segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016
Caminho para o Infinito
[E o mais irónico serão, (porque já o foram )
Os caminhos desenlaçados como histórias
E o mais estranho é (porque sempre o foi)
Essa infinitude dos caminhos e da história.]
{Há qualquer coisa de ausente a partir daqui
Como se visse os teus sonhos como romances
E tornasse a lê-los como duplos romances
Rescritos com o mesmo vigor
E tornar a recordá-los uma outra vez
Como se recortasse pedaços de palavras
E deles levasse o que de mais luminoso são
E com eles pudesse
Reconhecer caminhos
E deles também levasse
As flores que se entendem por destino}
]...Não é tão exacto o céu como supões
Dispostos os astros sem contradições
Servem as estrelas o navegar
Mas não servem quem além do céu estrelado ousa passar
Não é exacto por viver no corrupio
Do suor do poeta em desafio
É mais como essas gotas caindo
Por aqui e por ali fazem elas o caminho
Caindo em palavras no papel
São soluços de um coração que não é frio
Guiam sem guiar por quem escolhem
Aparecem sem razão ou previsão
Muito se assemelham ao calafrio
Que há no silêncio donde cai
Essa nota de música que de súbito vem
E revela a exactidão da certeza
Que da alma tanto tempo esteve refém
E para que o espírito viaje
Tem de atravessar as rotas
Entre elipses e cornucópias
Entre todas as linhas tortas
Mais torto que elas delas se desvia
E tão rápido e solto assim vem
Que sem saber dele os astros prosseguem
Seguros e soberanos em seu designíos
São belos vestidos ocultando
Outros e mais secretos sentidos...[
(Cynthia Guimarães Taveira)
terça-feira, 16 de fevereiro de 2016
Mistério Musical
A dança consente que a música entre no corpo. Se possível no corpo todo. Se possível apagando-o, anulando-o até ser só música. Decide-se dançar.
Subia o Chiado progressivamente triste, entristecendo a cada passo e, só à medida que me aproximava da Brasileira, era audível uma violoncelista solitária tocando uma música qualquer mas que o violoncelo se encarregava de a tornar matéria depressiva.
Sempre reagi mal ao violoncelo. Ao violoncelo isolado. Já ouvi a não sei quem ser o instrumento que mais reflecte a voz humana e talvez, por um mistério maior, ouvi-lo assim isolado, como um humano-ilha me atinja qualquer coisa de pesado, como uma solidão anti natura no meio de um universo preenchido.
Pascal Quignard disserta, às tantas, sobre o facto de os ouvidos não possuírem pálpebras sendo por isso a música, ou o ruído, mas aqui falamos de música qualquer coisa que se impõem. Tem qualquer coisa de tiranica, se deixarmos. Não se queremos.
A música serve-nos servindo-se de nós e vice-versa... pode ser a ilusão da cura de um sentimento ou pode ser mesmo a cura dele...
Erik Satie, esse personagem formidável, vivendo de cabaret em cabaret, bebendo até à cirrose final, único ao ponto de criar a sua própria ordem iniciática criou a música ambiente e pedia encarecidamente aos amigos que a ouviam para continuarem a falar normalmente. Para que não se calassem. Pediu-lhes, sem que estes dessem conta e, talvez até ele, que não se subjugassem à música. Intuindo tanto o subliminar como a vontade dos seres acima de qualquer influência.
Pode gerar um desacordo teórico, a música. O minimalismo deste compositor que tocava, quantas vezes, aquela harmonia oriental, compôs em contra-corrente à grandeza dos clássicos e em contra-corrente à sua própria vida caótica. Fica sempre a pergunta: como tendo uma vida assim, de garrafas, de copos, de corpos, de instantâneo caos, como com tudo isto lhe saia o oposto em notas breves, pontuadas de silêncios que caminhavam tranquilamente por entre as frestas do que de mais profundo e sagrado há no ser humano?
Quem sabe se a resposta está no Heavy Metal? Lembro-me, por diversas vezes, ao longo da vida, me ter cruzado com aquele tipo de alunos que tira sempre a nota máxima a tudo. Achava-os geniais. Mas naquilo em que achava haver o maior prodígio era o facto tirarem eles aquelas notas altíssimas e serem incondicionais admiradores de Heavy Metal. Em qualquer cabeça lógica isto não faz sentido até se chegar à auto-análise.
Como me saem anjos, mundos barrocos, luminosos e harmoniosos dos pincéis, tantas e tantas vezes ao som da mais banal estação de rádio com música da moda, quanta dela sem grande qualidade? Como? Da mesma forma que Satie e tantos outros que viveram na aparente ambiguidade. A harmonia é interna e não externa.
A leitura fácil e idiota de ler os homens pelo que ouvem é tão infantil como lê-los pelo que vestem.
Mas pode-se voar ao som da mesma música. Como se pode voar em conjunto vendo um filme, lendo passagens de um livro, olhando uma paisagem. A sintonia... a dois ou a três ou a mais é possível quando o ser se despe e se entrega no mesmo fragmento de segundo, da mesma maneira.
Como se explica a esfera celeste de onde parece provir alguma música, e como se explica que esta seja tantas vezes utilizada em sociedades primitivas para que o corpo cesse e se possa entrar na esfera celeste ou infernal? De que trocas falamos? Místicos que, subitamente, ouvem anjos cantar, instrumentos provindos de uma outra esfera a tocar. Almas que se erguem, capazes de voar...
(Cynthia Guimarães Taveira)
segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016
O Anagrama quase infinito de Pessoa
Teresa Rita Lopes numa entrevista dada à edição do jornal Sol de 13 de Fevereiro de 2016 tem várias afirmações interessantíssimas mas uma delas parece-me de extrema importância: "Mais de metade dos textos do espólio continuam inéditos". Esta afirmação, que não é inédita, parece ser esquecida frequentemente por quem ousa atravessar os universos de Pessoa. Se menos de metade do que escreveu nos confere imediatamente a noção de um anagrama de ideias, de mundos, de presenças, de sensações, creio que a outra metade, provinda de uma pessoa tão complexa, nos compromete com a ideia de que esse anagrama tende para o infinito ou para o Absoluto como tantas vezes o poeta referia o "ilimitado".
A pergunta que se pode fazer, depois de tantos anos passados da sua morte, (até mesmo aqueles anos necessários para que as edições da sua obra passem ao domínio público) é o porquê desse espólio não ter sido ainda pesquisado e editado. Teresa Rita Lopes fala-nos da tendência para edições com falta de qualidade e deixa entender que a obra do poeta é, muitas vezes, um trampolim para a exacerbação dos egos, para a venda (com edições feitas de qualquer maneira) de livros, para a confirmação de teses pessoais quer sejam ideológicas, religiosas, académicas e por aí fora...
A complexidade do espólio, das caligrafias presentes nos manuscritos do poeta (que tinha vários tipos de letras...), a ausência de capacidade de relacionar esse espólio entre si (confrontar os escritos, decifrar percursos, datas, coerência de pensamentos e por aí fora), requer a paciência de um chinês, (de vários chineses) uma capacidade de investigação exaustiva, uma entrega de várias vidas.
Gozando nós de um estatuto "europeu", essa Europa da cultura e civilizada, não deixa de ser estranho, e passados quarenta anos de democracia que, tendo nós no nosso património um poeta tantas vezes considerado como um dos expoentes da literatura mundial, ele continue por estudar. Se parte é "culpa" dele - quem o mandou ser tão complexo, tão versátil e tão indecifrável, às vezes? - outra parte parece prender-se com vários problemas que, todos juntos, bem embrulhados e com devido laçarote de oferta, sejam um presente da ignorância da sua obra. Da pessoa que era Pessoa, há várias teses, plasmadas ou não dos próprios autores que constroem as teses sobre a "figura" de Pessoa, e se não plasmadas quantas vezes misturando o artista com obra numa espécie de ficção tridimensional baseada na fórmula: Pessoa + Obra = ao Pessoa que calculo que fosse... ou que gostaria que fosse ou que dá jeito que seja, ou que eu teimo que seja ou que "ai dele se não for" e por aí fora.
Existem lutas por espaços académicos que não facilitam a obra arqueológica? Não sei, mas é provável... Existem lutas ideológicas com a mesma consequência? É provável. Será que noutro país europeu a sua obra já estaria, pelo menos, mais estudada? É bastante provável que sim, ou talvez não, e esses problemas que nós temos sejam comuns a muitos países. No mundo editorial há razões para que o desconhecimento prevaleça? É provável que sim.
Um dos problemas, facto para o qual já alertei várias vezes ao longo de anos, prende-se também com a cada vez menor atenção dada aos estudos humanísticos, por assim dizer, dando primazia à tecnologia e cursos que a ela conduzem.
O que se pode fazer para resolver esta questão? Bem, Teresa Rita Lopes diz ter vontade de reabilitar o poeta o que já é muito bom que alguém o queira fazer em termos académicos, (embora não morra de amores pelo mundo académico sublinho que algum rigor que possa ter faz, de facto, muita falta), por outro, podemos esperar que a conta gotas saiam inéditos mesmo que estrategicamente colocados por entre a obra já publicada.
As edições críticas são o suporte de uma leitura de Fernando Pessoa e se houver dúvidas quanto à qualidade da edição há sempre alguma ponta por onde "agarrar", alguma pergunta que se pode fazer, alguma investigação na qual possa (tendo alguma fé) tirar uma dúvida sobre uma palavra ou outra.
O anagrama de Pessoa pode tornar-se cada vez mais denso à medida que vai sendo explorado exactamente pela inexactidão de algumas edições que apenas dão a impressão de serem "seguras" ou "fiáveis" ficando o seu estudo semelhante a uma sobreposição de anagramas onde se cruzam os do autor e os do autor-leitor.
Para além disso, e essa é a melhor parte desta história rocambolesca do poeta e seus leitores, há poemas (lindíssimos), fragmentos (sensíveis), escritos (inteligentíssimos), frases (magníficas), ideias (ultra avançadas e originais), livros, que enchendo estantes, nos permitem lê-lo, interpretá-lo devagar.
Temos, portanto, um banquete crítico à nossa espera e até um poema, um só poema, em ensaio transformado, ensaio ao qual nos entreguemos de viva voz e vivo coração pode ganhar a dimensão de uma experiência para a vida.
(Cynthia Guimarães Taveira)
segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016
Lugares sagrados
Estás a dizer-me:
- Cada pedaço de terra, cada paisagem, cada cenário por onde foste passando era sagrado, só que não o vias.
Penso ser isso óbvio, basta que haja história para que esses pedaços de terra, essas paisagens, esses cenários possam ter sido sacralizados um dia...
- Não compreendes o que digo. Mesmo que nunca tivessem sido sacralizados e reconhecidos como tal eles já faziam parte da tua história sagrada sem que te desses conta. A virtude está em perceber como todos eles, agora que os podes repetir, fazem o sentido da tua história. Passarás por eles outra vez mas olharás para eles como se os lesses. O passado só pode erguer-se à tua frente quando efervescente de sentido é o teu futuro. Se assim não for, resta-te a infância como lembrança e não alcanças esse lugar onde, por onde passas de novo, é possível que avances por entre caminhos invisíveis, outros tais que mais tarde reconhecerás como se os soubesses.
(Cynthia Guimarães Taveira)
quinta-feira, 28 de janeiro de 2016
Imperfeito vento
Os livros que escreves
Ordenam o teu caos em palavras
São lembretes amarelos
De compras que não justificam
A ordem inalterada dos deuses
Lineares, eficazes,
Vão enchendo a dispensa
Na firmeza dos próximos passos
E sempre é breve...
Os deuses aparecem em sopros
Com máscaras do que não são
Incaptáveis em livros
E nem em surrealismos vão
É no intervalo do imperfeito vento
Que eles sempre vivem e sempre estão.
(Cynthia Guimarães Taveira)
segunda-feira, 18 de janeiro de 2016
Iniciação à Leitura de Fernando Pessoa e Iniciação à Leitura dos Leitores de Fernando Pessoa
Houve um tempo em que havia profetas depois... Depois isto
endureceu, então no último século, endureceu ainda mais, e restaram os poetas
nos seus acessos de loucura expedita na revelação. O afastamento da dimensão
múltipla dos homens, devido à "especialização" temática e gestual
concedida "generosamente" pelos efeitos da Revolução Industrial
conduziu-os, inevitavelmente (?), à leitura parcial das coisas, (efeitos do
trabalho sequencial fabril - febril) causando artrites (atritos) e artroses (atrasos
atrozes) - os "erres" parecem empatar a palavra... - crónicas. O
primeiro empate é óbvio: a confusão entre profecia e adivinhação que confere o
tom "irremediável" àquilo que é apenas "revelação"
subsistindo no limbo atemporal até que seja confirmado, ou não, não havendo obrigatoriedade
alguma a que os factos revelados se comprovem (quando condutores à desgraça até
é bom que nunca se cheguem a comprovar...). O segundo empate é o da confusão
entre profecia e poder (tirando os poderes proféticos cujo orgulho tende a ser
imediato), há uma leitura igualmente errónea e parcial uma vez que, no concreto
e na vida real, tais capacidades se tornam um fardo, uma permanente
marginalização de qualquer espaço social. Se estou a inventar? Não, basta ir à
História... E, por último, e tendo tais funções passado para as mãos dos poetas
(malta de esquerda leiam o Manuel Alegre anos antes do 25 de Abril e a sua
conversa com cravos - nem os homens de esquerda laicos se escapam ao dom) são,
tantas vezes, alvo de leituras erróneas e parciais, provindas de nós, leitores,
produtos de comportamentos intelectuais fabris, recolhidos em tocas ideológicas
(as ideologias são uma misturada de Revolução Industrial, Messianismo e
platonismo - a única Revelação que foi dada a Platão foi a da sua própria morte...,
o resto foram exercícios demonstrativos do mito e entender isto custa ...).
Convém então lembrar que a leitura pode ser uma forma de arte. E como? Basta
rever os princípios do rito que estão presentes na construção de uma obra de
arte (que como já referi começa e acaba na liberdade não deixando de ser um
Rito). Outro princípio é aquele que diz que o artista se transforma a si
próprio enquanto transforma a matéria prima. Outro princípio está em ir além do
mestre, "matando-o". Todos estes princípios (porque necessitamos
sempre de pontas por pegar senão cai-se no vazio vazio e não no vazio cheio - é
este o erro do budismo acelerado e importado aceleradamente, aliás, esta visão
acelerada também é produto da formatação do pensamento por via do decréscimo do
trabalho manual... E estou convicta que nas aldeias japonesas muitos sabem
disto - a elaboração de uma e uma só espada tradicional de samurais, dentro de
uma família que possuí o segredo da sua elaboração, demora mais de um ano,
todos estes princípios, dizia, podem estar subjacentes ao acto que é ler. A
qualidade não é mensurável por se mover nestas águas. O acto de ler poesia, em
voz alta ou não, é em si próprio um acto criativo. Se o autor não está ausente,
o leitor também não o está e tratando-se nós de seres holísticos (embora muito
esquecidos disso) imaginem a quantidade de possibilidades que vós, leitores,
escondem dentro de si. Fernando Pessoa fragmentou-se todinho para que um dia os
homens fossem poetas. Fragmentou-se em busca do seus leitores futuros, parte
das suas saudades, iam para aí. Pelo caminho, sabia bem, teriam revelações,
como ele as teve. Uma delas foi essa dos seus leitores futuros. Mas sabia
perfeitamente que a visão parcelar das coisas contrariava a natureza humana que
tende para o Absoluto. Então aqui em Portugal, nem se fala. E o que ele
sublinhou isso... isso e a matéria-prima que é a língua portuguesa.
(Cynthia Guimarães Taveira)
terça-feira, 12 de janeiro de 2016
Um dia...
As crianças têm coisas destas sobretudo quando conseguimos
algum silêncio no universo do nosso mundo adulto sempre mal arrumado e bem
arrumado para as visitas... o exercício de Português pedia ao aluno que
acabasse as frases. Era-lhe dado um sujeito da frase e o resto era com ele, isto
para que ele distinguisse o Grupo Nominal do Grupo Verbal na moderna
línguisitica saída de um qualquer programa de computador. “Mostra”, pedi-lhe,
para que pudesse ver se havia alguma coisa a corrigir.
Uma das frases tinha por sujeito dado: Os poetas. O rapaz
acabou da seguinte maneira: fazem um poema todos os dias.
“Os poetas fazem um poema todos os dias”, melhor que
qualquer oração, verdadeira brisa de Elias escrito num lápis tão leve que
custava a ler.
Andei uns anos a ler umas coisas sobre Portugal e também
andei uns anos por aí a ver o que via e não devia. Das coisas que li ficou-me
uma certa tradição poética do país. E ficou também a importância dada à língua
por poetas, escritores e até governantes. Ficou-me assim uma espécie de
promessa misturada com uma espécie de evocação da língua portuguesa como se ela
fosse, na sua essência, uma reunião das duas.
Creio que Pessoa teria gostado de ler esta frase do menino.
Muito dele há igual àquele outro do seu poema que anda pelo Outeiro a correr e
a jogar com pedrinhas. Tive mesmo pena que o poeta não estivesse ali ao meu
lado. Teríamos olhado um para o outro e dito ao mesmo tempo:
“É esta a pedra invisível do novo tempo. Aquele no qual
todos os homens farão um poema por dia na absoluta liberdade de poder escolher
não o fazer”.
(Cynthia Guimarães Taveira)
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