinvenção.
Tal era possível porque o escritor — «semelhante a uma luz
que, invisível em si, aquece e torna visível o mundo», como escreveu Jünger —
era uma reconhecida autoridade no domínio da língua, fonte de abonação e de
legitimidade. Exemplar, mesmo que disruptor, pois só sabe desfazer bem quem também sabe fazer bem. A principal razão disso residia
no facto de terem os escritores, em geral, um forte domínio da língua e uma
consciência aguda das suas variações e possibilidades, bons conhecedores dos
seus usos literários através dos tempos e, muitas vezes, defensores, com
especial filáucia, das suas particularidades. Desses, já só se reconhecem uns
poucos. Mário de Carvalho ou Fernando Echevarria representam bem os que aqui
não menciono.
A abonação e a legitimidade é hoje vulgarmente procurada em
jornais e blogues, onde todos podemos ser autores. O texto publicitário, a
reportagem, a entrevista, a notícia, o requerimento ou a carta dividem entre
si, em partes irmãs, com a literatura, o espaço curricular da língua, nas escolas.
A literatura veiculada escolarmente barricou-se num universo «infanto-juvenil»,
e daí não sai.
Mais do que para a literatura, os poderes públicos estão
orientados para os problemas da literacia, que é, hoje, entre outras coisas,
também um problema de saúde pública, o que só por si diz muito sobre o
empobrecimento da língua. Não que esses problemas não sejam reais por esse
mundo fora, mas porque a aprendizagem afastada da língua literária é
objectivamente empobrecedora. É um trabalho de modista que desconhece a
alta-costura.
Se escritor é todo aquele que escreve, ao contrário do que
afirmaram Nemésio ou Mourão-Ferreira, confunde-se agora com o publicista, que
não pode ir muito além da língua essencial que lhe permite ser lido: a língua
literária também encolheu, talhada e tolhida pela necessidade. Passou a quase
não se distinguir da língua comum, a procurar mesmo uma normalização, uma habitualidade reconhecível. Até porque a língua comum
absorveu e banalizou certas fórmulas e recursos, como a inversão da ordem entre
nome e adjectivo. O fenómeno, que não é exclusivamente português, tem uma clara
dimensão económica e editorial.
Folheemos romances ao acaso para vermos como as personagens
reagem encolhendo significativamente os ombros a cada passo e a cada página;
para vermos como, em diálogo, respondem sempre, mas rarissimamente replicam,
retorquem, retrucam, redargúem, anuem, assentem, objectam, argumentam ou
contrapõem; para vermos como as estruturas sintácticas e lexicais não
ultrapassam um determinado grau de simplicidade ou de sensaboria. A
simplicidade e a sensaboria de uma língua normalizada e abençoada pelos
processadores de texto, que maldosamente insinuam a dúvida em quem não tem já
muitas certezas.
Significa isto também que o leitor médio, e sobretudo o
leitor jovem, tem vindo a perder a capacidade de ler os clássicos, antigos ou
modernos, crescentemente feridos de ilegibilidade, quantas vezes impedidos de
entrar, quando não expulsos do cânone escolar.
Sabemos que a língua sofre transformações. Sabemos que cada
época tem a sua língua essencial. Mas sabemos igualmente que a língua é cumulativa,
o que não é usado num certo momento não deixa de existir por isso, é um
remanescente, pronto a entrar em acção quando tal lhe for solicitado, ou, para
ceder aos usos de agora, um importante activo.
É preciso olhar este fenómeno de encolhimento, não de forma
relativista, observando apenas — encolhendo os ombros — que sempre foi assim em
todas as épocas, mas trabalhando para que os múltiplos afluentes da língua não
sejam estancados.
4.
A nossa língua – a comum e a literária, nos seus diversos
registos – é muito rica em tesouros escondidos. Como desenterrar e recuperar
essa riqueza?
Lendo. Descobrindo, aprendendo. Lendo. Redescobrindo,
reaprendendo. Observando as diferenças necessárias entre a língua falada e a
língua escrita. Escutando. Corrigindo. Lendo. Redescobrindo e reaprendendo a
língua na sua grandeza e na sua diversidade, diacrónica e sincronicamente
considerada.
Evidenciando, por exemplo, a importância de uma prática de
escrita e de leitura confiável:
«No que toca à precisão e propriedade da linguagem, fontes
indispensáveis da clareza, é preciso que desde logo aprendamos a distinguir o
sentido próprio e figurado das palavras, a explicar, por meio de frases,
diferentes acepções da mesma palavra, a indicar a ideia geral comum a várias ideias
e a ideia particular expressa por cada uma delas.
Aprenderemos a descortinar,
por exemplo, que em “abater, demolir, arruinar, destruir” existe uma ideia
comum qual é a de “fazer cair”, mas que cada um destes verbos tem um
significado e emprego particulares. Compreenderemos que indicar sinónimos não é
tanto apresentar palavras que exprimam as mesmas ideias (caso que geralmente só
acontece com palavras de origem diversa ou chegadas até nós por via diferente, e
ainda assim com diferente emprego), mas sobretudo ideias semelhantes.
Aprenderemos a encontrar por nós próprios locuções e frases correspondentes de
outras, por meio das quais possamos evitar as repetições de forma ou as
desarmonias do estilo. Aprenderemos também até que ponto os provincianismos e
os neologismos são admissíveis, e seremos levados a reconhecer que os
barbarismos de construção são muito mais reprováveis que os de simples
palavras, porque sujeitam o pensamento a moldes estrangeiros e brigam com o que
há de fundamental no espírito de uma língua.»
Palavras colhidas no livro Problemas de Análise Literária,
de F. Costa Marques, licenciado em Filologia Clássica, professor do Liceu de D.
João III, em Coimbra, na sua já longínqua primeira edição da Livraria
Gonçalves, de 1948.
Muitos serão os caminhos, como as moradas. Apenas me atrevo
a enunciar um deles: voltar a uma orientação que faça regressar a semântica, e
com ela a atitude e o procedimento filológicos, que faça regressar todo um
programa de minúcias e subtilezas com que sejamos capazes de enfrentar a
bruteza dos tempos.
Jorge Colaço
Lisboa, Maio de 2016
Subscrever:
Mensagens (Atom)






